Por Felipe Nascimento
Do Blog da Folha
A Copa do Mundo da Fifa 2026 entrou para a história antes mesmo do apito inicial. A edição, que terá a final disputada entre Espanha e Argentina neste domingo (19), dividiu espaço com episódios políticos e controvérsias que extrapolaram as quatro linhas do campo. Entre os protagonistas desses episódios esteve o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as políticas de imigração do seu governo.
Antes mesmo do início da competição, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor do continente africano em 2025, foi impedido de entrar nos Estados Unidos para apitar a Copa do Mundo e o atacante da seleção do Iraque Aymen Hussein foi interrogado durante sete horas em sua chegada ao país. Além disso, a delegação iraniana foi proibida de se hospedar em solo norte-americano devido a restrições de vistos.

O caso de maior repercussão, contudo, ocorreu após a expulsão do atacante Folarin Balogun, da seleção norte-americana. Trump admitiu que entrou em contato com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para pedir a revisão da punição aplicada ao jogador.
O cartão vermelho foi anulado, e o jogador participou da partida contra a Bélgica. Em resposta, atletas da seleção europeia imitaram uma famosa dança do presidente norte-americano após eliminarem os Estados Unidos com uma goleada de 4×1, em Seattle.
Geopolítica
Para o cientista político e professor universitário Manoel Moraes, a relação entre política e Copa do Mundo está longe de ser uma novidade. Segundo ele, o esporte sempre despertou o interesse do poder político.
“Há muito tempo se percebe a influência das decisões políticas na Fifa e na geopolítica internacional. O poder precisa ocupar os espaços que ajudam a organizar a sociedade. Como o esporte mobiliza milhões de pessoas, recursos e atenção, ele naturalmente se torna um ambiente disputado pelo poder político. Isso não é novo. Desde a Roma Antiga já existia a lógica do ‘pão e circo’, em que o entretenimento também cumpria uma função política”, afirmou.
Já na visão da cientista política Priscila Lapa, o contexto mundial contribuiu para ampliar a percepção sobre os episódios políticos que envolveram a competição. “A gente vive um contexto internacional de extremos políticos, de muita fragilidade dos organismos internacionais de mediarem conflitos. A gente nunca mais tinha vivenciado tantos conflitos armados ao mesmo tempo. Então eu acho que a Copa vem com esse plano de fundo da gente ter um contexto político internacional mais acirrado.”
Relação
Para Moraes, o protagonismo dos Estados Unidos decorre não apenas de sua posição política, mas também do peso econômico que exerce sobre o futebol mundial. Segundo Moraes, a relação de força pode ser observada ao comparar a Copa do Mundo de 2026 com a edição de 2014, realizada no Brasil.
Enquanto o governo brasileiro precisou alterar normas e atender a uma série de exigências impostas pela Fifa para sediar o torneio, nos Estados Unidos a lógica foi inversa, com a entidade se adequando às condições estabelecidas pela maior potência econômica do planeta.
“No caso do Brasil, a pressão da Fifa levou até à mudança de leis. Havia uma legislação que proibia a venda de bebidas alcoólicas nos estádios, mas ela precisou ser alterada por causa dos patrocinadores internacionais. Isso mostra como o capitalismo exerce influência sobre o esporte. Já nos Estados Unidos aconteceu o oposto: eles não precisaram se adaptar porque já ocupam essa posição de força dentro da lógica do capitalismo global”, comparou.
Tensão
Outro episódio que evidenciou a tensão entre futebol e política envolveu a seleção do Haiti. Às vésperas da Copa do Mundo, a Fifa proibiu que a equipe utilizasse um uniforme com a ilustração da Batalha de Vertières, confronto travado em 1803 que marcou a derrota das tropas francesas, a independência haitiana e o fim da escravidão no país.
A entidade considerou que a imagem possuía caráter político e, por isso, violava as regras da competição, obrigando a equipe a alterar o uniforme. Já o técnico da seleção do Egito, Hossam Hassan, foi advertido após realizar um gesto de solidariedade à população palestina durante coletiva.
Por outro lado, o torcedor símbolo da seleção da República Democrática do Congo, Michel Kuka Mboladinga, foi convidado pela delegação congolesa e teve liberdade para acompanhar os jogos da equipe na Copa. No estádio, o torcedor, vestido com um terno com as cores da bandeira da nação, imita Patrice Lumumba, um dos líderes da independência do país.

Outra demonstração política foi protagonizada por jogadores argentinos, que comemoraram a vitória nas semifinais contra a Inglaterra segurando uma faixa com a frase “As Malvinas são argentinas”. As Ilhas Malvinas são um território britânico e objeto de uma disputa de soberania entre o Reino Unido e Argentina. Em reação, o secretário britânico de Negócios e Comércio, Peter Kyle, afirmou esperar que a Fifa realize uma investigação completa sobre o ocorrido.

Contradição
Os casos reacenderam críticas sobre a seletividade da Fifa na aplicação de seu Código Disciplinar, sobretudo diante de outras manifestações políticas registradas ao longo do Mundial. Para Priscila Lapa, os episódios também revelaram dificuldades da Fifa em exercer o papel de mediadora entre diferentes países e conflitos políticos.
“A Fifa deveria funcionar como um grande órgão intermediador dessas relações, de neutralizar os conflitos, de deixar com que as regras do mundo esportivo prevalecessem sobre qualquer outro tipo de leitura política. Mas isso é muito difícil na prática. A gente viu a incapacidade da Fifa muitas vezes em atuar como ela deveria”, afirmou.
Um dos episódios mais desafiadores para a entidade envolveu o árbitro-assistente de vídeo Shaun Evans. Durante a partida da Alemanha contra Curaçao, o profissional foi acusado de fazer um gesto supremacista na transmissão da partida. Ele negou ter feito um sinal de forma intencional e foi inocentado pela Fifa após investigação.
Dimensão
Na avaliação do professor Manoel Soares, o esporte exerce um papel que vai além do entretenimento e pode funcionar como instrumento de formação cidadã. “Existe uma dimensão no esporte que transforma a vida humana para além da geopolítica. O esporte tem esse impulso de unir pessoas diferentes para buscar um resultado que não necessariamente é a vitória, mas a participação no jogo”, defendeu.
Para o especialista, atletas e grandes competições possuem capacidade de influenciar debates públicos e fortalecer valores democráticos quando há espaço para manifestações legítimas. “O esporte pode ser um grande instrumento de educação, um vetor de civilização. Se reproduzirmos iniciativas que fortalecem a cidadania, teríamos jogadores contribuindo para a dignidade humana”, destacou.
Um caso que extrapolou a rivalidade dos estádios envolveu comentários racistas da senadora paraguaia Celeste Amarilla contra o jogador francês Kylian Mbappé após a eliminação do Paraguai pelos Les Bleus. Em resposta, o jogador chamou a parlamentar de “desprezível”. O episódio gerou investigação na França e repúdio internacional.

Na esteira de tantas polêmicas, Moraes alerta que o potencial de conciliação do esporte tem sido gradativamente substituído por interesses comerciais. Para o especialista, a crescente influência econômica sobre o futebol contribui para enfraquecer o papel social das grandes competições. “O esporte pode ser um instrumento de alienação, como também pode ser um elemento de reflexão. Quando ele se torna apenas comércio e um jogo de interesses do capital, empobrece bastante”, concluiu o professor.
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