Por Silvino Teles Filho*
A medicina moderna caminha para uma compreensão cada vez mais integrada do ser humano, deixando para trás a ideia de que corpo e mente operam em compartimentos isolados. Um dos exemplos mais nítidos dessa interconexão é a relação entre a dor crônica (aquela que persiste por mais de três meses) e as doenças psiquiátricas.
Não se trata apenas de uma coincidência; existe uma via de mão dupla biológica e psicológica onde uma condição frequentemente alimenta e agrava a outra.
Leia maisO ciclo de feedback negativo
A relação entre dor e psiquismo é frequentemente descrita como um ciclo vicioso. Quando a dor se torna crônica, ela deixa de ser apenas um “sinal de alerta” e passa a ser uma doença em si, alterando o sistema nervoso central.
- Impacto psicológico da dor: Viver com dor constante gera desgaste emocional, isolamento social, perda de autonomia e distúrbios do sono. Esses fatores são gatilhos diretos para episódios depressivos e crises de ansiedade.
- Impacto da saúde mental na dor: Por outro lado, pacientes com depressão ou ansiedade apresentam uma modulação da dor alterada. O cérebro “em sofrimento” tem mais dificuldade em filtrar estímulos dolorosos, diminuindo o limiar de tolerância. A ciência explica essa ligação através da neuroanatomia. Áreas do cérebro como o córtex cingulado anterior e a amígdala estão envolvidas tanto no processamento da sensação física da dor quanto na regulação das emoções. Além disso, neurotransmissores como a serotonina e a norepinefrina desempenham papéis duplos:
- No cérebro, regulam o humor e o bem-estar.
- Na medula espinhal, atuam nas vias que “bloqueiam” ou atenuam os sinais de dor que sobem para o cérebro. Como as causas são multifatoriais, o tratamento isolado da dor física raramente é eficaz a longo prazo. O modelo biopsicossocial é o padrão-ouro:
- Tratamento farmacológico: Uso de antidepressivos (como os duais) que auxiliam tanto no humor quanto na analgesia.
- Psicoterapia: Especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que ajuda o paciente a ressignificar a dor e reduzir a “catastrofização”.
- Mudanças de estilo de vida: Higiene do sono, exercícios adaptados e técnicas de manejo de estresse (mindfulness). A dor crônica e as doenças psiquiátricas são duas faces da mesma moeda do sofrimento humano. Reconhecer que a dor de um paciente pode ter raízes — ou ser amplificada — por questões mentais não é invalidar o seu sofrimento, mas sim oferecer uma oportunidade real de cura e qualidade de vida.
*Médico com Pós Graduação em Psiquiatria e Neurologia Clínica
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