Meu amigo Álvaro Mendonça, ex-presidente da Caixa Econômica, devorador voraz de literatura política, com quem divido a boa mesa do Leite às segundas-feiras, me surpreendeu com um presente adorável: o livro “CCB – Carlos Castelo Branco, o jornalista do Brasil”.
A obra, esgotada, foi achada por ele num sebo do Recife. Li de um fôlego só no voo para Brasília. Publicada em 2006 pela Editora Senac DF, a obra reúne entrevistas históricas realizadas no final dos anos 1970 pelo jornalista Carlos Chagas e o cineasta Pedro Jorge de Castro com o célebre jornalista político Carlos Castelo Branco, o Castelinho, como era tratado.
Leia maisLogo na apresentação escrita por Carlos Chagas, que conheci tão logo cheguei em Brasília em 1984, fiquei impactado com dois conselhos dados por Castelinho ao próprio Chagas quando este aceitou dirigir a sucursal do jornal O Estado de São Paulo, em Brasília. O primeiro: jamais contratar repórteres baianos. “São moles”, justificou, para espanto de Chagas.
O segundo: deixar claro para os patrões que ele, Chagas, era jornalista e que nunca ia parar de escrever, apesar dos encargos da chefia. “E saia sempre do jornal enquanto for dia. A noite foi feita para a gente colher notícias; deixe um auxiliar fechando a redação”, escreveu Chagas.
Este era o Castelinho, que conheci e com ele almocei uma única vez, na companhia do ex-governador Joaquim Francisco, no restaurante Piantela, então point dos políticos e jornalistas, fechado na pandemia. Castelinho foi, sem dúvida, o maior comentarista político da imprensa brasileira.
Conviveu com 13 presidentes da República, nunca empunhou gravadores. Jamais sacou do bolso do paletó o bloco de papel e a caneta que inevitavelmente inibem, quando não emudecem, até campeões de loquacidade.
Em vez de anotar o que ouvia, armazenava na memória prodigiosa informações que, na manhã seguinte, balizariam o que para uma imensidão de leitores era mapa, bússola e guia: a Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil, o JB. Natural do Piauí, casado com uma ministra do TCU, gozava da intimidade do poder e sabia tudo sobre Brasília.
“Em Brasília, cidade do poder, você deve cumprimentar as pessoas, mas não esperar em troca agradecimentos ou gentilezas. Se cumprimentar o porteiro, o máximo que ocorrerá é ele achar que você não tem poder nenhum, não manda em ninguém, tanto que fala com ele”, disse, certa vez, numa palestra para estudantes de Jornalismo.
Carlos Castelo Branco sabia identificar quem detinha a noticia. Jamais perdia o distanciamento e a objetividade. Idôneo, emanava confiança e sabia ganhá-la de suas fontes. Em sua Coluna do Castelo informava sem agredir. Revelava nas entrelinhas. Dava a perceber o que não podia ser dito.
Castelo dispensava anotações. Na memória anotava o que ouvia. Não importa se num jantar, ao telefone ou num almoço. Mesmo naquele das sextas feiras com um grupo muito próximo de amigos. No final dos anos 1970, o cineasta e professor da Universidade de Brasília Pedro Jorge de Castro e o jornalista Carlos Chagas realizaram uma série de entrevistas com o jornalista Carlos Castelo Branco.
Arquivadas por mais de 20 anos, elas contam uma parte importante dos bastidores da história política brasileira, de Getúlio Vargas a José Sarney. O livro é leitura obrigatória para alunos dos cursos de ciências políticas, história e jornalismo. Na entrevista, ele conta bastidores inéditos na convivência com presidentes militares e civil, inclusive Jânio Quadros, de quem foi secretário de Imprensa (na época não havia ainda o cargo de ministro da Secom).
No livro, tomei conhecimento que Carlos Castelo Branco registrou em um manuscrito guardado por 30 anos os bastidores da inesperada renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961. O relato revela o isolamento político de Jânio e as crises internas do curto mandato presidencial.
O texto foi redigido logo após os fatos de agosto de 1961, mas permaneceu inédito até ser publicado postumamente. Mostra o choque e o vazio de poder no Palácio do Planalto no dia do anúncio. Descreve o choque entre correntes opostas no governo: a ala governista reformista e os conservadores.
Jânio renunciou apostando em um auto golpe. Ele achava que o Congresso e os militares recusariam sua saída e o chamariam de volta com poderes ampliados. O plano falhou quando o Congresso aceitou a renúncia dele de imediato, conforme os escritos inéditos de Castelinho.
Com a renúncia de Jânio, Castelinho assumiu a chefia da sucursal do JB em Brasília de 1962 a 1972. Ali nascia a Coluna do Castello, lida, apreciada e temida pelos políticos, pois escrita por um profundo conhecedor dos bastidores do poder e um intérprete arguto da realidade política. Manteve a coluna até o fim de sua vida, em 1993, aos 73 anos.
Por sua luta pela liberdade de imprensa, o maior jornalista político do Brasil ganhou vários prêmios internacionais, como o Maria Moors Cabot, da Universidade americana de Columbia e o Prêmio Mergenthaler, bem como o Prêmio Nereu Ramos da Universidade de Santa Catarina.
Zuenir Ventura e outros cronistas definiram Castelinho como o “mestre do ofício de escrever sob censura”, capaz de dizer o que era proibido de forma velada, irritando os censores e informando com precisão o leitor.
Roberto D’Ávila registrou que Castelo possuía uma memória brilhante, dispensava anotações físicas e era um pensador que orientava o norte político do país. Já Alberto Dines referia-se a ele enfaticamente como o maior repórter político que o Brasil já teve, cuja autoridade moral e idoneidade conquistavam a confiança irrestrita das mais complexas fontes de poder.
“Até mesmo o general Emílio Garrastazu Médici o apresentou em viagem oficial aos EUA ao presidente Richard Nixon como “o mais importante jornalista brasileiro”, lembra Dines.
Leia menos


















