Garoto de pés descalços pelas ruas de Afogados da Ingazeira, ouvi os primeiros acordes da voz aguda de Waldick Soriano saindo de caixas de som espalhadas ao longo da feira livre. “Eu não sou cachorro não” era a canção mais tocada em disco vinil projetada em vitrolas.
Eu começava a entender o mundo, mas não tinha a menor noção sobre o estilo musical do cantor preferido dos feirantes. Me assustei quando me mostraram a capa do disco dele pela fisionomia e o modo estranho de se vestir de preto, chapéu e óculos também pretos.
Leia maisNunca me interessei também em pesquisar a razão. Com o Sextou da última sexta-feira, no qual entrevistei o escritor e pesquisador Paulo César de Araújo, que escreveu uma obra-prima sobre o cantor brega e cafona, como assim era tratado pela crítica, mas um grande romântico, como se apresentava, entendi a indumentária.
Segundo Paulo César, que deu uma verdadeira aula ao longo da entrevista, Waldick Soriano adotou o icônico visual por pura inspiração cinematográfica. Era um grande fã dos filmes de faroeste e baseou seu estilo no personagem mascarado do cinema, Durango Kid. Como não podia usar máscara nos palcos, adaptou o visual para óculos e ternos escuros.
Waldick soltou seu vozeirão para multidões, mas a elite brasileira nunca se curvou ao seu sucesso. A imprensa sulista era implacável. Revelou forte preconceito e elitismo durante o auge da carreira dele, rotulado como “brega” e pejorativamente chamado de “analfabeto”.
Mas ninguém vendeu tanto quanto Waldick, apesar de suas músicas que falavam de amores intensos e populares serem estigmatizadas pela imprensa como cafonas, de mau gosto e sem valor artístico. Puro preconceito. Até o monstro sagrado Dorival Caymmi se curvou à Waldick.
Numa entrevista, declarou que gostaria de ter feito “Eu não sou cachorro não”, um clássico de estilo dor de cotovelo. A letra narra a dor de alguém que exige respeito em um relacionamento, recusando-se a viver humilhado ou submisso. A música simboliza a dignidade afetiva e tornou-se a voz dos oprimidos sociais.
Na época de ouro da música de protesto e festivais, compositores e críticos da MPB tradicional hostilizavam ou ignoravam a obra de Waldick. Eu também fui preconceituoso, ouvia mais a elite da Jovem Guarda, especialmente Roberto e Erasmo.
Mas o tempo se encarregou de me fazer assimilar o estilo Waldick e sua sociologia. É dele, por exemplo, o hino das serestas: “Tortura de amor”. Quem nunca foi a uma seresta e chorou por um grande amor ouvindo: “Hoje que a noite está calma/E que minha alma esperava por ti/Apareceste, afinal/Torturando este ser que te adora/ Volta, fica comigo só mais uma noite/Quero viver junto a ti, volta, meu amor/Fica comigo, não me desprezes/A noite é nossa e o meu amor pertence a ti”.
O “Poeta do Povo”, como Waldick ficou conhecido, deu voz às dores e aos amores das camadas populares. Eternizou o sentimento da classe trabalhadora ao cantar o amor não correspondido, a superação e o orgulho de suas origens, sem vergonha de ser sentimental. De origem pobre, Soriano foi peão, garimpeiro, engraxate e motorista de caminhão.
E foi com um olhar terno dirigido a este personagem que a atriz Patrícia Pillar, fã confessa do artista, produziu e dirigiu o documentário “Waldick Soriano – Sempre no meu Coração”, exibido em festivais, mas ainda à espera de uma chance para entrar em circuito. Waldick Soriano fez seu nome na música ao cantar para um povo que nunca teve vergonha de ser sentimental.
Waldick não foi cachorro, não. Ele foi, na verdade, um dos maiores cantores da música romântica e popular brasileira, representante de um estilo próprio que fez a cabeça, a alma e o coração de muita gente.
Waldick Soriano falou e cantou o amor, deu voz à agonia de homens abandonados, mulheres ingratas e paixões avassaladoras. Suas músicas o fizeram extremamente popular em todos os cantos do país, especialmente entre as pessoas mais simples, de classes mais baixas.
Com um repertório composto por boleros e sambas-canção, cuja temática eram as relações amorosas com suas desilusões e dores-de-cotovelo, as canções escritas por Waldick Soriano funcionavam como trilha sonora de um Brasil que não tinha muita visibilidade na mídia.
Isso porque as músicas refletiam sentimentos, questões e desejos que faziam parte da vida cotidiana do brasileiro comum, das camadas populares. Frente a isso, sua obra foi alvo de preconceitos tanto por parte da elite musical brasileira — que o hostilizava — , quanto por parte da crítica, que lhe atribuía os rótulos de “brega”, “cafona” e chegou a chamá-lo, por vezes, de “Frank Sinatra dos pobres”.
Numa entrevista antológica, que li no livro de Paulo César de Araújo, resgatei essa pérola dele: “Canto o amor, as decepções, as frustrações. Quem fala que não gosta da minha música é por despeito. O meu caso é como o do Chacrinha: muita gente fala mal dele, mas em casa tá tudo com a televisão ligada, vendo e rindo”.
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