Na belíssima e emocionante canção “Estrada de Canindé”, que Luiz Gonzaga compôs em parceria com Humberto Teixeira em 1951, há um trecho que não me sai da memória como perfeito retrato do sertão de vidas secas: “Lá, quem é rico anda em burrico, quem é pobre anda a pé”.
Meu pai Gastão Cerquinha, que Deus chamou em 2022 aos 100 anos, era um animal político por natureza, mas sempre chegado ao cheiro da terra, um sítio para criar gado e caprinos. Um deles ficava na região chamada Gangorra, no prumo de Iguaracy, terra de Maciel Melo.
Leia maisDistava uns 6 a 8 km da cidade. Parecia um oásis: água em abundância, frutas, muito capim para as criações e árvores frondosas, como os manguezais, onde fazíamos nossos piqueniques aos domingos.
Que tempo bom! Meus irmãos, oito, iam todos. A gente era feliz e não sabia. Subia no pé de manga para arrancar as mais maduras. Parecia uma competição. Havia ainda as travessuras nos pés de goiaba, de umbu e de manguitos. Ainda havia espaço para pendurar uma rede para o cochilo à sombra do pé de mangueira.
Mamãe Margarida, uma flor, cozinhava num fogão à lenha no casarão da fazenda. Pelas suas mãos divinas, saiam feijão verde, xerém, arroz mexido, cuscuz, galinha de capoeira e bode. Trazia a comida para debaixo da mangueira em caldeirões.
A sobremesa? Rapadura, mel de engenho e alfinim, que eu adorava, porque era bem molinho, se derretia facilmente na boca, diferente da rapadura. Homem devotado aos filhos, papai reunia a enorme prole debaixo de uma mangueira na maior felicidade, ao som dos pássaros, especialmente os lindos e cantadores galos de campina.
Mas minha recordação mais dolorosa da Canindé de Gonzagão tem a ver com o percurso da cidade até o sítio. Muitas vezes, era feito a pé, beirando a linha de trem, como recorda meu irmão Marcelo, criado encangado comigo. O sol, causticante, queimava a pele, esquentava os miolos do cérebro. Era a grande adversidade.
Andar a pé sob o sol escaldante do sertão simboliza a resiliência sertaneja, onde a terra seca e o céu de fogo testam a nossa fé e a coragem. A jornada é marcada pelo calor, pela poeira e pelo contraste com a beleza bruta da caatinga. Parece uma sina: no Sertão, quem anda a pé com fé não teme o calor, pois o próprio sol forja a coragem no peito da gente severina.
Li “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, a brava cearense, que amava a terra seca, o sol ardente. Na obra, ela descreve o drama dos retirantes caminhando sob forte sol, fome e exaustão. Andar a pé no sol quente da caatinga não é apenas cansaço, mas poesia bruta, segundo Rachel. Para ela, que tinha a cara e o DNA do Sertão na veia, a terra seca vira estrada e o suor prova de resistência.
Viver no Sertão é adaptar-se ao o que o sol impõe, li em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, um livro que traça o Brasil sem maquiagens. “O sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono”, escreveu ele, autor da frase mais famosa no traço da gente habitante do mundo de vidas secas: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
O sertão quente parece ensinar cada passo. E nos ensina também que quem aguenta o sol escaldante de pés no chão, não corre de tempestade. Em “Grande Sertão e Veredas”, João Guimarães Rosa também foi testemunha da fé sertaneja desafiando o sol. Constatou que entre mandacarus e caminhos de terra batida, o sol quente é testemunha da força de um povo que caminha com o coração cheio de esperança.
“Pés calejados, horizonte infinito e um sol que parece feito de fogo. Andar a pé no sertão é sentir a alma ser purificada pelo calor da nossa terra”, escreveu. A obra-prima de Guimarães Rosa é um mergulho nas angústias, amores e dualidades humanas. Explora a coragem, a vida em constante transformação e a ideia de que o sertão transcende a geografia, habitando o interior de cada pessoa.
Foi lá que li e nunca mais esqueci: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
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