Por Antonio Magalhães*
Nesta sexta-feira, 6 de março, Pernambuco homenageia sua Data Magna. Comemora o início da Revolução Pernambucana de 1817, um levante que tomou o poder em Pernambuco por 74 dias, estabelecendo uma república provisória. Motivado por altos impostos, seca e crise do açúcar, o movimento de caráter liberal estendeu-se a outros estados do Nordeste, sendo violentamente reprimido pela Coroa Portuguesa, registram os livros de história.
Sem desmerecer a importância deste movimento que até hoje orgulha os pernambucanos, cabe questionar se a Revolução de 1817 foi realmente o evento político-militar mais relevante do Estado. Em 160 anos de conflitos variados, da colonização até 1964, a Insurreição Pernambucana que expulsou o invasor holandês em 1654, depois de 24 anos de domínio estrangeiro, poderia estar à frente desta comemoração. Foi um episódio vitorioso, ao contrário do trágico desfecho do levante de 1817, quando foram condenados à morte lideranças locais e retirado amplo território do nosso Estado pela Coroa e anexado à Bahia.
Leia maisMe lembro muito bem quando, a meu lado, o escritor e pesquisador Leonardo Dantas Silva (1945-2023), autor do excelente livro “Holandeses em Pernambuco”, comentou baixinho comigo: “a Insurreição Pernambucana, que foi vitoriosa na guerra, deveria ter sido a escolhida”. Mas, apurado os votos dos pernambucanos, Leonardo acatou a vontade popular sem qualquer problema: a Data Magna ficou com o evento dos revolucionários de 1817.
Subestimar fatos históricos faz parte da nossa história. O pessoal da Insurreição Pernambucana que derrotou os holandeses só foi inscrito em 2012 no Livro de Aço dos Heróis da Pátria. João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Felipe Camarão, comandantes das ações militares que expulsaram os invasores, foram bravos soldados, guerrearam com coragem em guerrilhas e batalhas até a saída dos holandeses.
João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros merecem estar no livro dos heróis brasileiros. Mas só nesse. Suas ações depois como comandantes-gerais em Angola não fazem jus ao que fizeram aqui. Na África, foram impiedosos com as tribos e reinos angolanos, promovendo massacres e capturando escravos para o envio ao Brasil por ordem do rei de Portugal.
Na verdade, Pernambuco não se tornou independente com a saída dos holandeses. Só voltou ao antigo patrão. E a própria insurreição começou com o descontentamento dos donos de engenhos de açúcar com os holandeses. Não havia condições para eles pagarem os empréstimos. Vitoriosos em 1654, os comandantes João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros partiram para voos mais altos. Primeiro governando províncias do Norte e Nordeste até, por determinação do rei de Portugal, serem nomeados comandantes-gerais em Angola, em tempos distintos. Primeiro Vieira de 1658 a 1661 e depois Negreiros de 1661 a 1666.
Ser enviado a Angola significava acumular mais riquezas no comando de uma guerra colonial contra os nativos que se negavam à vassalagem. Os dois comandantes levaram vantagem sobre os comandantes anteriores. Suas tropas levadas de Pernambuco estavam adaptadas ao clima, às doenças tropicais, ao massacre de indígenas e de quilombolas, diferente dos soldados lusos vindos da Europa.
O objetivo dos dois era destruir focos rebeldes, ora comandados pela valente Rainha Jinga, que em 30 anos de luta contra os portugueses nunca foi submetida à coroa portuguesa. Ora pelo rei do Congo. Com Vieira valia tudo: massacre em aldeias incendiadas, degolas, captura de escravos. Nunca relaxou nas suas nefastas funções.
Já André Vidal de Negreiros, como comandante dos “brasílicos”, venceu a batalha de Ambuíla, em 1665, quando destruiu o Reino do Congo, matando o rei, sua família, membros da corte e aliados. Foi o maior embate colonial na África desde Alcácer-Quibir, em 1578. De acordo com o historiador Luís Felipe Alencastro, precipitou o declínio dos reinos do Congo e Matamba, da sucessora de Jinga.
Portanto, o conceito de heróis é fluído e relativo. Vieira e Negreiros, os dois heróis pernambucanos foram comandantes de massacres de africanos, que, como eles, lutavam contra um invasor de suas terras, no caso africano, o português. Contudo, isso não invalida os feitos gloriosos da Insurreição Pernambucana, evento para uma Data Magna “in pectore”. Coisas da história e da vida. É isso.
*Jornalista
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