Por Sílvio Amorim*
Uma ferida aberta na Praça Osvaldo Cruz: a degradação do Teatro Valdemar de Oliveira. O Teatro é propriedade da associação Teatro de Amadores de Pernambuco (TAP), instituição sem fins lucrativos, com 85 anos, mantida por 22 sócios abnegados, que se manteve das suas produções, ocupando um lugar fundamental na história cultural de Pernambuco e do Brasil. Trata-se de um dos grupos teatrais de atuação contínua mais antigos do país e um dos principais responsáveis pela modernização do teatro pernambucano.
Durante décadas, o Teatro foi um dos principais palcos da produção cultural pernambucana, acolhendo espetáculos, cursos, ensaios e atividades de formação artística.
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A situação atual do Teatro Valdemar de Oliveira é bastante preocupante. O espaço encerrou suas atividades nos últimos anos por contingências que fugiram da normalidade: exigências (justas) do Corpo de Bombeiros que reduziram a pauta do Teatro e a redução de espectadores (cadeiras) na plateia, seguidas do fechamento pela pandemia. Não se teve mais fôlego para manter os custos mínimos e vigilância do prédio do Teatro, mesmo com o esforço e da contribuição dos sócios, pessoas de classe média, para manter o prédio e seus equipamentos com o Teatro fechado. Aí passou a sofrer com invasões, furtos e deterioração estrutural. Em fevereiro de 2024, um incêndio atingiu o prédio, destruindo parte significativa de sua estrutura. Atualmente, encontra-se em estado avançado de degradação.
A intenção do TAP é doar o Teatro Valdemar de Oliveira à Prefeitura do Recife ou ao Governo do Estado para que recupere o Teatro e o transforme em uma escola para formar profissionais de teatro em várias áreas, de atores a cenógrafos, iluminadores, etc.
O TAP foi fundado em 1941, no Recife, pelo médico, escritor, músico e teatrólogo pernambucano Valdemar de Oliveira, inicialmente denominado grupo Gente Nossa, organizado pelo teatrólogo Samuel Campelo.
A primeira montagem do TAP ocorreu em 4 de abril de 1941, com a peça “Knock ou O Triunfo da Medicina”, interpretada por médicos e suas esposas. Na época, a participação de mulheres no teatro ainda enfrentava preconceitos sociais, tornando a iniciativa bastante inovadora para a sociedade recifense.
Ao longo de mais de oito décadas, o TAP montou espetáculos; revelou atores, diretores e técnicos; promoveu a renovação estética do teatro pernambucano; realizou excursões por diversas cidades brasileiras; contribuiu para a profissionalização das artes cênicas em Pernambuco.
Entre os espetáculos de destaque estão: Vestido de Noiva, A Casa de Bernarda Alba, Um Sábado em 30, Nossa Cidade, entre centenas de produções. A montagem de Nossa Cidade, em 1949, dirigida por Ziembinski, tornou-se um marco do teatro pernambucano por introduzir soluções cênicas modernas no palco do Recife.
Em 1971, o TAP inaugurou sua própria sede, localizada na Praça Oswaldo Cruz, na Boa Vista, no Recife. Após a morte de Valdemar de Oliveira, em 1977, o espaço passou a se chamar Teatro Valdemar de Oliveira.
Seria muito injusto com Pernambuco que todo esse trabalho e essa memória desaparecessem.
*Advogado, faz parte da associação Teatro de Amadores de Pernambuco e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco
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