O tempo é um senhor professor. Vai nos moldando a cada página virada do calendário. Meu pai me ensinou que o tempo revoluciona a mente, o corpo e a alma. Foi o melhor amigo, conselheiro, mestre dos mestres. Era extremamente simples e nunca gostou de comemorar nada, nem sequer aniversário.
No dia dos pais, como hoje, os presentes eram recebidos a contragosto. Para ele, o melhor presente era afeto, carinho e a presença acalorada da filharada ao seu redor. Papai nunca botou uma gota de álcool na boca. Talvez isso explique tamanha indiferença quanto a festas.
Leia maisEmbora arredio aos festejos — nem de carnaval ou São João gostava — papai tinha um coração fora do lugar, que caminhava para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. “Caminhava, clandestino, no corpo do filho”, como escreveu Rubem Alves, cronista da vida, que toca profundamente meu sofrido coração de filho saudoso do pai que amou sem limites.
Não é fácil falar de pai, mas fui aprendendo com os olhos grudados na sabedoria e na sensibilidade dos grandes mestres do dom da escrita. Adélia Prado dizia que o pior inferno para um pai é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele.
Vinícius de Morais também foi cirúrgico. Escrevendo ao filho, assim se manifestou: “Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas que eram para ti”.
Há muitas canções louvando pais. João Nogueira termina a canção “Espelho” com o verso: “E o meu medo maior é o espelho se quebrar”, sobre a dor de, em algum momento, não ver mais o pai em seu reflexo. Em resposta, a música traz a frase: “Pois quando o espelho é bom ninguém jamais morreu”
Na canção “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”, Roberto Carlos fala sobre memórias de um amigo e confidente. Nos versos finais, o artista diz: “Beijo suas mãos e digo/ Meu querido, meu velho, meu amigo”.
Neste Dia dos Pais, reitero que carrego no coração todos os dias o meu velho e saudoso Gastão Cerquinha. Papai morreu em 2022, mas até hoje sua voz ecoa nos meus pensamentos. A sua falta é imensa, o amor é eterno. O tempo passa, a saudade só cresce. Ainda sinto o calor do seu abraço em minhas memórias. As lições que ele deixou continuam me guiando. Guardo o seu sorriso comigo para sempre.
Em cada vitória minha, lembro dele. Ele se foi, mas o seu exemplo vive em mim. Descobri que vivo de saudades. Sinto falta de tanta coisa do meu pai, das brincadeiras, da escola, dos cheiros e sensações do tempo feliz em Afogados da Ingazeira.
Sinto falta até do que não fiz para deixá-lo feliz. Se sinto saudades, é porque ele foi muito bom. Saudade é amor que fica. Nas ocasiões de fracasso, o consolo vinha dele, que passava uma segurança que não se encontra em lugar nenhum do mundo.
A primeira coisa que ele me ensinou foi a humildade. Ter a consciência profunda da nossa pequenez, da nossa miséria, da nossa transitoriedade. Hoje, não existe mais o mandamento que ele me ensinou: beijar a mão do Pai às 7 da manhã, antes do café e pedir a bênção e tornar a pedir na hora de dormir.
Pai, onde o senhor estiver, saiba que hoje sou quem sou porque tive o melhor exemplo dentro de casa. Foram muitas as lições que aprendi com você, seja nas palavras amigas, nos conselhos ou nas broncas. Mas quantas coisas você me ensinou sobre o amor sem dizer uma palavra.
Simplesmente estando ao meu lado e me apoiando. Você sempre foi e será um grande exemplo na minha vida: de determinação, superação, amor, força. Neste Dia dos Pais, reafirmo minha admiração que sinto por você e o orgulho enorme que tenho em te chamar de pai, meu herói e melhor amigo.
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