Por Gastão Cerquinha Neto*
Quando falamos sobre as mudanças climáticas, é comum pensarmos primeiro nos impactos mais visíveis: inundações, secas, incêndios florestais, deslizamentos de encostas, ondas de calor e outros eventos extremos. Nos preocupamos com as vidas perdidas, nas famílias que precisam deixar suas casas e nos prejuízos econômicos causados por esses acontecimentos.
Mas existe outro impacto, menos visível, que também merece atenção: o efeito das mudanças climáticas sobre a forma como nos sentimos e enxergamos o futuro. As pessoas estão preocupadas com o caminho que estamos percorrendo e com a saúde do planeta. A repetição de eventos extremos e a percepção de que eles podem se tornar mais frequentes ou intensos despertam sentimentos de medo, estresse, raiva, tristeza e impotência.
Leia maisÉ nesse contexto que surge a chamada ecoansiedade, também conhecida como ansiedade climática. Quando esses sentimentos aparecem de maneira mais moderada, alguns autores também utilizam expressões como ecossensibilidade ou ecorrealismo, destacando que se preocupar com uma ameaça real não significa, necessariamente, estar diante de uma doença.
Quando a chuva deixa de ser apenas chuva
Ao primeiro sinal de chuva, famílias que já foram atingidas podem reviver o medo de precisar deixar suas casas. Volta a preocupação com os móveis, os documentos, os animais de estimação e tudo aquilo que foi construído ao longo de anos. Em situações mais graves, existe também o medo de perder a própria casa ou de colocar a vida em risco.
Isso ajuda a entender por que os efeitos de um desastre não terminam necessariamente quando a água baixa, o incêndio é controlado ou a situação volta aparentemente ao normal. A experiência permanece na memória de quem viveu aquele momento.
Há ainda uma característica do nosso tempo que amplia essa percepção. Hoje, não somos expostos apenas aos eventos que acontecem perto de nós. Pela televisão e, principalmente, pelas redes sociais, acompanhamos quase em tempo real inundações em uma cidade, incêndios florestais em outro país, secas severas, ondas de calor e populações inteiras afetadas por desastres. Vemos o que está acontecendo em diferentes partes do planeta e percebemos que esses problemas não estão tão distantes quanto pareciam.
Os jovens e o medo do futuro
Essa preocupação merece atenção especial entre crianças, adolescentes e jovens. Para eles, as mudanças climáticas não representam apenas um problema do presente. Elas também levantam perguntas sobre o mundo em que viverão nas próximas décadas.
Como estarão nossas cidades? Haverá água suficiente? Os eventos extremos serão mais frequentes? Minha família estará segura? O lugar onde vivo continuará sendo adequado para morar?
São preocupações que podem aumentar a carga emocional associada às mudanças climáticas e às incertezas sobre o futuro. Muitas vezes, o medo não é apenas por si próprio, mas também pelos pais, familiares, amigos e pela comunidade onde vivem.
Isso não significa, entretanto, que toda preocupação com o clima seja necessariamente ruim.
A preocupação também pode nos levar à ação
Em muitos casos, a ecoansiedade pode ter um caráter adaptativo. Em outras palavras, perceber uma ameaça pode nos motivar a procurar informações, mudar comportamentos, cobrar soluções e nos preparar melhor para aquilo que poderá acontecer. E é justamente aí que existe um caminho importante para transformar a preocupação em ação: conhecimento e adaptação.
Entender como uma inundação acontece, conhecer as áreas mais vulneráveis da cidade, compreender os alertas meteorológicos, saber quais atitudes tomar diante de uma emergência e conhecer as medidas que podem reduzir os riscos ajudam a diminuir a sensação de impotência. A informação não elimina o risco, mas pode fazer com que nos sintamos menos vulneráveis e mais preparados.
Da mesma forma, compreender as mudanças climáticas nos ajuda a perceber que nossas cidades também precisam mudar. Precisamos ampliar áreas verdes e permeáveis, recuperar rios e córregos, melhorar os sistemas de drenagem, proteger áreas vulneráveis, criar espaços capazes de armazenar temporariamente a água da chuva e preparar a população para situações extremas.
Não podemos controlar a chuva, impedir uma onda de calor ou simplesmente fazer desaparecer uma seca. Mas podemos transformar a maneira como ocupamos, planejamos e adaptamos nossas cidades.
Da ansiedade para a transformação
A ecoansiedade, portanto, pode ser entendida como uma reação emocional compreensível diante de um problema que é real. Ela pode atingir jovens e adultos e surgir justamente da percepção de que o clima está mudando e de que essas mudanças podem afetar nossa vida, nossas famílias e os lugares onde vivemos.
A ecoansiedade, por si só, não é considerada uma condição de saúde mental. Isso não significa, porém, que seus efeitos devam ser ignorados. Quando o medo e a preocupação passam a ocupar grande parte do cotidiano, prejudicando o sono, a concentração, os estudos, o trabalho ou as relações pessoais, é importante procurar ajuda profissional.
Ao mesmo tempo, é importante compreender que sentir preocupação com o futuro pode também ser um convite para participar da construção desse futuro. Conhecer os riscos, preparar nossas cidades, reduzir vulnerabilidades e adaptar os lugares onde vivemos são formas concretas de responder às mudanças que já estamos observando.
Talvez não seja possível eliminar completamente a ansiedade diante de um futuro climático incerto. Mas podemos substituir parte da sensação de impotência por informação, preparação e ação. E, quando falamos de água, cidade e futuro, adaptar nossas cidades não significa apenas construir lugares mais resistentes às mudanças climáticas. Significa também construir lugares onde as pessoas possam se sentir mais seguras para viver o presente e imaginar o futuro.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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