Por Juliano Muta – Blog da Folha
No debate promovido pelo portal g1, nesta quarta (2), os candidatos ao Senado por Pernambuco puderam apresentar suas propostas e visões de mundo sobre variados temas pré-estabelecidos em sorteio, mas a discussão também ficou marcada pela divergência de narrativas a respeito de fatos históricos da política brasileira, a exemplo dos atos de 8 de janeiro e do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).
Estavam presentes candidatos de partidos e federações com representação mínima de cinco parlamentares no Congresso Nacional. Em Pernambuco, atendem a esse critério Eduardo da Fonte (PP), Humberto Costa (PT), Marília Arraes (PDT), Mendonça Filho (PL), Paulo Rubem Santiago (Rede) e Túlio Gadêlha (PSD).
Leia maisDepois de debaterem assuntos como responsabilidade fiscal, interiorização da saúde, violência contra a mulher, relação entre poderes, emendas parlamentares e mudanças climáticas/enchentes, os postulantes à Casa Alta que disputam as duas vagas que serão renovadas por Pernambuco entraram em rota de colisão ao falar sobre episódios recentes de tentativas de ruptura democrática no Brasil.
8 de janeiro
O candidato Túlio Gadêlha (PSD), que já havia anteriormente discordado de Eduardo da Fonte (PP) sobre a proposta de limitar o mandato de ministros do STF e STJ para oito anos, também rebateu o outro aliado da chapa ao Senado da governadora Raquel Lyra (PSD), Mendonça Filho, que criticou a dosimetria dos crimes cometidos nos atos de 8 de janeiro, a exemplo da prisão de uma manifestante que pichou a estátua do STF com batom.
“Queria até falar com o amigo Mendonça, porque eu estive no dia seguinte ao dia 8 de janeiro, não foi só a estátua e o batom, Mendonça. Foi depredação, foi tentativa de golpe, foram muitas pessoas que foram nos três poderes para depredar, vandalizar, para anarquizar e querer dizer que quem manda agora são eles”, disse.
“Eu vi aquilo de perto, aquilo foi muito grave para a democracia do Brasil e aquilo causou uma ferida. Eu pedi, eu peço para olhar o histórico dessa Débora do batom, o que ela já fez, porque das pessoas que foram detidas existem menos de 10% hoje que estão encarcerados ou em prisão domiciliar. Mas o Brasil não pode olhar, tendo um passado que nós tivemos ditadura militar, olhar uma tentativa de golpe e fingir que isso não aconteceu”, argumentou Túlio.
O candidato do PSD também lembrou da chamada PEC da Blindagem. “Aconteceu no Brasil, foi grave. E sobre poderes, competência de poderes em que o trabalho deveria ser harmônico, a Câmara tentou usurpar uma competência do STF. A tentativa de se blindar de crimes aconteceu no Parlamento brasileiro, denunciei isso. Vários deputados votaram favoravelmente, o Presidente do Senado que vetou, mas se dependesse da Câmara, infelizmente, isso aconteceu”, lamentou.
“É importante que a gente fale sobre isso, porque um parlamentar que comete um crime, ele não pode ser julgado ou seus colegas que devem o julgar, não é sério”, concluiu.
Mendonça, por sua vez, respondeu à crítica do aliado. “Quero lembrar aqui ao candidato Túlio Gadelha, que eu já fui vítima de depredação dentro do Ministério da Educação, no período que eu fui Mministro da Educação. Depredaram do térreo até o quarto andar do Ministério da Educação. Militantes do PT, do MST, de organizações sindicais, entraram, destruíram computadores, quebraram tudo”, relatou.
“Já vi e assisti no Congresso Nacional líderes de movimento vinculado aos Sem Terra invadirem o Parlamento, quebrarem portas, janelas. Eu não defendo nenhum tipo de ação desse tipo. Eu sempre me pronunciei e me pronunciei, inclusive, no dia 8 de janeiro, contra aquela atitude. Agora, o que eu defendo, Túlio e você que está nos assistindo, é o devido processo legal”, comentou Mendonça.
“Houve devido processo legal? Você pode conceber que quem te julga é teu inimigo, que tua defesa é feita via vídeo, que o seu advogado não pode fazer uma sustentação oral da sua defesa, que um crime que é típico de primeira instância vá direto para uma turma do Supremo Tribunal Federal, cheio de inimigos, daqueles que estão num determinado campo político. Não, isso para mim não é democracia, isso é abuso, isso é desrespeito”, rebateu.
Em seguida, Eduardo da Fonte foi na mesma linha da opinião de Mendonça Filho. “O que aconteceu no dia 8 de janeiro foi muito sério e nós não podemos admitir depredação, baderna ou qualquer tipo de instabilidade política. Mas as pessoas devem ser julgadas pelo seu CPF e não pelo seu CNPJ. O que a gente viu foi um morador de rua ser condenado por estar na rua. Nós temos que condenar sim aqueles que badernaram, aqueles que conspiraram contra a nossa democracia, mas com muita tranquilidade, respeitando a Constituição do nosso país. E é isso que a gente vai defender no Senado da República. Isonomia e respeito à Constituição”, frisou.
Após a fala de seus adversários políticos, Marília Arraes buscou apontar para suas condutas pretéritas. “O bom é que está sendo bem didático esse debate. A gente está vendo um ministro que ajudou a dar um golpe de Estado numa presidenta honesta, que inclusive não foi penalizada, não teve seus direitos políticos cassados, um deputado que votou também para que esse golpe acontecesse – principalmente o candidato Mendonça – e estão defendendo quem deu um golpe, quem que tentou dar um golpe de Estado”, disparou.
“É algo bem didático para você entender quem é do lado de lá e quem é do lado de cá. Do lado de cá, a gente defende a democracia, a gente defende a harmonia entre os poderes, a gente defende que o Brasil seja dos brasileiros, a soberania nacional, e não que o Brasil seja alvo de um golpe de Estado, como queriam dar no dia 8 de janeiro. Todos os participantes devem ser responsabilizados e lembrados para que nunca mais isso aconteça.
Se apresentando como uma terceira via ideológica aos que o antecederam, Paulo Rubem criticou ambos os lados. “Se a gente tem que fazer política com coerência, a gente tem que fazer política observando a história. Nós da Federação Rede/PSOL condenamos veementemente a tentativa de golpe do 8 de janeiro, como condenamos o papel do PSB no golpe que cassou o mandato da presidenta Dilma e depois aprovando a emenda constitucional do teto de gastos não financeiros. Eu não posso esconder da população aqueles com os quais eu me associo em determinados momentos, porque é conveniente esconder”, disse.
“Combatemos o golpe que cassou o mandato da presidenta Dilma, como combatemos e exigimos o julgamento daqueles que tentaram o golpe em 8 de janeiro”, disse. “Eu só quero aqui concordar com o candidato Paulo Rubens e lembrar que o que a candidata Marília chama de golpe, ela deveria apontar para o candidato dela ao governo de Pernambuco, João Campos, com quem ela estava em litígio, em briga permanente, troca de acusações de todo tipo. Aliás, ela foi muito injustiçada naquela campanha de 2020, agora está junto com João Campos, mas João Campos apoiou o impeachment de Dilma”, lembrou Mendonça Filho.
“Falava muito mal do PT, dizia que ia desembarcar aqui, se Marília fora eleita naquela ocasião, um avião com Zé Dirceu, com João Vaccari Neto, com Delúbio Soares para ajudar na roubalheira do PT aqui no Recife, acusando a prima de que estaria patrocinando isso. Então,se houve impeachment, houve impeachment de acordo com a Constituição, não foi golpe, e se foi golpe, quem patrocinou foi o candidato Marília, João Campos”, argumentou.
“Mendonça, eu dispenso a sua concordância porque ela não é coerente. Nós não aceitamos golpistas nem de um lado, nem de outro. O Brasil não pode ficar refém de políticas de conveniência, porque o golpe de 2016, do qual você participou, foi dado para retirar direitos dos trabalhadores, retirar recursos da saúde e da educação, fazer uma reforma da Previdência que não conseguiu ser aprovada”, rebateu o candidato da Rede.
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