A crônica domingueira

Se estamos felizes, todos os dias são belos. Li esta frase estampada na traseira de um caminhão indo para minha Arcoverde, pedacinho do céu que se transformou em meu refúgio de plena felicidade ao lado da minha Nayla. Mas o que é felicidade? Os filósofos dizem ser um estado durável de bem-estar, satisfação, equilíbrio físico e psíquico. Um sentimento de contentamento profundo e paz interior.

Os antigos gregos chamavam de eudaimonia, termo ainda usado em ética. Para as emoções associadas à felicidade, os filósofos preferem utilizar a palavra prazer. É difícil definir, rigorosamente, a felicidade e sua medida. Investigadores em psicologia desenvolveram diferentes métodos e instrumentos, a exemplo do Questionário da Felicidade de Oxford, para medir o nível de felicidade de uma pessoa.

No poema “O tempo”, Mário Quintana diz que a vida é o dever que trazemos para fazer em casa. Fala sobre a velocidade do relógio e nos adverte que, infelizmente, o tempo nunca mais voltará. Meu pai Gastão Cerquinha nunca brigou com o tempo. Era marioquintano!

Mário Quintana exprime a sua visão madura e sábia sobre a vida. Reflete sobre temas como a passagem do tempo, a memória, a existência, a velhice e a morte. “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas…Quando se vê, já é sexta-feira… Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado… E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio / seguia sempre em frente…”.

Jaboatão dos Guararapes - Saúde nas escolas 2026

Lendo o livro de Edilberto Coutinho sobre Carlos Pena Filho, me deparei com uma tragédia que não tinha conhecimento: o poeta que imortalizou o bar Savoy com o seu poema “São trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados”, perdeu a vida em 1960, com apenas 31 anos, num acidente de carro no Recife na companhia do então advogado Moura Cavalcanti, que mais tarde viraria governador biônico de Pernambuco.

O carro era conduzido pelo motorista de Moura e foi atingido por um ônibus desgovernado no centro da capital pernambucana. Carlos Pena Filho recebeu uma pancada muito violenta na cabeça. O motorista e Moura Cavalcanti sofreram apenas ferimentos leves. O poeta não resistiu à gravidade do trauma craniano e faleceu dias depois no hospital.

Caruaru - Minha rua nova

São Paulo, onde passo o feriadão da Independência com os meus filhos, sempre povoou meu imaginário como eldorado dos nordestinos, a terra prometida para quem a seca expulsou do meu Pajeú, onde as almas são todas de cantadores, como imortalizou em versos o gigante Rogaciano Leite.

Enraizado em Afogados da Ingazeira, chorei a perda de muitos amigos de infância para São Paulo, em debandada sob caminhões paus de arara, que só ouvia falar nos versos de Patativa do Assaré. Como a cena me comovia! A seca não nos matava de fome apenas. Matava também os nossos sentimentos, roubava companhias que nos faziam felizes.

Ipojuca - Na palma da sua mão

Quando cheguei ao Recife para cursar Jornalismo no início dos anos 80, o Bar Savoy ainda fazia sucesso. Fui lá uma ou duas vezes, no máximo. Estudante pobre, tangido pela seca em Afogados da Ingazeira, vivi o Recife do sucesso de outros bares, como o Mustang, na Conde da Boa Vista, que servia o chope da irresistência, mas sem o caldo cultural do Savoy.

Meu amigo Carleone, dos Falcão das Alagoas, que corre comigo na Jaqueira, me presenteou com uma obra de arte, que achou num sebo: Bar Savoy, de Edilberto Coutinho, advogado, jornalista e professor universitário paraibano de coração recifense. Na verdade, coração savoyano, sustentado pelo sangue das emoções poéticas que pulsavam em cada chope no Savoy.

Olinda - Trabalhando para superar desafios

Meu amigo Álvaro Mendonça, ex-presidente da Caixa Econômica, devorador voraz de literatura política, com quem divido a boa mesa do Leite às segundas-feiras, me surpreendeu com um presente adorável: o livro “CCB – Carlos Castelo Branco, o jornalista do Brasil”.

A obra, esgotada, foi achada por ele num sebo do Recife. Li de um fôlego só no voo para Brasília. Publicada em 2006 pela Editora Senac DF, a obra reúne entrevistas históricas realizadas no final dos anos 1970 pelo jornalista Carlos Chagas e o cineasta Pedro Jorge de Castro com o célebre jornalista político Carlos Castelo Branco, o Castelinho, como era tratado.

Palmares - Forró Mares 2026

O tempo é um senhor professor. Vai nos moldando a cada página virada do calendário. Meu pai me ensinou que o tempo revoluciona a mente, o corpo e a alma. Foi o melhor amigo, conselheiro, mestre dos mestres. Era extremamente simples e nunca gostou de comemorar nada, nem sequer aniversário.

No dia dos pais, como hoje, os presentes eram recebidos a contragosto. Para ele, o melhor presente era afeto, carinho e a presença acalorada da filharada ao seu redor. Papai nunca botou uma gota de álcool na boca. Talvez isso explique tamanha indiferença quanto a festas.

Cabo de Santo Agostinho - Hospital das praias

Estou em São Paulo desde quinta-feira passada. Vim cobrir a convenção que homologará, hoje, a partir das 10 horas, a candidatura do presidente Lula (PT) à reeleição, marcada para o Expo Center Norte. Historicamente, o maior colégio eleitoral do País é marcado na política pelo viés conservador, sobretudo no Interior.

Foi aqui que surgiu a escola do malufismo no País e a cultura do “rouba mas faz”, primeiro pelo ex-prefeito e ex-governador Adhemar de Barros, depois pelo também ex-prefeito e ex-governador Paulo Maluf. Em obras estruturadores, ambos deram uma nova feição a São Paulo, embora com fama de corruptos.

Camaragibe - IPTU Verde 2026

Mesmo no calorzão do Sertão, o cafezinho das três da tarde, servido com guloseimas inesquecíveis, como broa, tapioca, pãozinho na manteiga e bolo de caco, em Afogados da Ingazeira, onde chorei no ventre da minha mãe, se traduziu em algo tão forte na minha infância e adolescência que segue guardado no melhor cantinho das memórias saudáveis e saudosas.

Grande, de madeira de lei — que cupim não rói, como diz a canção ariana —, a mesa, envernizada pelo amor, cabia todos, igual a coração de mãe. As conversas, divertidas, matavam o tempo que passa lento no chão de vidas secas, como quem não quer ir embora.

Garoto de pés descalços pelas ruas de Afogados da Ingazeira, ouvi os primeiros acordes da voz aguda de Waldick Soriano saindo de caixas de som espalhadas ao longo da feira livre. “Eu não sou cachorro não” era a canção mais tocada em disco vinil projetada em vitrolas.

Eu começava a entender o mundo, mas não tinha a menor noção sobre o estilo musical do cantor preferido dos feirantes. Me assustei quando me mostraram a capa do disco dele pela fisionomia e o modo estranho de se vestir de preto, chapéu e óculos também pretos.