Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Leituras sobre desempenhos podem ser bem relativas. Se um determinado desempenho foi um completo desastre, não há o que se discutir. Quando não é, pode levar a conclusões diferentes. Para muitos analistas, o candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, não foi bem na sabatina de 40 minutos no Jornal Nacional.
Foi evasivo, fugiu de perguntas e questionamentos feitos pelos jornalistas Cesar Tralli e Renata Vasconcelos, respondendo muitas vezes não exatamente ao que perguntavam, mas dizendo o que queria. Essa, porém, não foi a avaliação da cúpula do PSD. Para o partido de Caiado, ao contrário, a performance de Caiado na sabatina teria atingido o seu objetivo, falando principalmente para o eleitorado de direita que Caiado pretende tirar do candidato do PL, Flávio Bolsonaro. É Flávio o adversário de Caiado no primeiro turno.
Leia maisPara um importante assessor de Comunicação do Palácio do Planalto em governos passados, hoje trabalhando com empresas, o desempenho de Caiado teria lembrado o de Jair Bolsonaro ali na mesma sabatina em 2018. Da mesma forma, Caiado teria confrontado a bancada do Jornal Nacional. Em 2018, Bolsonaro teve uma discussão com William Bonner ao tentar mostrar um livro que, segundo ele, faria parte do tal “kit gay” que se levava às escolas. Para o eleitorado de Bolsonaro à época, objetivo alcançado.
Em 2018, a reprimenda de William Bonner teria tido o efeito oposto: o então candidato à Presidência lacrava contra a “emissora do sistema”. Agora, Caiado teria se valido de tática parecida. Jogou para a própria TV Globo a responsabilidade pela construção da imagem negativa que parte da população tem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Caiado valeu-se do próprio histórico do noticiário da Globo para atacar Lula, não Flávio, embora seja o eleitor de Flávio quem ele tenha tentado conquistar.
“Eu assisti durante quatro anos aquele propinoduto no Jornal Nacional sobre o roubo do Lula”, disse Caiado para Renata Vasconcelos. Caiado, assim, teria deixado a Globo numa posição desconfortável, de protagonista dos ataques que acabaram levando Lula a ser condenado e preso. Na avaliação do comando do PSD, “os entrevistadores do Jornal Nacional acuaram o Zema, mas foram encurralados por Caiado”.
O tal “propinoduto” citado por Caiado era uma animação para explicar os desvios de recursos da Petrobras investigados na Lava Jato com canos de esgotos por onde escoava o dinheiro. As afirmações foram usadas para rebater questionamentos a respeito da anistia que Caiado pretende dar aos condenados no 8/01.
A jornalista do Jornal Nacional lembrou a Caiado que, segundo as investigações havia um plano de assassinato de Lula e de Geraldo Alckmin, o que embasou a condenação por tentativa de golpe. “Isso é um relato”, respondeu Caiado. “Não foi um relato”, interrompeu Renata Vasconcelos. Foi aí que Caiado voltou as baterias para o “propinoduto”.
Para o ex-assessor do Planalto, certamente teria sido mais enriquecedor se Caiado tivesse apresentado números e dados concretos a respeito do que ele pretende fazer caso conquiste o governo, em vez de falar de cortes de despesas sem apontar de que forma realmente faria sem gerar enorme impacto nas políticas públicas.
Erro igual ao de Romeu Zema, do Novo, na primeira sabatina. Mas Zema acabou confrontado nas suas respostas e essa confrontação acabou se tornando a impressão maior da sua participação. Para o PSD, isso não teria acontecido com Caiado. Mesmo deixando várias questões sem resposta, ele teria passado uma sensação de que foi para cima.
A questão agora será medir os reais impactos das entrevistas no humor do eleitorado, diante dessa disputa polarizada entre Lula e Flávio, que parece não dar quase que nenhum espaço aos demais. Há, no caso do Jornal Nacional, um fator a mais: esse é o primeiro espaço não controlado no qual todos os principais adversários estarão.
Lula será o sabatinado desta quinta-feira (27). E Flávio Bolsonaro fechará o ciclo de entrevistas na sexta-feira (28). Eles faltaram ao debate da Band. Os adversários dos dois principais contendores nessa disputa eleitoral torcem ali por um tropeço. Flávio terá a sua primeira experiência. Lula já esteve nessa bancada várias vezes.
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