Por Alexandre Cunha – Diario de Pernambuco
Alianças, rompimentos, passagens por governos e posições sobre episódios da história recente do país atravessaram a sabatina com os candidatos ao Senado por Pernambuco, nesta quinta-feira (10). Eduardo da Fonte (PP), Humberto Costa (PT), Marília Arraes (PDT), Mendonça Filho (PL), Paulo Rubem Santiago (Rede) e Túlio Gadêlha (PSD) revisitaram trajetórias políticas e expuseram diferenças sobre educação, saúde, democracia e a relação entre os Poderes. O encontro foi promovido pela Rádio Cultura do Nordeste, em parceria com o Diario de Pernambuco e a TV Nova Nordeste.
Em diferentes momentos, as divergências deram lugar a confrontos diretos. Humberto e Mendonça trocaram acusações sobre seus históricos políticos; Marília e Túlio protagonizaram uma discussão que terminou com uma acusação de machismo; e Marília também confrontou Mendonça sobre a ditadura militar e os atos de 8 de Janeiro. Mendonça e Eduardo, por sua vez, entraram em choque quando o candidato do PL pressionou o adversário a revelar seu voto para presidente. Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Raquel Lyra (PSD) também permearam boa parte das discussões.
Leia maisHumberto adotou um dos discursos mais ácidos da sabatina. Ao mirar Mendonça, afirmou que o adversário tenta esconder sua vinculação política aos governos Temer e Bolsonaro e atribuiu às duas gestões decisões que, segundo ele, prejudicaram Pernambuco. “Entendo que ele esconde Michel Temer, Bolsonaro. Prejudicaram profundamente Pernambuco. Fecharam estaleiros, privatizaram a Chesf”, afirmou.
A passagem de Mendonça pelo Ministério da Educação, durante o governo Temer, elevou a temperatura. Humberto chamou o adversário de “Mendonça mãos de tesoura” e o acusou de cortar recursos da área, além de citar políticas como o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e as cotas.
Mendonça rebateu. “Você falseia a verdade”, afirmou. O candidato disse ter orgulho da passagem pelo Ministério da Educação e voltou a atacar Humberto: “Você continua mentindo”.
O ex-ministro também reivindicou coerência em sua trajetória política. Disse que sempre esteve no campo da direita e que fez oposição aos governos petistas no plano nacional e ao PSB em Pernambuco. Na eleição deste ano, Mendonça apoia Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência e Raquel Lyra para o Governo de Pernambuco.
Marília acusa Túlio de machismo
Outro dos momentos mais tensos ocorreu entre Marília Arraes e Túlio Gadêlha. Ao falar sobre a atuação política da adversária, Túlio mencionou desentendimentos de Marília com nomes da família Campos e com o próprio PSB e contrapôs essas disputas ao que considera serem as “brigas” que um parlamentar deve comprar.
O candidato citou como exemplo a defesa do fim da escala de trabalho 6×1 e o combate à desigualdade. Na sequência, afirmou que “briga de classe política não leva a nada”, em uma crítica à adversária.
Marília reagiu imediatamente. “Eu vou brigar muito por Pernambuco. Tenho coragem de enfrentar situações muito adversas. Não arredo nem para um trem”, afirmou. A candidata disse que o eleitor não está interessado em “picuinha” e classificou a fala de Túlio como machista. Segundo Marília, mulheres que mantêm posições firmes são frequentemente classificadas como “brigonas”.
“Quando uma mulher é firme nas suas convicções, ela é chamada de brigona”, rebateu. Marília afirmou ter sido vítima de “machismo estrutural” ao longo de sua trajetória política e classificou a colocação do adversário como “extremamente machista”.
A resposta terminou com uma provocação direta: “É uma pena, Túlio. O seu eleitor não merecia que você tivesse esse destino”.
Ditadura, 8 de Janeiro e STF
Marília Arraes e Mendonça Filho protagonizaram um embate sobre a ditadura militar, os atos de 8 de Janeiro e a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Questionado pela candidata, Mendonça classificou o golpe de 1964 como uma “ruptura democrática” e reconheceu a existência de mortos, torturados e presos políticos durante o regime.
“Isso está demonstrado pela história, é evidente. Eu não nego a história”, afirmou. Ao falar sobre o 8 de Janeiro, no entanto, Mendonça criticou a condução dos processos pelo STF e alegou que houve desrespeito ao devido processo legal. Apesar das críticas, disse ser um “democrata” e afirmou que sempre se posicionou contra a depredação do patrimônio público.
Na sequência, Marília partiu para o ataque. “Mendonça Filho hoje se coloca como democrata, mas, na verdade, ele é um filhote da ditadura”, afirmou. Segundo a candidata, a trajetória política do adversário seria fruto de pessoas que apoiaram um regime “que matou, que torturou, que prendeu pessoas simplesmente por pensarem diferente”.
Marília também relacionou a crítica à votação da chamada PEC da Blindagem. Mendonça contestou a acusação e afirmou que não votou na proposta “na concepção” apresentada pela adversária, mas defendeu que parlamentares não sejam perseguidos pelo uso da palavra.
A candidata chamou a proposta de “PEC da bandidagem” e afirmou que jamais votaria por qualquer tipo de blindagem. Mendonça, por sua vez, voltou a criticar o Supremo, que classificou como um “tribunal político”, e disse que a Corte tem interferido no funcionamento do Congresso e na vida política do País.
Mendonça pressiona Eduardo sobre voto para presidente
A eleição presidencial também produziu um dos confrontos mais prolongados da sabatina. Mendonça questionou Eduardo da Fonte sobre sua relação com o governo Lula e cobrou do adversário uma declaração explícita sobre quem apoiará para a Presidência da República.
Mendonça fez a pergunta diretamente: “Qual é o seu voto para presidente da República?”. Eduardo evitou declarar apoio a um dos presidenciáveis. “Eu voto em Pernambuco”, respondeu, acrescentando que está ao lado de Raquel Lyra e que pretende defender o governo estadual no Senado.
Mendonça insistiu. “Qual é a sua posição com relação ao voto para presidente da República? Esse voto é Flávio, Lula ou Caiado? Qual é o seu voto?”. “Eu voto pela saúde do povo de Pernambuco”, respondeu Eduardo.
O candidato do PL criticou a ausência de uma resposta objetiva. “Eu acho lamentável que um candidato ao Senado Federal, diante do povo pernambucano, não tenha clareza das suas posições políticas”, afirmou.
Educação divide Paulo Rubem e Túlio
Nem todos os confrontos ficaram restritos a trajetórias e alianças eleitorais. A situação da educação pernambucana colocou Paulo Rubem Santiago e Túlio Gadêlha em posições distintas sobre a gestão estadual.
Paulo Rubem apresentou um diagnóstico crítico. Segundo o candidato, quase metade dos professores das redes públicas estadual e municipais trabalha sob contratos temporários. Ele também criticou a política salarial da categoria, afirmando que o piso acaba funcionando como teto, e chamou atenção para o analfabetismo no Estado.
“Temos um outro problema seríssimo em Pernambuco. O estado tem quase 1 milhão de analfabetos, o estado pouco investe na educação de jovens e adultos”, afirmou.
Túlio reconheceu a existência de desafios, mas contrapôs o diagnóstico com uma defesa das políticas da gestão Raquel Lyra. “Sem dúvida, é muito importante entender que temos desafios pela frente. Nós precisamos e podemos melhorar a qualidade da educação, mas a gente não pode deixar de reconhecer programas importantes”, afirmou.
O candidato citou investimentos na alimentação dos estudantes, reformas, climatização de escolas e qualificação dos professores. Para Túlio, a rede estadual passa por uma “transformação” impulsionada pelo aumento dos investimentos.
Disputa ainda em aberto
A corrida pelas duas vagas ainda tem um contingente expressivo de eleitores a conquistar. Na pesquisa Quaest divulgada na terça-feira (8), Marília aparece numericamente à frente, com 17% das intenções de voto, seguida por Humberto, com 14%, e Mendonça, com 11%. Os três estão tecnicamente empatados considerando a margem de erro de três pontos percentuais. Eduardo da Fonte registra 7%, Túlio Gadêlha, 4%, enquanto Paulo Rubem não pontuou.
Os indecisos somam 27%, percentual superior ao alcançado individualmente por qualquer candidato, enquanto 18% indicam voto branco, nulo ou que não pretendem votar. O cenário ganha ainda mais peso em uma eleição na qual cada eleitor poderá escolher dois candidatos: na pesquisa espontânea, 78% não souberam citar um nome para o Senado.
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