O tempo não volta, é verdade, mas marca. E como marca! Marca o coração, se encrusta na alma, permanece na memória. Quando chega a Copa do Mundo, a minha memória reluz sobre uma serra em Afogados da Ingazeira, onde escalei, menino, para botar os olhos numa TV preto em branco, que, supostamente, passaria os jogos do Brasil.
Mas só assistimos chuviscos. Não lembro de quem foi a ideia, mas se propalou na cidade que o sinal de TV era alcançado em serras e montanhas, áreas de altitude. A população da minha terra acreditou piamente na tese e lá fomos para o cumo da serra, que não lembro mais o nome. Só recordo que foi uma arte desventurada, uma maluquice sem fim.
Leia maisNasci e cresci sem conhecer televisão. O único veículo de comunicação em Afogados da Ingazeira quando eu corria suas ruas descalço era o rádio. TV, só Recife, luxo exclusivo das civilizações, não de aldeias como a minha quando imberbe e ingênuo. A única novela na minha aldeia era o fuxico nas calçadas, as históricas de assombração do meu amigo de infância Fernando Moraes.
Danda de “Seu” Espedito, como assim era conhecido em nossa aldeia pajeuzeira, gostava de assustar garotos criados no colo da mãe como eu. Dizia que quando a luz apagava — a energia da cidade era movida por um motor a diesel que deixava de funcionar por volta de dez da noite — ninguém podia passar na praça porque aparecia um bicho papão.
Danda era tão ruim que descrevia a assombração para nos meter mais medo ainda: um bicho alto, vestido de branco, de boca grande para comer o fígado das crianças traquinas. Eu me tremia de medo e me escondia dentro do guarda-roupa. Quanta ingenuidade minha! Quanta maldade de Danda!
Mas voltando ao episódio da TV encravada na serra, a cidade inteira se transferiu para o nosso morro dos ventos uivantes. A subida era quase impossível: pedras, espinhos, carrapicho e urtiga. A ordem era se livrar dessa plantinha terrível, porque queima feito fogo.
O Brasil foi campeão na Copa do Mundo de 1970. O torneio aconteceu no México e a seleção brasileira conquistou o tricampeonato mundial de forma invicta, garantindo a posse definitiva da Taça Jules Rimet. O Brasil derrotou a Itália na grande final pelo placar de 4 × 1 no Estádio Azteca. Os gols brasileiros foram marcados por Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres.
Mas não vimos nada pela TV escalada no alto da montanha em Afogados da Ingazeira. Que mico pagamos, fico a pensar hoje quando essa recordação me chega em meio ao clima de Copa do Mundo. Momentos marcantes são construídos com emoção, amor e vivências.
Tornam-se memórias inesquecíveis que definem nossa história de vida. Viram coisas especiais pela intensidade do sentimento, muitas vezes nos pequenos detalhes que se enraizam na memória. A vida é como uma câmera: a gente só captura esses momentos e sentimentos se o foco sair da memória.
A Copa também chega trazendo saudade, porque a saudade é o preço que pagamos por ter vivido momentos inesquecíveis. Momentos felizes passam, os inesquecíveis ficam e os eternos, logicamente, criam raízes sólidas para sempre.
Lembranças também existem com um toque de saudade para se gravar na memória. Para Rubem Alves, meu cronista do coração, a memória não é apenas um depósito de fatos passados, mas uma construção ativa, muitas vezes poética e indomável, que dá sentido à existência e mantém vivos os afetos.
Ele a via como uma forma de “comer o passado” para nutrir o presente, com memórias que têm “vida própria”.
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