A campanha de reeleição de Raquel Lyra (PSD) acaba de sofrer o seu mais duro revés institucional. Se o escândalo da laqueadura forçada já havia aberto uma fissura profunda na imagem da governadora, as conclusões da Polícia Federal enviadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), ontem (2), transportam a crise do suposto “gabinete do ódio” para o terreno do crime comum e eleitoral. Aí vem o pior: é a própria chefe do Executivo quem aparece no centro do furacão.
Não se trata mais de especulação de bastidor ou retórica de oposição. O relatório da PF aponta formalmente indícios de envolvimento direto da governadora em crimes de associação criminosa, peculato e desvio de verbas públicas para alimentar uma estrutura clandestina de difamação digital: o já batizado “gabinete do ódio” pernambucano.
Leia maisO detalhe técnico revelado pela perícia é demolidor: postagens dos perfis de ataque e publicações da conta oficial de Raquel Lyra compartilhavam o mesmo endereço IP, registrado em nome de uma autarquia estadual de tecnologia da informação. A máquina pública, ao que tudo indica, operava na mesma tomada que a guerrilha digital para atacar adversários.
Politicamente, o impacto é devastador. Ao longo de seu mandato, Lyra tentou se equilibrar como uma figura de centro, técnica e avessa aos excessos da polarização. No entanto, o despacho do ministro Edson Fachin expõe uma engrenagem que a contradiz: o uso de contratos de publicidade estatal para financiar redes coordenadas de desinformação com o objetivo explícito de emparedar adversários políticos, em especial João Campos, seu adversário direto nessas eleições.
Ao somar o peso moral do episódio da laqueadura compulsória à gravidade jurídica de uma investigação no STJ por desvio de recursos públicos e associação criminosa, com forte apuração da PF, a governadora perde a iniciativa do debate. A tentativa de sufocar a CPI na Assembleia Legislativa em 2025, longe de estancar a sangria, apenas adiou uma cobrança que agora retorna endossada pela autoridade máxima do Judiciário.
Para Raquel Lyra, a disputa eleitoral deixa de ser uma batalha de entregas administrativas para se tornar uma luta de contenção de danos e sobrevivência jurídica. Em política, um escândalo pode ser atribuído a acidentes de percurso; dois, com essa magnitude, desenham um padrão difícil de explicar ao eleitor.
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