Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
“Minha especialidade é anestesia”. Com seu peculiar senso de humor, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin resumiu com maestria na manhã de quinta-feira (31) no programa de Ana Maria Braga o que ele fez para mitigar os efeitos do tarifaço ameaçado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na economia brasileira.
Alckmin agiu para diminuir a dor que a sobretaxação provocaria em todos os brasileiros. E é inegável que teve sucesso. Com as quase 700 exceções na lista, a intensidade do tarifaço foi fortemente atenuada. A forma como o dr. Alckmin agiu para anestesiar a sobretaxa ameaçada por Trump foi antecipada aqui no Correio Político, na coluna do dia 25 de julho com a ajuda dos empresários.
Leia maisOs instrumentadores do vice-presidente na sala de cirurgia foram os empresários, do Brasil e dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, Alckmin reuniu-se com mais de cem empresários ou associações que os representam, tanto brasileiros como norte-americanos.
Diante do fechamento de qualquer canal político ou diplomático, Alckmin apostou na pressão feita pelo setor privado. Por uma razão clara: se Trump sobretaxasse todos os produtos que o Brasil exporta para os EUA, o prejuízo não seria somente para o Brasil.
A indústria aeronáutica é o melhor exemplo do estrago que um tarifaço total provocaria aos EUA. Os aviões da Embraer dominam completamente a aviação doméstica regional do país. Algumas linhas que operam em aeroportos menores exigem que as aeronaves tenham, no máximo, 39 toneladas. E são poucos os aviões no mundo com número maior de assentos com essa característica. A linha E1 da Embraer a tem. Por conta disso, a SkyWest, que opera mais de 2,5 mil voos diários, tem 265 aviões E175, da Embraer. É mais da metade da sua frota, de 502 aeronaves. Ainda que não comprasse novos aviões, a SkyWest teria de comprar peças.
Tais peças ficariam mais caras. E, naturalmente, a empresa repassaria o custo maior aos consumidores. As passagens ficariam mais caras. E se a linha E1 é boa para esse tipo de voo, novos aviões seriam comprados. De fato: já havia 181 pedidos novos de companhias dos EUA.
Os eventuais prejuízos não parariam aí. Não é toda a linha de montagem da Embraer que fica na sua sede, em São José dos Campos (SP). Parte da produção dos aviões é feita nos EUA. Com funcionários dos EUA. Que ganham salário e consomem nos EUA.
Ou seja, no extremo, o tarifaço poderia levar a demissões nos próprios Estados Unidos. Raciocínio semelhante vale para a cadeia do suco de laranja. Praticamente ninguém no país de Trump pega uma laranja e espreme na cozinha para tomar o suco.
O suco é industrializado. Então, a laranja faz parte de uma cadeia produtiva que envolve milhares de pessoas. Seja de uma empresa grande como a Coca-Cola ou de fabricantes menores da bebida. Assim, aplicou-se a anestesia também no país de Trump. Só uma picadinha.
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