A crônica domingueira

Os brasileiros choraram com a desclassificação da seleção da Copa pela Noruega, domingo passado. Estou entre os que já esperavam o fiasco do time comandado, estranhamente e de forma inusitada, por um técnico italiano, que, também sem razões, mesmo não dando certo, já está com contrato renovado pela CBF até 2030.

Dá para entender? Veja bem como são as coisas da máfia do futebol: o novo vínculo se estende até a Copa de 2030, totalizando um salário anual de R$ 55,8 milhões, o que dá R$ 5 milhões por mês, o maior da história pago a um técnico da seleção brasileira. Os auxiliares diretos Paul Clement e Francisco Mauri, o preparador físico Mino Fulco e o analista de desempenho Simone Montanaro terão uma valorização, também pedida por Ancelotti.

Minha Afogados da Ingazeira, distante 386 km do Recife, chegou aos 117 anos de emancipação política no consagrado 1 de julho, quarta-feira passada. Como toda cidade, as festividades começaram quando o sol se estendeu sobre as serras, iluminando as areias do seco e poético rio Pajeú.

O Pajeú das flores e de mistérios, cuja lenda reza que um casal tentou atravessá-lo numa enchente, sendo arrastado para o abismo da morte e mais tarde encontrado aos pés de uma frondosa Ingazeira, daí a origem do nome da minha terra natal.

Jaboatão dos Guararapes - Saúde nas escolas 2026

Na belíssima e emocionante canção “Estrada de Canindé”, que Luiz Gonzaga compôs em parceria com Humberto Teixeira em 1951, há um trecho que não me sai da memória como perfeito retrato do sertão de vidas secas: “Lá, quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé”.

Meu pai Gastão Cerquinha, que Deus chamou em 2022 aos 100 anos, era um animal político por natureza, mas sempre chegado ao cheiro da terra, um sítio para criar gado e caprinos. Um deles ficava na região chamada Gangorra, no prumo de Iguaracy, terra de Maciel Melo.

Caruaru - Minha rua nova

Andando pelas ruas de João Pessoa, a charmosa e encantadora capital paraibana, que se transformou numa das melhores cidades para se viver no Nordeste, parei no sinal de uma avenida do movimentado bairro de Manaira e lá me deparei com Ariano Suassuna: “A tarefa de viver é dura, mas fascinante”. Botei o olho e cantei a pedra: achei o mote da minha crônica deste domingo.

Grande paraibano, Ariano via a existência não apenas com otimismo ou pessimismo ingênuo, mas como um “realista esperançoso”, combatendo as agruras da vida através do sonho e da arte. Apesar das agruras do dia a dia, ele nunca perdeu a capacidade de se encantar com a vida. Até na fala, Ariano era manso.

Ipojuca - Na palma da sua mão

O tempo não volta, é verdade, mas marca. E como marca! Marca o coração, se encrusta na alma, permanece na memória. Quando chega a Copa do Mundo, a minha memória reluz sobre uma serra em Afogados da Ingazeira, onde escalei, menino, para botar os olhos numa TV preto em branco, que, supostamente, passaria os jogos do Brasil.

Mas só assistimos chuviscos. Não lembro de quem foi a ideia, mas se propalou na cidade que o sinal de TV era alcançado em serras e montanhas, áreas de altitude. A população da minha terra acreditou piamente na tese e lá fomos para o cumo da serra, que não lembro mais o nome. Só recordo que foi uma arte desventurada, uma maluquice sem fim.

Olinda - Trabalhando para superar desafios

Acabei de ler “O Velho Graça”, de Dênis de Moraes, a melhor, mais completa e atualizada biografia de Graciliano Ramos, uma lenda da literatura brasileira. Fiquei chocado com muitos detalhes reveladores da vida dele. Teve um pai estúpido, violento, que vivia do comércio em Palmeira dos Índios. Na infância em Quebranculo e Viçosa, foi surrado pelo pai, que batia nele com muita frequência.

Graciliano não teve vida fácil. Embora escritor consagrado até no exterior, passou perrengues financeiros em todos os momentos da sua carreira. Sem bens, viveu em casas alugadas, trocando de endereços no Rio o tempo todo. Dado a paixões, viu o suicídio de um filho que o acusava de não amá-lo. Solidário aos desfavorecidos do Nordeste, era tido como pouco afável no trato pessoal.

Palmares - Forró Mares 2026

A vida é uma arte, mas para saber viver nem sempre se aprende as maestrias e os malabarismos de um artista. E para saber envelhecer? Se o tempo envelhecer o seu corpo, mas não envelhecer a sua emoção, você será sempre feliz, nos ensina o sábio Augusto Cury, que agora, não sei lá por quais razões, se meteu numa encrenca: em política. É candidato à Presidência da República. Será que perdeu a noção de felicidade que tanto nos passou em seus livros?

Ouvi — e nunca esqueço — de Roberto Magalhães, que a política é diabólica. Nunca vi momento de tamanha lucidez! Meu pai não gostava de falar de idade nem de velhice, mas acho que cada idade tem a sua beleza. Se estamos felizes, todos os dias são belos.

Cabo de Santo Agostinho - Hospital das praias

De vez em quando, o programa Sextou, musical de entrevistas com estrelas da MPB e artistas regionais que apresento pela Rede Nordeste de Rádio, me proporciona fortes emoções, momentos inesquecíveis.

Eu gostaria que papai estivesse ainda no nosso convívio para ter ouvido o Sextou com Os Demônios da Garoa, que foi ao ar no dia 8 passado.

Camaragibe - IPTU Verde 2026

O primeiro sentimento de amor que tive, o maior de todos, veio de minha mãe Margarida na infância, que em vida se revelou, literalmente, numa flor margarida. Neste domingo das mães, reafirmo que tive uma mãe doce, amável, mas dura no trato.

Que o diga meu pai Gastão, que perdeu alguns votinhos preciosos para sua eleição de vereador pelo afobamento de mamãe. Mas tudo na vida tem lá sua razão e limites. Certa vez, mamãe estava aguando o quintal da nossa casa em Afogados da Ingazeira e se depara com um bêbado intrépido, que exige que ela lave os seus pés por ser eleitor de meu pai.

Na última segunda-feira, véspera do meu embarque para Brasília, ganhei um livro espetacular da minha amiga jornalista Wanessa Campos, agora conterrânea de Triunfo, a última cidade das 78 que me adotaram, retratando a história do Theatro Cinema Guatany, a arquitetura mais bela de Triunfo, no coração da cidade.

É a que exibe mais charme e suntuosidade. A obra foi lançada em 2023, um ano após o centenário do cinema-teatro. Tido como uma das relíquias arquitetônicas do interior de Pernambuco, o icônico e secular Theatro Cinema Guarany se perpetua num pequeno, mas emocionante e informativo texto de Wanessa. No trajeto Recife-Brasilia, li com um fôlego só. Adorei!