Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Quando foi lançado, em 1946, o crítico literário Antônio Cândido classificou “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” como um dos contos mais perfeitos da literatura brasileira. Parte do livro “Sagarana”, trata-se de uma bela reflexão sobre a implacabilidade do destino.
E serve bem para ajudar a pensar sobre a hora e a vez do senador Flávio Bolsonaro (RJ) na sua candidatura à Presidência da República, que será oficializada neste sábado em convenção em São Paulo. Flávio chega nessa hora, enfrentando diversos problemas, agravados por diversas notícias na véspera.
O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, autorizou à PF o início das investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, para o qual Flávio pediu dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Partidos com os quais ele contava aliança anunciaram que ficarão neutros.
Leia mais“Nem que seja a porrete”
Vamos a um brevíssimo resumo do conto de Guimarães Rosa. Augusto é o “filho do coronel”. Ele é “estouvado e sem regra”. Um dia, leva uma surra e quase morre. Recolhido por um casal muito pobre, resolve mudar de vida. Torna-se moderado. Um padre lhe diz que, se ele rezar muito e trabalhar, sua hora de entrar no Céu vai chegar. Augusto decide que chegará no Paraíso nem que seja “a porrete”. Mas um dia começa a sentir saudades do seu tempo de valentia. Sua hora acontece num duelo.
Ensaios moderados e radicais
Diga-se que Augusto volta ao duelo por uma causa nobre. O jagunço Joãozinho Bem-Bem ameaça, por vingança, um idoso e sua família. Se Flávio Bolsonaro conseguirá ou não chegar ao Céu da Presidência “nem que seja a porrete”, é o que o tempo dirá a partir da convenção de sábado. Flávio alterna momentos de abandono do estilo moderado e outros de retorno à humildade. Nos últimos dias, atacou as urnas eletrônicas, ensaiando uma repetição da estratégia que levou seu pai, Jair Bolsonaro, à inelegibilidade.
Questões ficarão pendentes
Mas Flávio gravou também um vídeo em que pede trégua à sua madrasta, Michelle, num tom mais sereno e humilde. Na noite de quinta (23), Michelle respondeu: “Eu te desculpo”. Sua presença, porém, na convenção não está prevista. E, se acontecer, será uma surpresa após as desculpas. É bem provável que muitas questões referentes à candidatura e à chapa permaneçam pendentes após a convenção.
Vice
A principal questão pendente é quem será o companheiro, ou companheira, de chapa de Flávio. O candidato do PL quer uma mulher. A principal hipótese, nesse caso, era a senadora Tereza Cristina (PP-MS). Mas Tereza já informou que não deseja o cargo. Mas diz também que em nenhum momento Flávio lhe fez de fato um convite.
Duas mulheres
Com a desistência de Tereza, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, compartilhou no seu WhatsApp duas reportagens do jornal Estado de São Paulo falando de outras duas mulheres que agora estariam mais próximas de fazer companhia a Flávio na corrida presidencial. Uma é católica, a outra é evangélica. As duas, é claro, conservadoras.
Simone e Clarissa
Os nomes cogitados são as deputadas federais Simone Marquetto (MDB-SP) e Clarissa Tércio (PP-PE). Simone é católica, o que poderia vir a agregar um adicional importante a Flávio. As pesquisas mostram que ele perde nesse segmento religioso para Lula. Já Clarissa é evangélica. Mas é nordestina, região onde Flávio enfrenta rejeição.
Coligação
Há, porém, um grande problema em ambas as hipóteses: Simone e Clarissa não são do PL. Para que a chapa fosse formalizada, seria preciso que MDB ou PP formalizassem uma coligação com Flávio. O PP já anunciou oficialmente que ficará neutro nas eleições deste ano. O MDB provavelmente seguirá pelo mesmo caminho.
Daniella
Outro nome que foi cogitado é a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, que Flávio cogita ser seu “Posto Ipiranga”, a referência econômica de seu governo. Flávio chegou a apresentar seu programa de políticas para as mulheres ao lado de Daniella. Mas o problema é o mesmo: o Republicanos, partido dela, também anunciou neutralidade.
Única e indivisível
O Código Eleitoral é claro: “o registro de candidatos a Presidente e Vice-Presidente da República será feito em chapa única e indivisível, ainda que resulte de aliança (coligação) de partidos”. Houve um filme sobre o conto de Guimarães Rosa. Com música de Geraldo Vandré. Que dizia: “Terá quem anda comigo sua vez e sua hora”.
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