Minha Afogados da Ingazeira, distante 386 km do Recife, chegou aos 117 anos de emancipação política no consagrado 1 de julho, quarta-feira passada. Como toda cidade, as festividades começaram quando o sol se estendeu sobre as serras, iluminando as areias do seco e poético rio Pajeú.
O Pajeú das flores e de mistérios, cuja lenda reza que um casal tentou atravessá-lo numa enchente, sendo arrastado para o abismo da morte e mais tarde encontrado aos pés de uma frondosa Ingazeira, daí a origem do nome da minha terra natal.
Leia maisFesta rima com retreta para manter viva a alma musical de uma cidade. Quando morava por lá, garoto imberbe e ingênuo, perdi as contas de ser acordado por retretas, à frente o maestro Dinamérico Lopes, seu Dino, como o tratávamos carinhosamente. Que homem bom no pistom, no clarinete, em qualquer instrumento de sopro.
Criou uma escolinha para não deixar a tradição morrer. Com o tempo, muitos talentos se revelaram, entre eles meu amigo Chagas. Toca de tudo, de violão a bandolim, de piano a sanfona. Um gênio apaixonado por música. Certa vez, levado por mim, encantou as autoridades em Brasília com a sua genialidade, na histórica festa de abertura da sucursal do Diário de Pernambuco.
Augusto Martins, meu mano querido, me enviou este vídeo do historiador Rodrigo Pires, que mantém a chama acesa de nossa aldeia no mundo digital por meio da página “Passado e presente”. Grudei os olhos nas imagens e entre os músicos acordando a cidade identifiquei, claro, o grande Chagas soprando o seu inseparável sax de ouro.
Minha Afogados da Ingazeira não é só um lugar no mapa. É lá onde minhas memórias moram. Onde se nasce e cresce é onde está a melhor parte da vida, a melhor parte de mim. Por onde ando, levo o orgulho das minhas raízes.
Ingrato filho que esquece ou debocha das suas raizes quando vira gente na vida! Cresci ouvindo meu pai Gastão Cerquinha dizer, em alto e bom som, que a cidade onde nascemos é o cenário de quem somos. Afogados, portanto, é parte da minha essência, sempre orgulho, nunca vergonha.
Não importa a distância, as ruas da minha cidade sempre me levam para casa. Em cada esquina, uma lembrança. Em cada canto, um pedaço da minha história. Um lugar de raízes fortes e asas grandes. Minha cidade é meu primeiro mundo, pátria amada, musa inspiradora.
As melhores histórias começam no lugar onde a gente chama de lar, de berço e Afogados me fascina mais ainda por ser extensão do berço imortal da poesia, Itapetim, chão de Louro, Dimas e Otacilio, monstros sagrados da rima, do verso solto e improvisado no batuque da viola.
Ter origem por lá é carregar no peito a força, a cultura e a beleza do lugar que me chamou para a vida. Foi em Afogados que dei meus primeiros passos, que encontrei meus maiores afetos e o orgulho de quem sou. Do seu chão seco brotam as minhas maiores inspirações e a certeza do meu lugar no mundo.
Sou do time de Olavo Bilac e nele me vejo: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! / Criança! Não verás nenhum país como este!” O grande Ariano Suassuna, personagem recente de uma crônica domingueira, dizia que o Sertão era o seu mundo. “Ele não é uma limitação para mim, é o meu universo”, disse.
Isso lava a minha alma. Machado de Assis também deixa minha alma lavada: “A terra natal, mesmo que seja uma aldeia, é sempre o paraíso do mundo”. Para mim, Afogados da Ingazeira não é apenas minha terra, é um estado de espírito, uma magia. Eu sei que tem um sol que queima, mas é lá onde está minha alma.
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