Andando pelas ruas de João Pessoa, a charmosa e encantadora capital paraibana, que se transformou numa das melhores cidades para se viver no Nordeste, parei no sinal de uma avenida do movimentado bairro de Manaira e lá me deparei com Ariano Suassuna: “A tarefa de viver é dura, mas fascinante”. Botei o olho e cantei a pedra: achei o mote da minha crônica deste domingo.
Grande paraibano, Ariano via a existência não apenas com otimismo ou pessimismo ingênuo, mas como um “realista esperançoso”, combatendo as agruras da vida através do sonho e da arte. Apesar das agruras do dia a dia, ele nunca perdeu a capacidade de se encantar com a vida. Até na fala, Ariano era manso.
Leia maisTodo mundo tem medo da velhice, menos Ariano, que morreu aos 87 anos. “Nunca reclamei da velhice, porque envelhecer é natural. A gente vive a vida toda esperando isso. É até bom. Me lembro do Álvares de Azevedo. Tenho uma pena dele! Morreu com 19 anos, rapaz, um poeta daqueles. Veja o que ele dizia, que coisa linda: “Deus, que eu morra no palco! Não me coroem / De rosas infecundas a agonia!”. Tenho a mesma sensação. Se eu morrer, quero morrer no palco”, disse o dramaturgo numa entrevista ao jornal O Globo.
Ariano nos deixou muitos ensinamentos. Era um sábio, exagerado otimista. Para ele, a literatura era uma missão, a de defender o povo e a cultura dos brasileiros. E também uma vocação. Ariano Suassuna foi um dos maiores dramaturgos e pensadores brasileiros, célebre por suas obras como “O Auto da Compadecida” e por suas defesas apaixonadas da cultura nordestina. Sua visão de mundo unia profunda sabedoria, humor e esperança.
“Passei por momentos muito duros na vida, mas os enfrentei pela minha arte, que é a minha dança. Eu sei que eu posso ficar cego, porque sou diabético — mas eu danço. Quando digo dançar, quero dizer que participo da festa da literatura. A morte é certa. Todos nós morremos — e eu danço mesmo assim. A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Agradeço a Deus o fato de viver. É com estas três palavras que eu danço: missão, vocação e festa”, disse numa outra ocasião ao mesmo jornal.
Quando diz que a vida é dura, mas é fascinante viver, recordo também que já li ele dizendo que tinha duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. Que coisa fantástica! Mas Ariano era fantástico mesmo! Ele dizia que “os mentirosos são parecidos com os escritores que, inconformados com a realidade, inventam outras.”
Sobre a força dos ideais que nos movem, disse: “O sonho é que leva a gente para a frente. Se a gente for seguir a razão, fica aquietado, acomodado.” Eita homem arretado! Ainda bem que de vez em quando chega a inspiração ao tropeçar, como fiz no sinal de trânsito em João Pessoa, na genialidade de Ariano Suassuna.
Ele morreu em 2014, aos 87 anos, mas é daqueles raros criadores artísticos que merecem a imortalidade. Seu maior sucesso, a peça “Auto da Compadecida”, e suas aulas shows constituem só a ponta de um iceberg fundamental para a arte e a cultura brasileiras.
Ao cunhar a expressão “armorial” como símbolo de um movimento de afirmação da cultura nordestina, intrinsecamente mestiça, nos anos 1970, Suassuna redescobriu um mundo fabuloso, o do Brasil profundo.
“Foi aí que meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de Cavalhada era ‘armorial’, isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão, ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também, das pedras armoriais dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à escultura com a qual sonhava para o Nordeste”, li dele, que completou:
“Descobri que o nome ‘armorial’ servia, ainda, para qualificar os ‘cantares’ do Romanceiro, os toques de violas e rabecas dos cantadores — toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca de ponta, lembrando o clavicórdio e a viola de de arco da nossa música barroca do século 18”.
A vida é fascinante, como disse Ariano, porque é efêmera. Um sorriso jamais se repete e o mesmo olhar não pousa duas vezes em nossos olhos fugidios. A vida não é sobre esperar a tempestade passar, é sobre aprender a dançar na chuva.
A vida tem a cor que você pinta. Temos que viver como se você fosse para sempre. As maiores lições da vida geralmente são aprendidas nas experiências mais desafiadoras.
Temos que viver inspirado em Ariano Suassuna: “Assim como uma flor precisa de sol e chuva para crescer, nós precisamos de alegrias e desafios para evoluir”.
Saiba que o segredo não é correr atrás das borboletas, mas cuidar do jardim para que elas venham até você.
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