Por Alice Lins, Fagner Clemente
Do Jornal do Commercio
Em uma noite marcada pela celebração da memória, o palco do Teatro Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio, recebeu ontem (24) o concerto de abertura das comemorações pelos 20 anos da Orquestra Criança Cidadã. O espetáculo representou o encontro entre duas décadas de histórias transformadas pela arte, além de reafirmar o papel da música como ferramenta de inclusão social e construção de futuros.
A programação percorreu diferentes momentos da trajetória da instituição, reunindo o coro infantil, grupos de ex-alunos e a Orquestra Sinfônica Jovem em um repertório que transitou entre clássicos da música erudita e composições brasileiras. O concerto para convidados abriu as celebrações, que continuam neste sábado (25) à noite.
Leia maisIdealizada pelo juiz de Direito João José Rocha Targino, a Orquestra Criança Cidadã nasceu em 2006 com um propósito que vai além da formação artística: oferecer oportunidades a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O Coque, um dos bairros com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Recife, foi a primeira comunidade atendida pelo projeto, que hoje alcança também Ipojuca e Igarassu.
Atualmente, cerca de 400 jovens, entre 6 e 21 anos, participam gratuitamente das atividades, que incluem aulas de instrumentos de cordas, sopros e percussão, teoria musical, canto coral, além de acompanhamento pedagógico, psicológico, médico e odontológico.
A iniciativa também oferece alimentação, inclusão digital e formação profissional por meio da Escola de Formação de Luthier e Archetier (EFLA), ampliando as possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Expansão da Orquestra
Ao celebrar as duas décadas da iniciativa, João Targino destacou que o maior resultado do projeto está na transformação das vidas que passaram pela instituição. “Estamos muito felizes, muito alegres, por comemorarmos duas décadas de existência da Orquestra Criança Cidadã. Esse projeto, que nasceu há 20 anos com um objetivo precípuo bem definido: formar cidadãos e formar profissionais da música. E, ao longo dessa trajetória, ao longo dessa jornada, nós conseguimos encaminhar na roda da cidadania e da profissionalização, prioritariamente na área musical e também em outras áreas, como Direito, Veterinária e Fisioterapia, mais de mil garotos”, afirma.
O idealizador também compartilhou o desejo de expandir a atuação da Orquestra para outras comunidades pernambucanas e brasileiras. “Eu projeto com orquestra não só no Coque, em Ipojuca, em Igarassu, mas também em várias outras comunidades do Recife, de Pernambuco e do Brasil”, revelou.
Representando a governadora Raquel Lyra (PSD), a vice-governadora Priscila Krause (PSD) ressaltou a importância da iniciativa e o compromisso do Governo de Pernambuco com projetos culturais que promovem uma maior inclusão.
“O maior legado que a Orquestra Criança Cidadã tem deixado são pessoas transformadas. É essa obra de transformação: nascer num lugar difícil, num lugar mais vulnerável, e ter uma situação dessa, em que, quando as pessoas dão a mão, significa ter um futuro diferente, um destino diferente, além de toda a valorização da cultura e da música”, ressalta.
Histórias reescritas por meio da música
Entre as histórias que simbolizam esse impacto está a do violinista Ivo Gomes, de 22 anos. Ex-aluno da unidade de Ipojuca, ele iniciou a formação musical aos 10 anos e atualmente cursa bacharelado em Música, com especialização em performance de violino, nos Estados Unidos.
“Durante esses 12 anos, eu tenho ganhado várias experiências com a orquestra. A orquestra tem me ajudado bastante nessa questão de dedicação, de compromisso, de realmente querer algo, de querer estudar. Hoje, graças também à orquestra, eu estudo nos Estados Unidos. Vou para o meu segundo ano agora, em agosto”, relembra Ivo.
O músico também destaca todo o apoio que recebeu da instituição e sobre também poder contribuir com a formação da nova geração. “Hoje, sou grato por tudo que aconteceu por conta deles, por todo esse incentivo. Também fico muito feliz em voltar aqui, nesses 20 anos da Orquestra Criança Cidadã, e poder contribuir com esses jovens e essas crianças que um dia também sonham, assim como eu, quando era pequeno, sonhava em estar em um alto nível”, finaliza.
O projeto acumula mais de 30 premiações e reconhecimentos, entre eles o Prêmio Caixa Melhores Práticas em Gestão Local. Em 2010, foi apontado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como exemplo de boa prática de inclusão social. Cinco anos depois, tornou-se a primeira escola de música das Américas e a segunda do mundo a integrar o Programa de Escolas Associadas da Unesco.
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