O preço do descaso
Por Inácio Feitosa*
Na primeira parte, perguntei por que o recifense se acostumou com o feio e arrisquei uma resposta cultural: virou hábito, e hábito não se enxerga — apenas se atravessa. Aqui quero mostrar que o hábito tem preço, pago todo dia em reais, empregos e arrecadação que deixa de existir.
Hoje, 4 de agosto, a caminho do aeroporto, voltei a ser vítima do descaso com a Avenida Mascarenhas de Moraes, principal corredor de quem embarca no Recife. Fui deixar o carro numa oficina do outro lado da via, e só isso me obrigou a percorrer os dois sentidos — de Afogados ao aeroporto e de volta — para constatar, na ida e na volta, o mesmo abandono.
Leia maisAntes que me enquadrem em alguma trincheira: não é crítica a uma gestão. É crítica a todas as das últimas duas ou três décadas, e também ao Governo do Estado — a responsabilidade é compartilhada. Não puxo pelo cordão azul nem pelo encarnado. No pastoril da nossa política, prefiro o papel da Diana, a que fica no meio e não se filia a cordão nenhum. O feio não é de esquerda nem de direita: é de todos e, por isso, acaba não sendo responsabilidade de ninguém.
Vamos ao caso concreto, porque é nele que a conta aparece. Na oficina de seu Alexandre — chamemos assim —, num ponto nobre da avenida, a água já batia nos cinquenta, sessenta centímetros. Não foi evento climático extraordinário: foi chuva de rotina encontrando uma rede de drenagem sem manutenção, bueiro sem desobstrução, galeria sem limpeza. O resultado é previsível — e, por ser previsível, ainda mais indesculpável. Eu teria perdido o voo não fosse a gentileza de Milena, funcionária da casa, que me arrumou transporte a tempo; se dependesse do aplicativo, o motorista ainda estaria “chegando em 2 minutos”. Foi preciso a bondade de uma desconhecida para suprir o que o poder público deveria entregar.
Agora, a conta. A oficina emprega setenta pessoas — setenta contratos CLT, com INSS patronal, FGTS, 13º e férias provisionados. São custos fixos: correm chova ou faça sol, com a porta aberta ou fechada. E a empresa ainda sustenta, com pontualidade, dois caixas da Federação: o do município — ISS sobre os serviços e IPTU sobre o imóvel — e o do Estado, via ICMS sobre as mercadorias. Para abrir todo dia, seu Alexandre gasta entre trinta e cinquenta mil reais. Quando a avenida alaga e a oficina não abre, esse valor não some: vira prejuízo puro, custo fixo sem faturamento. Some o efeito em cadeia — o serviço não prestado não gera ISS, a peça não vendida não gera ICMS, o cliente que desiste talvez não volte — e multiplique pelas dezenas de portas fechadas naquela manhã. Esse é o custo real, em reais, de uma avenida que ninguém resolve.
É aqui que erramos o diagnóstico. Tratamos o alagamento como fatalidade meteorológica quando ele é falha de gestão — e falha de gestão tem externalidade. O descaso funciona como um imposto invisível sobre o setor produtivo: um tributo que não está em lei, mas que a empresa paga em prejuízo sempre que a cidade não faz o dever de casa. E é preciso ser honesto quanto ao tamanho do problema: naquele trecho da Mascarenhas de Moraes, a solução vai muito além de limpar esgoto ou desobstruir bueiro. É uma obra estruturante de drenagem — imprescindível, cara e tecnicamente complexa — que nenhum governo, estadual ou municipal, teve até hoje a coragem de encarar e resolver. Adia-se a obra definitiva de gestão em gestão e, no intervalo, não se faz nem o paliativo. Some-se a isso a lição mais básica da administração pública: a manutenção preventiva custa uma fração da recuperação e, ainda assim, é a primeira rubrica sacrificada, porque bueiro limpo não vira palanque nem rende foto. E há a nossa maldição estrutural — a descontinuidade a cada quatro anos, que faz da manutenção, tarefa silenciosa e permanente, algo que ninguém assume como seu.
No aeroporto, o desfecho. Vi a aflição de argentinos que chegavam em cima da hora, reclamando — em bom castelhano e com toda a razão — do caos para cruzar a cidade. E me veio o pensamento mais recifense possível: nós já nos acostumamos com o feio; agora só falta internacionalizar o hábito e convencer o turista a se acostumar também. Quem sabe não entra no roteiro: “conheça o Recife e atravesse a nado até o portão de embarque”.
Respondo, enfim, à pergunta que abriu a Parte I: o recifense se acostumou com o feio porque ele saiu barato para quem governa e caro para quem produz — e porque, por tempo demais, ninguém fez essa conta em voz alta. A saída não está em obra faraônica de vitrine, e sim em duas coisas que faltaram até aqui: coragem para enfrentar a intervenção estruturante que se adia há décadas e disciplina para transformar a manutenção em política de Estado, com continuidade entre gestões e responsabilização por resultado. O feio não tem partido; o cuidado também não deveria ter. Eis a questão — e recusar-se a aceitá-la como resposta talvez seja o primeiro passo.
*Advogado, mestre em Educação pela UFPE e escritor.
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