Se estivesse vivo, meu pai Gastão Cerquinha faria hoje 104 anos beijando a pedra do seu Pajeú das flores, cantinho adorável, refúgio da sua serena passagem por este planeta Terra. Fincou raizes sólidas por lá. Contrariou a canção “Último pau de arara”, resistiu a todas as tentações da busca pela sua Canaã, a terra prometida.
Era um ser humano exemplar, diferenciado. Um doce na relação com a humanidade. A todos, tratava carinhosamente de “beleza”. Indistintamente, enxergava no próximo a beleza da vida, o amor verdadeiro e cristão.
Leia maisNão gostava de celebrar aniversários. Fugia da velhice como o diabo da cruz. Conservou-se com a mentalidade jovem até a sua morte, aos 100 anos e sete meses, em novembro de 2022. Morreu de velhice, como se diz no Sertão. Foi saudável até o último suspiro.
Sofri para fazer a cabeça dele quando inventei de festejar seus 90 anos. Acabou cedendo. A festa entrou para a história. Levei meus melhores amigos para cantar os parabéns para ele em Afogados da Ingazeira, como Eduardo Monteiro, Américo Lopes, Branca Góes e tantos outros.
Agarrado a sua flor Margarida, dançou a noite inteira ao som da Super Oara, tomou até uma taça de vinho. Diferente de mamãe, grande apreciadora de vinhos — “quer vinho, venha”, dizia, brincando — papai nunca bebeu. Certa vez, tomou um gole de cerveja e reprovou. Achou amarga que nem jiló.
Também nunca fumou, mas namorou muito. Deixou uma penca de filhos neste mundo de Deus — nove ao todo — cinco homens e quatro mulheres. Adorava política. Aliás, a maior paixão da sua vida: quatro mandatos de vereador, um de vice-prefeito.
Quando iria concretizar o sonho de ser prefeito, o tombo: a traição do líder do seu grupo político se traduziu na maior frustração da sua vida pública. Papai também foi comerciante no ramo de miudezas em geral, servidor público federal dos Correios, criador de gado e caprinos.
Escreveu três livros sobre Afogados da Ingazeira e seus mais ilustres filhos, puxando o perfil dessa gente da sua memória de elefante. Papai foi, enfim, um exemplo de honestidade e dedicação, um trabalhador incansável que sempre colocou a família em primeiro lugar.
Sua força e determinação me inspiram a cada dia a ser uma pessoa melhor. De tudo que vivi ao seu lado, fica o exemplo de perseverança. Como filho, agradeço as lições do valor do amor que me ensinou. Eu sempre digo aos meus filhos que a persistência de um pai é o alicerce para o sucesso dos filhos.
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