Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Pilões tem 6.000 almas e está cravada no planalto da Borborema, no meio das montanhas da Paraíba. Ali, fez história o juíz Braz Baracuhy, nascido na virada do século 19 para o 20, quando o sertão ainda era repleto de histórias fantásticas e sagas de homens fortes, como descreveu Euclides da Cunha.
O velho Baracuhy viveu as instabilidades do início do século 20, como a expansão do cangaço, o tenentismo, a guerra civil em Princesa em 1930 e a morte de João Pessoa, candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas contra Júlio Prestes, apoiado pelo então presidente Washington Luís.
Leia maisSer juiz e desembargador naquela Paraíba e ainda ganhar reconhecimento pela coragem e determinação era, no mínimo, uma proeza. Sua história é a história de alguém que aprendeu a viver e sobreviver nas adversidades da política e das leis. Essa herança genética deu a Braz, neto do velho Baracuhy, a habilidade para o exercício profissional da diplomacia nesta era de instabilidades, atividade na qual muito pouca coisa ocorre por acaso.
Como não foi por acaso que Braz Baracuhy escreveu “Geopolítica Global: O Mapa Estratégico do Mundo Contemporâneo“, com lançamento em São Paulo marcado para 13 de agosto, durante evento patrocinado pelo Insper Agro Global. O livro traça um panorama extremamente realista do momento geopolítico mundial, no qual a multipolaridade vai caminhando para se tornar cada vez mais sonho de noite de verão.
Diplomata servindo em Helsinque, capital da Finlândia, Braz Baracuhy tem visão privilegiada deste mundo que passa por transformação tão importante quanto a do pós-guerra nos anos 1950. Ele serviu em Pequim e Genebra, onde atuou na OMC (Organização Mundial do Comércio). Seu livro mostra o embate cada vez mais acirrado entre os Estados Unidos e a China, envolvendo disputas comerciais e uma corrida tecnológica muito semelhante àquela da década de 1960 entre norte-americanos e soviéticos pela conquista do espaço e a chegada à Lua.
Seu texto revela muito conhecimento técnico, porém escrito com a fluidez necessária para ser compreendido pela maioria das pessoas. Depois de longo jejum dos intelectuais do Itamaraty, o livro chega para elucidar diversas questões envolvendo estratégia, multipolaridade, administração de conflitos e tendências. O mais importante é a forma profissional e isenta com que são expostos os cenários.
Tudo está baseado em dados, pesquisas e na capacidade ímpar do autor de relacionar fatos, mostrando novidades para a maioria, como a ascensão da Índia a player relevante. O país mais populoso do mundo é uma potência nuclear, com programa espacial próprio e dominando tecnologias como o trem movido a hidrogênio, cuja linha inaugural de 90 km virou realidade no início deste mês.
A estratégia e a diplomacia costumam caminhar de mãos dadas. Ambas exigem muita informação, paciência e grande dose de criatividade. Foi assim que Henry Kissinger aproximou os Estados Unidos da China ou, numa versão mais brasileira, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima impulsionou o comércio exterior do Brasil nos anos em que comandou o Departamento Comercial do Itamaraty, oferecendo tecnologia e serviços ao Oriente Médio e à África quando o Brasil passou a vender estradas, hidrelétricas e automóveis.
Há 60 anos, Kissinger entendeu a China como potência emergente, com vocação para rivalizar com os Estados Unidos, exatamente o que ocorre hoje. Isso não foi mero acaso, mas fruto de ação unindo estratégia e diplomacia. Em vez de isolar a China, Kissinger se aproximou para entender como os chineses funcionavam e até onde poderiam chegar. É um exemplo concreto do papel fundamental da diplomacia em buscar o equilíbrio nas relações internacionais.
Missão para profissionais. O amadorismo não proporciona resultados, mas dependência e submissão. A diplomacia pode ser cruel para quem ignora seus códigos. Seu ambiente sofisticado e refinado acaba moendo os que carecem de preparo para manejar detalhes e nuances. Por isso, existem dois caminhos para a paz. O da razão e da diplomacia, que pode ser mais demorado e complicado, ou o da guerra, que também leva à paz, mas uma paz de morte, não de vida. A conhecida paz dos cemitérios. Tem sido assim desde que o mundo é mundo.
Baracuhy mostra que tanto a China quanto os Estados Unidos seguem emitindo sinais indicando o vigor das suas economias. Não há, pelo menos por enquanto, nada que indique decadência de um lado ou de outro. De acordo com dados do FMI (Fundo Monetário Internacional), os Estados Unidos continuam sendo a maior economia do planeta, com PIB de US$ 29 trilhões em 2025. A China está logo atrás, com PIB de US$ 18,7 trilhões, nada menos que 64% do PIB norte-americano. Ou seja: até que venha o empate, há ainda muita gordura para ser queimada. Quanto tempo demorará para que vejamos essa equivalência dependerá da intensidade e, principalmente, da criatividade de cada um nessa nova corrida pela hegemonia.
O campo de batalha será a Eurásia, aquele enorme continente entre o oceano Atlântico e o mar da China. Ali está a chave para entendermos o que pode vir por aí, como será construída a nova ordem mundial e em quais bases.
Esse cenário já é conhecido desde os anos 1.200, quando Marco Polo abriu caminho para a rota da seda e colocou em marcha uma disputa ainda viva no mundo de hoje. Enquanto um lado sai do Ocidente em direção ao Oriente, o outro faz o caminho inverso. E assim caminha a humanidade. Braz veio de Pilões e foi ganhar o mundo para nos mostrar como tudo isso funciona.
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