Por Igor Maciel – JC
A decisão de Anderson Ferreira (PL) de sair da disputa pelo Senado e caminhar para uma candidatura à Câmara Federal, revelada pela jornalista Terezinha Nunes, do Blog Dellas, no JC, tem sentido claro de autopreservação política.
Anderson estava no jogo como o nome mais claramente identificado com o bolsonarismo na disputa majoritária em Pernambuco. Essa posição dava a ele uma marca eleitoral nítida, mas carregava um risco concreto em um estado de maioria lulista. O voto de direita bolsonarista e não bolsonarista alcança 30% em Pernambuco, mas os outros 70% se concentram na esquerda.
A depender do desenho da eleição, Anderson poderia receber uma votação expressiva, mobilizar o eleitorado de direita e, ainda assim, terminar fora das duas vagas ao Senado. Para um político que já está sem mandato desde 2022, esse tipo de derrota teria custo alto demais. Ficar sem mandato é caro para o capital político.
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Tempo
Anderson se desincompatibilizou em abril de 2022 da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes para disputar o Governo de Pernambuco. Deixou no cargo o vice e aliado Mano Medeiros. A política, porém, não preserva espaço vazio por gratidão. Com o tempo, Mano formou seu próprio grupo na cidade, disputou a reeleição, venceu e consolidou uma base própria em Jaboatão.
Anderson, derrotado na eleição estadual de 2022, ficou sem mandato e viu seu principal território político deixar de ser apenas extensão de sua liderança pessoal. Um político precisa ter onde colocar seu grupo para continuar trabalhando por seu nome. Mantê-los sem estrutura de um mandato vai ficando custoso e cada novo ciclo eleitoral passa a ser um fardo mais pesado.
Risco
Esse é o ponto central da decisão. Uma candidatura ao Senado poderia recolocar Anderson em evidência e ampliar sua fragilidade com uma derrota. Perder uma eleição proporcional é diferente de perder uma disputa majoritária depois de anos fora do poder. Na eleição para deputado federal, ele volta a disputar um mandato com base conhecida, marca partidária forte e estrutura familiar no PL.
Na eleição para o Senado, enfrentaria uma disputa mais larga, mais cara, mais plebiscitária e com menor margem para erro. Se perdesse, passaria mais quatro anos sem mandato. Para qualquer político profissional, esse é um horizonte perigoso. Para alguém que já perdeu espaço em sua principal base municipal, o perigo é ainda maior.
Direita
Anderson era visto como o candidato bolsonarista mais natural ao Senado em Pernambuco depois que Gilson Machado foi para o Podemos e anunciou candidatura à Câmara Federal.
O eleitorado de direita existe, é competitivo e pode ser decisivo em uma das vagas. Ainda assim, não tem maioria automática no estado. Anderson poderia concentrar o voto mais à direita e ficar preso a um teto eleitoral insuficiente para conquistar a vaga. A decisão de não enfrentar a disputa indica a percepção de que uma grande votação não necessariamente bastaria.
Raquel
As consequências mais relevantes da desistência aparecem no palanque de Raquel Lyra (PSD). Sem Anderson na disputa, o campo governista passa a ter espaço para organizar uma vaga mais competitiva ao Senado no centro ou na centro-direita. O tabuleiro geral começa a se desenhar com três nomes de perfil lulista ou próximos ao campo de Lula: Túlio Gadêlha (PSD), Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT). A quarta posição de maior potencial fica aberta para um nome com capacidade de concentrar votos do eleitorado à direita ou distante do lulismo.
É nesse ponto que crescem as pressões entre Dudu da Fonte (PP) e Miguel Coelho (União). Com Anderson fora da disputa, a votação conservadora, liberal ou simplesmente anti-lulista tende a procurar uma candidatura viável e encontrará o ocupante dessa vaga.
Dudu e Miguel passam a disputar um espaço mais valioso do que antes. O prêmio político aumentou.O custo da divisão também. Quanto mais os dois avançarem sobre o mesmo eleitorado, maior será a tensão dentro da própria base da governadora.
Avulso
Carlos Sant’Anna (Novo), com candidatura avulsa e sem vinculação oficial à chapa de um candidato ao governo, também passa a ter papel na reorganização desse voto. Ele pode captar parte do segundo voto de eleitores mais à direita que não se sintam representados integralmente pelos nomes acomodados nas chapas majoritárias. Uma candidatura fora do centro institucional da disputa também interfere no cálculo.
Cálculo
A saída de Anderson Ferreira, portanto, não esvazia a direita. Ela muda o endereço provável desse eleitorado. A decisão também mostra que, para ele, a volta à Câmara Federal oferece uma rota menos arriscada para recompor força política, recuperar mandato e reorganizar influência dentro do PL. O Senado oferecia uma vitrine maior e carregava o risco de produzir uma derrota mais danosa.
A Câmara entrega um caminho mais seguro para quem precisa voltar ao jogo antes de tentar voos mais altos.
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