Aos 19 anos e ainda cursando Gastronomia, a pernambucana Clara Mendonça desponta como uma das jovens revelações da confeitaria no Estado. A relação com a cozinha, porém, vem de muito antes da faculdade. Aos três anos, ela já dividia o espaço com a avó paterna, Rosa, responsável por uma de suas primeiras memórias afetivas à mesa: o bolo de maracujá preparado todas as quartas-feiras. Foi com ela que Clara aprendeu os primeiros cortes, usando uma faca especialmente escolhida para sua pouca idade, de forma que pudesse manusear legumes sem se machucar. Ainda criança, passou a fazer massas, pizzas e doces naquele ambiente e descobriu o gosto por mexer nas receitas. “Minha avó falava que eu era uma alquimista na cozinha, porque eu sempre queria mudar alguma coisinha”, recorda.
A curiosidade ganhou contornos profissionais ainda na adolescência. Aos 12 anos, durante uma temporada nos Estados Unidos em que, a princípio, faria um curso de inglês, Clara escolheu outro caminho: matriculou-se em um curso de culinária na Flórida. Ali entrou pela primeira vez em uma cozinha profissional e participou da preparação de jantares para cerca de 100 pessoas. Em um deles, ficou responsável, ao lado de um chef francês, por produzir uma centena de pequenos bolos. Quatro anos depois, decidiu concluir os estudos antecipadamente por meio de supletivo e ingressou, aos 16, na faculdade de Gastronomia. Passou por duas instituições que encerraram seus cursos na área até chegar ao Senac, onde estuda atualmente.
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Foi também por volta dos 16 anos que a confeitaria deixou de ser apenas um hobby e virou negócio. Fascinada por bolos de grandes dimensões e pela possibilidade de unir cozinha e artes plásticas, Clara começou com encomendas mais simples e avançou para projetos autorais, desenhados individualmente para cada cliente. “Eu não tenho cardápio de bolo. A gente faz um orçamento personalizado porque cada pessoa quer uma coisa diferente”, explica. O ofício abriu, ainda, espaço para uma inclinação artística que Clara cultiva desde cedo. Desde pequena, ela se interessa por pintura, desenho e trabalhos manuais, referências que também alimentaram o interesse pelos bolos decorados e pela confeitaria criativa.

A projeção aumentou depois de um concurso promovido durante uma feira de confeitaria do Senac. Clara aproveitou a oportunidade para executar um projeto que dificilmente receberia como encomenda: um bolo cenográfico de dez andares e mais de 1,5 metro de altura, produzido ao longo de 15 dias, com pasta americana, glacê, trabalho de bico e balões de açúcar. A criação conquistou o primeiro lugar e lhe rendeu uma viagem para a Mara Cakes, feira de confeitaria realizada em São Paulo. O trabalho também a aproximou de nomes do setor, entre os quais está a confeiteira pernambucana Cris Barros, que posteriormente a convidou para expor outra criação em uma edição da Mara Cakes no Recife. “A partir desse bolo, as pessoas começaram a me ver como artista também, não só confeiteira”, conta.
Mais recentemente, Clara Mendonça levou suas criações para o cardápio de um restaurante. Depois de preparar um bolo para a família dos proprietários do Tooka Sushi, restaurante japonês com unidades em Maceió e no Recife, recebeu o convite para desenvolver sobremesas para a casa e apresentou cinco opções em uma degustação. Entre elas está um combinado criado a partir da lógica dos próprios combinados de sushi: três sobremesas com diferentes intensidades de chocolate, servidas em uma sequência que vai do sabor mais suave ao mais amargo. “Eu gosto muito de pensar no especial, na experiência”, resume Clara.
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