Embora tenha crescido em um ambiente de desestruturação familiar, como o próprio define, o neto do ex-presidente João Goulart, o advogado e escritor Christopher Goulart, procura olhar para a frente. Em entrevista ao podcast Direto de Brasília por ocasião do lançamento de seu livro E Manchado de Sangue Terás que Crescer: Uma Vida de Lutas, ele avalia que a caminhada não foi fácil, em função do exílio do avô, mas projeta que os desafios fortaleceram a todos.
“Cada um carrega sua cruz. O preço maior para ele foi ter ficado o tempo todo fora do país. Obviamente, o golpe de Estado destruiu minha família, não só politicamente, mas as bases familiares. Meu avô morreu cedo por causa disso. Ele era bem-sucedido financeiramente e perdeu todos os bens. Mas eu procuro pegar tudo isso e aposto em dobro. Não gosto de vestir roupa da vitimização. Tudo isso nos fortaleceu. Eu tenho muito orgulho hoje de andar em qualquer lugar de cabeça erguida, porque, na verdade, o que tentaram fazer nos deu muito mais valor. Até para agredir alguém, tem que ter cuidado. Então procuro trazer tudo isso como forma de gratidão e muitas vezes me sinto incompreendido”, desabafou Christopher Goulart.
Leia mais“Meu avô sabia que era vigiado o tempo inteiro. Muita gente se engana a esse respeito. Acham que, depois de 1964, meu avô passou a ter vida tranquila. Ele foi perseguido até o último dia pelas ditaduras de outros países. Teve que sair do Uruguai porque teve golpe lá, depois foi para a Argentina e lá também houve golpe. A perseguição foi implacável todos os dias. Evidente que ele queria voltar ao Brasil. É muito cruel alguém que deixou tudo pela pátria ser o único ex-presidente a morrer no exílio. Aí vêm as contradições. Aqueles que muito querem matar porque são medíocres, na verdade, acabam imortalizando a pessoa. Porque quem é pequeno não sabe o tamanho da grandeza de espírito. E Jango está no panteão dos líderes brasileiros para toda a eternidade”, destacou.
Ele afirmou que a família segue lutando para reabrir as investigações quanto à morte de Jango, pois sempre houve suspeitas de que ele teria sido envenenado, o que teria causado o infarto, causa oficial de seu falecimento. As recentes atualizações sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitscheck também levantam essa tese.
“Como advogado, apurei junto ao Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul as circunstâncias da morte de meu avô. Lá existe procedimento ainda aberto hoje. Sempre digo que com certeza ele foi assassinado. Mesmo que essa hipótese do envenenamento não seja verdadeira, o assassinato dele foi muito pior do que se tivesse levado um tiro, uma facada ou um remédio. Ele foi jogado ao exílio por doze anos sem poder voltar ao Brasil. Um idealista que amava o seu país. Isso é um assassinato muito mais cruel”, concluiu Christopher.
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