Bazuca: a folia telúrica de Carpina

Por Flávio Chaves*

Há cidades que apenas existem. E há Carpina, que respira, canta, dança e se multiplica em vozes quando janeiro se despede e fevereiro se prepara para florescer em cores. Lá, entre as calçadas de calor e as esquinas de saudade, vive um Carnaval que não se limita ao calendário: ele habita o espírito. E nesse transe de alegria ancestral, a Bazuca Cana Clube, fundada em 1966, se ergue como uma tempestade de riso e rebeldia, soprando sua música como vento que varre a mesmice.

No princípio, era apenas um pequeno anexo: um cômodo modesto, acanhado em tamanho, mas colossal em destino. Entre paredes simples e janelas que deixavam o sol escorrer em fiapos dourados, nascia um reduto que logo deixaria de ser apenas abrigo de estudos para tornar-se território de sonhos. Birau, ao herdar aquele espaço deixado pelo irmão Edinaldo, plantou ali as sementes da transgressão criativa. Cercado por seus companheiros, jovens feitos de carne e sonho, alma e tambor, fez da pequena casa o epicentro de uma revolução bem-humorada, onde cada gole de cachaça era também um brinde à liberdade.

Petrolina - Destino

Por Fabio Clemente*

Amigo Magno,

O meu conterrâneo Reginaldo Remígio foi um grande cineasta neste relato da saga do sertanejo, indo e voltando ao torrão natal nos anos 50 e 60. Meus tios também fizeram esses caminhos pelo Brasil, à cata de emprego e de dias melhores para a família, que só acompanhava o marido quando ele estivesse já empregado.

O dinheiro e o roteiro da viagem eram enviados por Carta-Correio para que a família seguisse para as terras do Sul — sempre ficava uma criança com a avó, que cuidava e criava. Da Bahia em diante, tudo se chamava Sul do país.

Ipojuca - IPTU 2026

Por Rinaldo Remígio*

Em determinada ocasião, visitando Afogados da Ingazeira, fui rever meu querido irmão Reginaldo Remígio. Entre conversas e lembranças, o celular tocou. Do outro lado da linha, era Magno Martins.

— Remígio, você está em Afogados? — após me cumprimentar, perguntou, sem muita cerimônia.

Respondi que sim, e ele, com a espontaneidade de quem cultiva amizades com simplicidade, logo me convidou:

— Venha até a AABB. Estou aqui com um dos meus filhos. Vamos bater um papo.

Fui. Conversamos bastante. E ali, naquele encontro tão sertanejo quanto fraterno, tive a oportunidade de lhe dizer o que já carregava comigo há tempos: que sou um dos seus admiradores.

Caruaru - Quem paga antes, paga menos

Por Bruno Brennand*

A recente reportagem da TV Record sobre o monitoramento do secretário Gustavo Monteiro por agentes da Polícia Civil de Pernambuco não pode ser tratada como episódio isolado. Segundo a matéria, houve acompanhamento de rotina, uso de ferramentas tecnológicas e rastreamento veicular, a partir de denúncia anônima. O Governo do Estado afirmou tratar-se de procedimento técnico. A Prefeitura reagiu. O Ministério Público pediu esclarecimentos.

Esse é o fato. Mas, para quem acompanha a política pernambucana há décadas, isso não nasce do nada. O uso seletivo do aparato estatal sempre fez parte da engrenagem local de poder. Durante os governos de Eduardo Campos, comentava-se abertamente nos bastidores a existência de um sistema próprio de inteligência. Em 2012, em Ipojuca, a polícia foi colocada em força máxima nos dias que antecederam a eleição que consagrou Carlos Santana, então sogro de João Campos. Presenciei pessoalmente Eduardo comemorar aquela vitória com mais entusiasmo que a própria eleição do Recife.

Cabo de Santo Agostinho - Hospital das praias

Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360

No início, os políticos frequentavam oráculos. O mais famoso deles era o de Delfos, o centro espiritual mais importante da Grécia, erguido na encosta do monte Parnaso. Heráclito conta que Creso, o rei dos lídios, consultou o oráculo e recebeu como resposta que, se atravessasse o rio Hális, um grande império desmoronaria.

Ele entendeu que o império era o de Ciro, o rei persa. Não pensou duas vezes: atravessou o rio com seu exército e atacou. Ciro derrotou Creso, o fez prisioneiro e seu servo.

Palmares - IPTU 2026

Por André Correia*

As eleições deste ano em Pernambuco serão muito complicadas, a começar pelo cenário que se apresenta para o Senado, com postulações de diversos partidos, bem como de candidatos que estão mudando de partido para viabilizar o ingresso na difícil disputa pelas duas vagas.

Não existe candidatura solta, avulsa, sem cabeça de chapa forte, no caso o candidato a governador. Na recente história pernambucana, só lembro do grande Cali (Carlos Wilson), eleito senador sem uma chapa completa, apenas com FHC candidato a presidente.

Olinda - Refis últimos dias 2025

Por Rinaldo Remígio*

Petrolina viveu, na manhã de hoje, um daqueles dias que não se apagam da memória coletiva. Um dia emblemático, histórico, carregado de significado não apenas para a população petrolinense, mas para todo o Sertão do São Francisco e suas vastas fronteiras humanas.

Porque Petrolina não é apenas uma cidade. Petrolina é um polo, um farol, uma vanguarda permanente dos acontecimentos políticos, sociais e institucionais do Nordeste. É daqui que muitas transformações partem. É daqui que o Sertão se reinventa.

Jaboatão dos Guararapes - Coleta de Lixo

Por Aldemar Santos (Dema)*

O racismo nunca foi apenas ofensa, sempre foi projeto de exclusão. Um projeto que tenta decidir quem pode existir, quem pode mandar, quem pode ocupar espaços de poder. Um projeto que fracassou e continua fracassando.

As recentes declarações racistas atribuídas a um ocupante de importante cargo no Governo do Estado de Pernambuco não são “opiniões do passado”, nem “deslizes juvenis”. São expressões cruéis de uma mentalidade que trata pessoas negras como subumanas, como ameaça, como erro histórico. Isso é inadmissível, sobretudo quando parte de alguém investido de função pública.

Por Inácio Feitosa*

Durante muitos anos, o GOV.BR foi apresentado como uma das maiores conquistas do governo digital brasileiro. Para quem acompanha a evolução da tecnologia pública, a plataforma simbolizava eficiência, integração e modernização administrativa. Eu sempre defendi esse projeto. Considero-me uma pessoa atualizada em tecnologia, habituada a sistemas digitais, assinaturas eletrônicas e autenticação de serviços.

Justamente por isso, a experiência recente com o GOV.BR não pode ser interpretada como dificuldade individual, mas como sintoma de um problema mais profundo: o sistema que deveria simplificar a vida do cidadão tornou-se, em muitos casos, um obstáculo.

Por Gilmar Teixeira

Em todo encontro do Cariri Cangaço há figuras que se tornam paisagem afetiva. Não pelo silêncio, mas pela presença. Geraldo Ferraz é assim. Surge sempre com o chapéu elegante de lorde pernambucano, o sorriso aberto e o passo tranquilo de quem sabe exatamente onde pisa. Ao lado da esposa Rosane Ferraz, companheira constante, ele não ocupa espaço – ele cria convivência. E logo se percebe: ali está alguém profundamente querido, não apenas pelo que sabe, mas pelo que é.

Quando Geraldo começa a falar, o Sertão se ajeita para ouvir. Sua voz não traz bravatas nem romantizações fáceis. Vem carregada de estudo, de memória e de responsabilidade histórica. Fala do cangaço, sim, mas sobretudo do outro lado da história: das forças policiais, das volantes, dos homens fardados que enfrentaram um tempo em que a violência era lei nos ermos nordestinos. E fala com autoridade singular, porque sua história pessoal caminha de mãos dadas com a história que pesquisa.