Por Gastão Cerquinha Neto*
Os jardins de chuva são um tipo de infraestrutura verde que ajudam as cidades a lidar com as mudanças climáticas. Essas estruturas recebem a água da chuva e ajudam a infiltrar no solo, reduzindo e desacelerando o escoamento que poderia gerar alagamentos.
Todo o processo começa com a chuva que cai sobre telhados, calçadas ou qualquer superfície impermeável. Nas cidades, essa água escoa e procura os meios-fios das ruas e bocas-de-lobo por onde seguem para as galerias de drenagem. Quando a galeria fica sobrecarregada, as ruas alagam, provocando transtornos. Com o jardim de chuva esse processo é interrompido, e a água antes de chegar às galerias passa por um jardim de chuva.
Leia maisAparentemente, parecerá um canteiro como qualquer outro na cidade. Porém, no subsolo dessas estruturas há muita tecnologia e ciência. Camadas de materiais escolhidos minuciosamente são capazes de captar, armazenar e infiltrar grandes quantidades de água no solo. Além do benefício para a cidade, reduzindo os alagamentos, os jardins ajudam a recarregar o lençol freático e reduzem as altas temperaturas dos centros urbanos, tornando o clima mais ameno, principalmente, em tempos de mudanças climáticas e ondas de calor.
Benefício reconhecido
Em São Paulo, a experiência na construção de grandes estruturas cinzas, como os piscinões e canais, mostrou que é preciso muito mais do que medidas convencionais para resolver os alagamentos. Ou ainda, que tais estruturas, além de muito caras, tem muitas limitações, em um mundo com incertezas quanto ao futuro das águas nas cidades, necessitando alternativas sustentáveis, duráveis e econômicas. Para isso, a cidade tem espalhado jardins de chuva, onde hoje já são 528 implantados com meta de dobrar esse número nos próximos dois anos.
Jardins de chuva são elementos importantes na infraestrutura de cidades dos Estados Unidos, utilizados no gerenciamento das águas pluviais, em busca de um urbanismo sensível às águas. Nova York, por exemplo, possui um plano de infraestrutura que inclui jardins de chuva desde 2010, e hoje já são mais de 4.500 implantados. Com tamanhos variados, cada estrutura consegue reter e manejar até 7 m³ de águas pluviais.
Estrutura em camadas
Além dos cuidados que uma obra requer, se você deseja construir um jardim de chuva e contribuir para reduzir os alagamentos, deve ficar atento a alguns detalhes. Basicamente, é feita uma vala de largura 2 metros e comprimento 5 metros, que varia conforme a disponibilidade do local. A profundidade está em torno de 1 metro, limitada a existência de lençol freático. A primeira camada no fundo é a camada de suporte, com um material permeável como o pó de pedra envolvido em geomembrana, que permite passar a água, mas segura os agregados. Acima dessa camada, vem talvez a camada mais importante, composta por brita nº 3, onde a água ficará armazenada por um tempo, permitindo a infiltração, que ocorre lentamente no solo.
Uma boa camada de substrato para as plantas sobre a brita é importante para que a vegetação permaneça saudável no jardim de chuva. As plantas irão ajudar na redução da temperatura, sejam arbustivas, herbáceas ou até árvores de pequeno porte compatíveis com o tamanho da estrutura.
Assim, os jardins de chuva representam muito mais do que um elemento paisagístico no cenário urbano, eles são um verdadeiro pacto de resiliência entre a cidade e a natureza. Ao aliar ciência, sustentabilidade e infraestrutura verde, essas estruturas provam que a solução para os desafios climáticos do futuro não está apenas em grandes obras de concreto, mas em reaprender a conviver com o ciclo natural das águas dentro do próprio ambiente urbano. Seja por meio de políticas públicas ou de iniciativas locais, investir nessa tecnologia é pensar em uma cidade preparada para as próximas gerações.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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