Conheci Raimundo Carrero, que Deus chamou hoje aos 78 anos, na redação do Diário de Pernambuco, no início dos anos 80. Tínhamos em comum o amor pelo Sertão. Ele, inspirado em sua Salgueiro, eu na minha pasárgada Afogados da Ingazeira, não confundir com a Pasárgada de Manuel Bandeira.
Num texto dele que li muito tempo depois, ele falou da sua Salgueiro. “Lá em Arcassanta, onde nasci e cresci, havia menino, havia janela e andorinha, havia praça e igreja. E o menino morava na frente da praça e, portanto, da igreja”, escreveu.
Quando o vi pela primeira vez tomei um susto: fumava feito uma caipora, falava rápido e alto, era inquieto por natureza, pavio curto. Nunca fomos próximos, até porque fui morar em Brasília e Carrero foi cuidar da vida literária dele. Mas um certo dia, ele teve uma longa conversa comigo sobre o seu modus operandi de fabricar seus romances.
Contou-me que só escrevia na exaustão do calor, depois de tomar uns chás quentes, que nunca entendi, fumar sem parar. O suor, segundo ele, o transportava para um outro mundo, cenários muito próximos a uma viagem maluca, na qual construía seus personagens. Nunca mais esqueci isso.
Embora sertanejo, Carrero tinha alma recifense, banhada e abençoada pelo mar. “O ser humano é não mais do que um cemitério dos passados, dos vários e misteriosos passados”, dizia ele. Quem escreve, segundo ele, precisa seduzir o leitor de forma para participar do texto e depois participar da história.
Literatura não se diz, representa-se, aprendi com ele. Carrero era um gênio e deixou obras maravilhosas. Seu livro “Somos pedras que se consomem” foi incluído entre os dez melhores livros de 1995, escolhidos pelo jornal O Globo.

















