A crônica domingueira

De vez em quando, o programa Sextou, musical de entrevistas com estrelas da MPB e artistas regionais que apresento pela Rede Nordeste de Rádio, me proporciona fortes emoções, momentos inesquecíveis.

Eu gostaria que papai estivesse ainda no nosso convívio para ter ouvido o Sextou com Os Demônios da Garoa, que foi ao ar no dia 8 passado.

Sebrae - Fazer dar certo

O primeiro sentimento de amor que tive, o maior de todos, veio de minha mãe Margarida na infância, que em vida se revelou, literalmente, numa flor margarida. Neste domingo das mães, reafirmo que tive uma mãe doce, amável, mas dura no trato.

Que o diga meu pai Gastão, que perdeu alguns votinhos preciosos para sua eleição de vereador pelo afobamento de mamãe. Mas tudo na vida tem lá sua razão e limites. Certa vez, mamãe estava aguando o quintal da nossa casa em Afogados da Ingazeira e se depara com um bêbado intrépido, que exige que ela lave os seus pés por ser eleitor de meu pai.

Na última segunda-feira, véspera do meu embarque para Brasília, ganhei um livro espetacular da minha amiga jornalista Wanessa Campos, agora conterrânea de Triunfo, a última cidade das 78 que me adotaram, retratando a história do Theatro Cinema Guatany, a arquitetura mais bela de Triunfo, no coração da cidade.

É a que exibe mais charme e suntuosidade. A obra foi lançada em 2023, um ano após o centenário do cinema-teatro. Tido como uma das relíquias arquitetônicas do interior de Pernambuco, o icônico e secular Theatro Cinema Guarany se perpetua num pequeno, mas emocionante e informativo texto de Wanessa. No trajeto Recife-Brasilia, li com um fôlego só. Adorei!

Caruaru - Transparência 2026

A fome é má-conselheira, cresci ouvindo esta frase em tom de advertência pelo bispo vermelho dom Francisco de Mesquita, chefe soberano da Igreja Católica no Sertão do Pajeú por 40 anos, entre 1961 e 2001. Era visto e tratado como comunista. Batia sem piedade nos governos autoritários.

Combateu o bom combate numa época em que a seca dizimou almas pela fome, a desnutrição aguda. Lembrei-me dele ao receber o novo relatório mundial da fome. Conceituada agora de insegurança alimentar, a fome campeia. E mata! Em apenas dois anos, entre 2025 e 2026, chegou a 266 milhões de pessoas, impulsionada por conflitos armados, chuvas, secas e instabilidade econômica.

Ipojuca - Na palma da sua mão

Na fala solene em agradecimento ao meu título de Cidadão Triunfense, quinta-feira passada, na Câmara de Vereadores do Município, comparei o amor de uma mulher a uma cidade. Ama-se cidades? Não se ama uma cidade como se ama uma mulher loucamente, apaixonadamente.

Amar uma cidade é vê-la num rosto com corpo de pedra, como definiu Machado de Assis, que amou o Rio, amou mulheres, amou a vida. Amar uma cidade é semelhante a sensualidade feminina. Seus encantos não se escondem, se revelam como um corpo estrutural de uma mulher.

Olinda - Trabalhando para superar desafios

Criado no interior, em chão de vidas secas, carrego no corpo e na alma um perfume impregnado pelo tempo. Exala o cheiro da terra, da vida nos sertões de veredas, serras e montanhas, de pau a pique. Com o tempo, a profissão me arrastou para arranha-céus que se perdem de vista no mundo das civilizações modernas, equidistantes em calor humano.

Sou caboclo do sertão, só tenho amor no coração, diz uma canção da compositora Rita de Cássia, popularizada pelo grupo Mastruz com Leite. Eis a síntese da valorização da cultura sertaneja e o amor sincero, espontâneo e natural do homem pela sua vida longe dos agitos nos trevos e eixos cosmopolitas.

Palmares - 147 anos

O que é o mar? Como alguém, como eu, vindo de terras secas, de vidas severinas, diria ao vê-lo pela primeira vez? A única expressão que me veio foi um grande açude, parafraseando um poeta popular do meu Pajeú.

Ignorância à parte, o mar é um reflexo da imensidão de Deus. É profundo, acalma e nos renova. É fonte de inspiração, serenidade e mistério. Desperta sonhos, acalma o coração e esconde segredos profundos.

Cabo de Santo Agostinho - Hospital das praias

O tempo, temática da crônica deste domingo, é o senhor da razão, aprendi com meus sábios pais, que Deus já levou cada um no seu tempo, primeiro minha flor Margarida, depois Gastão, meu conselheiro, amigo e companheiro de todas as horas, quase dez anos depois. Aceitei e compreendi ainda mais o tempo da vida.

Na Bíblia já havia aprendido que há tempo para tudo. A palavra de Deus nos diz no livro de Eclesiastes que há um tempo para cada coisa debaixo do sol: tempo de plantar, de colher, de nascer, de viver e de morrer.

Camaragibe - A prefeitura mudou

A primeira professora é como uma estrela guia que ilumina o caminho da educação. A minha, que me ensinou o beabá em Afogados da Ingazeira, Deus já chamou, mas há outras, verdadeiros faróis da sabedoria, vagalumes que nos tiram a vedação e o lacro da ignorância, que também são eternas, inesquecíveis. E que continuam por aqui ainda a me inspirar.

Luiza Tadéia, que ilustra esta crônica recebendo o meu livro “Os Leões do Norte”, num encontro casual na loja de conveniência do posto Cruzeiro, em Arcoverde, foi o meu primeiro facho de luz como professora de Português em Afogados da Ingazeira. Uma gigante em sabedoria. Foi dela que recebi o primeiro norte da linguagem de texto.

Não escolhi o jornalismo. Com o tempo, compreendi que o jornalismo me escolheu no momento em que nasci. Ao entrar na Unicap no início dos anos 80, para cursar Jornalismo, já tinha as mínimas noções da profissão atuando no Sertão. Meu laboratório foi o Diário de Pernambuco, meu primeiro chefe Gildson Oliveira, um potiguar que arrebatou vários prêmios Essos.

O velho DP foi minha verdadeira universidade em Afogados da Ingazeira, onde fui correspondente, com extensão depois para todo o Pajeú. Mas nos bancos escolares, mergulhei no mundo da teoria e fiz amizades duradouras. Entre os que levantaram para orgulho dos pais o diploma de Jornalismo comigo, Italo Rocha, que também dividiu a bancada da redação do DP na cobertura de assuntos urbanos e policiais.