Por Maurício Rands*
Nosso desafio é encontrar os pontos que nos unem. Reconhecer que somos 215 milhões com ideias próprias e diferentes visões de mundo. Mas, para termos futuro, teremos que identificar alguns mínimos denominadores comuns. É impossível encontrar alguns consensos parciais e limitados sobre alguns poucos valores básicos? E sobre alguns desafios nacionais? E sobre alguns caminhos para realizá-los?
Tomem-se alguns desafios que podem ser majoritários na nação: superar a pobreza, criar um bom ambiente de negócios, reduzir a desigualdade, melhorar a qualidade da nossa democracia, revolucionar a educação pública de base, combater a corrupção, melhorar os serviços públicos, especialmente saúde, segurança, moradia e transporte, promover a inovação tecnológica inclusiva, proteger o meio-ambiente.
Leia maisEnfim, colocar o país nos trilhos de um desenvolvimento democrático, social e ambientalmente sustentável. Na teoria, pouca gente discordaria de uma pauta dessas. Quase platitudes. Profundas divisões emergem, todavia, quando se passa a discutir os detalhes.
Quais programas e projetos devem ser prioritários? E com quais estratégias e contornos? Porque em qualquer política pública há perdedores e ganhadores. Como o indica a paralisia da reforma tributária. Para isso, o estado democrático de direito dispõe de procedimentos para que os consensos parciais sejam aprovados, ainda que pela vontade (apenas) da maioria. Preservados os direitos fundamentais das minorias.
Países que se desenvolveram já mostraram que esse mínimo civilizatório é possível. Tome-se o caso da Suécia. Com o acordo de Saltsjöbad, de 1938, instaurou-se um modelo de concertação entre empregados e empregadores que muito acelerou o desenvolvimento do país ao facilitar os consensos parciais. Para isso, lideranças de visão fazem-se necessárias. Líderes que interpretam e condensam os propósitos mais sentidos das nações. Como fizeram Roosevelt, Adenauer, Churchill e De Gaulle. E aquela que nos deixou no último dia 8 de setembro, a rainha Elizabeth II.
Em seus 70 anos como chefe de estado, atuou para manter a unidade e a estabilidade de um estado de várias nações, etnias e ideologias. Sempre com uma atitude pacificadora e guardiã de valores fundantes. Postura diametralmente oposta à do atual presidente do Brasil. Dois chefes de estado que não poderiam ser mais diferentes. Uma soube atravessar os graves conflitos entre trabalhistas e conservadores sempre com atitudes respeitosas, pacificadoras e construtivas. O outro fomenta as divisões e ódios. E deles se alimenta. Demoniza o diferente, pregando a sua extirpação, como fez no gigantesco comício eleitoral em que transformou a celebração do dia da pátria.
Insurge-se contra o poder judiciário e a imprensa, incapaz de compreender o significado do regime democrático de freios e contrapesos. Já sabíamos que não iria dar golpe. Nem vai dar. Não tem apoio para tanto, embora 30 % da sociedade seja muita gente. Diferentemente dos golpistas de 64, que ele venera com nostalgia.
Seu principal opositor nas eleições que vão ocorrer daqui a 20 dias já cometeu erros similares quando dividia o Brasil entre o “nós e o eles”. Porque os populismos, mesmo com sinais trocados, podem ostentar traços comuns. Mas, nessas eleições, como que curtido por larga experiência de êxitos e derrotas, Lula parece determinado a superar as velhas divisões.
Como simbolizou na escolha de Alckmin. Como vem prometendo em debates e na propaganda de TV. Mais de que uma tática eleitoral, pode ser que o objetivo de pacificação a que se propõe seja resultado da percepção de que não tem futuro um país dividido como está o Brasil.
Mais do que ganhar as eleições e superar as exasperações do bolsonarismo, o país se ressente de inaugurar um novo ciclo em que as diferenças não sejam tratadas com ódio e cancelamento. Caso as pesquisas sejam confirmadas nas urnas, o governo de Lula e Alckmin será de todos os brasileiros e brasileiras. Terá que respeitar e atender os anseios das dezenas de milhões que terão votado em Bolsonaro.
Para isso, terá que lhes estender a mão para o diálogo. Algo que eles já provaram saber fazer. A tarefa de pacificar e reconstruir o país depois de um governo tão desastrado vai demandar criatividade, diálogo e sensibilidade. E capacidade de entender por que 30% dos eleitores apoiaram um governo tão ruim.
*Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford
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