Uma suposta rede coordenada de páginas e perfis da internet que estaria utilizando recursos públicos do governo do Estado para promover ataques e conteúdos difamatórios contra adversários da governadora Raquel Lyra (PSD) foi denunciada em reportagem exibida pela Rede Record na noite desta terça-feira (25). A matéria mostrou um servidor federal cedido ao Governo de Pernambuco confessando operar uma rede de páginas e perfis que se dedicam a “desidratar” o candidato a governador João Campos (PSB) e que o pagamento pelo “serviço” viria de contratos de publicidade firmados pelo governo Raquel Lyra. Somente a página Portal de Prefeitura já teria recebido mais de R$ 600 mil para executar a “missão”.
Amisadai Andrade é servidor da Caixa Econômica Federal cedido, em abril de 2025, ao governo do Estado, onde atua até hoje na Secretaria de Turismo. Segundo seu próprio relato na matéria da TV Record, ele coordena uma série de perfis destinados a criticar Campos e a postar conteúdos difamatórios contra o ex-prefeito. Amisadai é um dos rostos por trás do Portal de Prefeitura, supostamente um site noticioso, mas cuja linha editorial se dedica a enaltecer Raquel Lyra e atacar João Campos – inclusive em “colabs” (posts compartilhados entre vários perfis) com páginas destinadas à mesma função.
Em vídeo, Amisadai relata ter sido chamado ao Palácio do Campo das Princesas – sede do governo de Pernambuco – para tratar do esquema de ataques a João Campos. “O governo do Estado enxergou na gente — também a gente fez reunião com o Palácio —, enxergou a gente como um canal para a gente tentar desidratar ele (João Campos)”, diz o servidor. “A gente aqui em Pernambuco tem nosso veículo (…), a gente tem alguns perfis que a gente sempre bota um conteúdo crítico e a gente sempre conversa com o pessoal das redes para fazer colab”, continua. De acordo com a matéria, Amisadai coordenaria uma rede com mais de 300 perfis destinados a ataques contra João Campos. “A gente começou a fazer esse trabalho, ele (João Campos) tinha acabado de ser eleito com 78% no Recife, sabe… hoje ele já tá com 52%, ele já caiu muito já”.
Apesar de não figurar oficialmente como sócio da Portal Comunicação e Marketing Ltda, empresa responsável pelo site Portal de Prefeitura, Amisadai é o detentor do domínio do site na plataforma Registro.br. De acordo com o próprio Amisadai, o pagamento pela operação da rede viria da verba publicitária do governo do Estado – o que configura um flagrante e ilegal uso de dinheiro público para a manipulação de opiniões tendo em vista — nas palavras do próprio Amisadai — a “desidratação” de um candidato, ou seja: a interferência direta no processo eleitoral.
A existência de um suposto “gabinete do ódio” possivelmente operado com anuência e até mesmo coordenação de pessoas de dentro do Palácio do Campo das Princesas, e com uso de dinheiro público para financiar a estrutura, foi alvo de denúncia feita no primeiro semestre de 2025 pela deputada estadual Dani Portela (então no PSOL, hoje no PT). Ela detalhou o funcionamento da rede e o possível financiamento por intermédio de agências de publicidade contratadas pelo governo Raquel Lyra. Por questões políticas, a CPI terminou desmobilizada, mas os deputados seguiram com a investigação, protocolando, em outubro de 2025, uma denúncia na Polícia Federal para que o suposto “gabinete do ódio” fosse investigado.
A matéria da Record também mostra que um dos citados pela CPI é Waldomiro Teixeira, o Dodi, primo da governadora Raquel Lyra. A reportagem cita o caso da agência E3 Comunicação, sediada em São Paulo, que, sem qualquer experiência prévia em Pernambuco, venceu uma licitação de R$ 1,2 bilhão. Sem sede no Estado, a E3 terminou se instalando em um imóvel de propriedade de Dodi.
Em uma medida cautelar solicitada na última sexta-feira (7), a Frente Popular de Pernambuco – coligação pela qual João Campos disputa o governo – pediu às principais operadoras de redes sociais e serviços de streaming – Facebook, Instagram, Google, YouTube e TikTok – a preservação dos dados de 13 pessoas identificadas como possíveis operadores/colaboradores da suposta rede, além dos dados de 40 outros perfis cujos donos ainda não foram identificados. A medida busca impedir que os supostos integrantes da rede eliminem perfis e que seus dados sumam do ambiente digital, dificultando futuras investigações.
Ao longo de 2026, sucessivas representações passaram a revelar a circulação reiterada de conteúdos eleitorais negativos por múltiplos perfis, páginas, portais e operadores digitais, alguns deles reaparecendo em diferentes episódios, realizando publicações colaborativas e replicando materiais semelhantes ou idênticos.
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