Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Após o resultado das eleições no primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez declarações nas quais afirma se sentir “surpreso” com o resultado e que esperava “ganhar no primeiro turno”. Lula teria suas razões para se sentir “surpreso” de ter saído do primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, do PL, seu adversário. Não era isso o que as pesquisas projetavam. Mas daí a imaginar que poderia de fato vencer as eleições no primeiro turno vai um descolamento da realidade.
Porque essa possibilidade nenhuma pesquisa projetava. Só poderia passar pela cabeça dos petistas mais tresloucados e entusiasmados. Os sensatos, como fez aqui no Correio Político o ex-presidente do PT Ricardo Berzoini alertavam com muita veemência que seria uma eleição muito difícil, talvez a mais difícil enfrentada por Lula. Se isso não chegou aos ouvidos do presidente e candidato à reeleição, é algo grave.
Leia maisO diretor do Instituto Indexa, Arilton Freres, disse também na semana passada ao Correio Político que se observava um movimento de voto útil de ex-eleitores dos demais candidatos, e que esse movimento beneficiava Flávio. Se Lula não ouviu as análises de Freres, imagina-se que deveria ao menos ter prestado atenção no que diziam os trackings do próprio PT – as pesquisas diárias que a própria campanha fazia. Porque eles também apontavam, apurou o Correio Político, que haveria segundo turno.
Secretário de Comunicação de Lula em seu primeiro governo em 2002, o jornalista Ricardo Kotscho declarou recentemente ver o presidente que disputa a reeleição “isolado”. A declaração de Kotscho corrobora algo que já dissemos algumas vezes por aqui. No seu terceiro governo, Lula se afastou do que alguns chamam de “Turma de São Bernardo”, aqueles companheiros que estavam com ele desde o início da formação do PT. E se aproximou do que ficou conhecido como “Turma de Curitiba”, gente que se aproximou dele durante sua prisão.
A “Turma de Curitiba” não teria a mesma capacidade de confrontar Lula. Idolatra o presidente. Alimenta a sua vaidade, que não é pequena. Fez Lula, por exemplo, acreditar que poderia ser bacana ele ser o tema do enredo de uma escola de samba, ignorando os riscos disso, como o vexame, que acabou acontecendo, de a escola, num recado, acabar rebaixada para o segundo grupo.
O cientista político Isaac Jordão acha difícil acreditar que Lula, com a experiência de ter disputado sete eleições presidenciais, achasse mesmo que poderia vencer no primeiro turno. “Não sei se isso é uma crença genuína ou um discurso para o público”, diz ele. “Por outro lado, o maior inimigo de uma vitória é o clima de já ganhou”, completa ele.
Se Lula, então, como dizia Nelson Rodrigues, “tropeçou nas fitinhas da própria máscara” terá um trabalho imenso para conseguir reverter no segundo turno um quadro que terminou desfavorável para ele. Para Isaac Jordão, será preciso modificar totalmente a atitude adotada, corrigindo agora afinal a visão do que foi a vitória de 2022.
“Desde a vitória em 2022, houve um clima de ‘vencemos o fascismo, vamos derrotar o bolsonarismo em 2026’ que era uma visão distorcida do que aconteceu”, observa Jordão. Para o cientista político, é um pouco o que já acontecera nos Estados Unidos em 2020. “Não foi Joe Biden lá quem venceu. Foi Donald Trump quem perdeu”.
Isaac Jordão ressalva que não compara Lula com Biden. “Lula é um político melhor e mais experiente”, afirma. Mas Lula muito interpretou sua vitória em 2022 como uma redenção à sua biografia depois de condenado e preso e menos como uma reação da sociedade aos riscos que via com Bolsonaro, especialmente depois do trauma da pandemia.
Assim, o caminho possível – e extremamente difícil, a essa altura – para Lula é fazer acenos agora ao centro como aconteceu em 2022. Mas o centro político brasileiro é extremamente pragmático. Ao ver a grande maioria de votos que a direita fez para eleger as bancadas na Câmara e no Senado, irá agora esse centro pragmático aderir a Lula?
Em 2022, Lula venceu o primeiro turno contra Jair Bolsonaro com uma diferença de 5,23 pontos percentuais. Tinha 48,43% contra 43,20%. No segundo turno, Lula venceu a eleição com uma vantagem de 1,8 ponto percentual. Ou seja, Bolsonaro reduziu a diferença. Lula terá agora que virar no segundo turno um resultado desfavorável.
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