Por Flávio Chaves*
Existem invenções humanas que modificaram a maneira de viver, outras que alteraram o curso das civilizações, algumas que encurtaram as distâncias entre os povos, mas poucas conseguiram realizar uma transformação tão silenciosa e profunda quanto o livro.
Essa extraordinária criação que permitiu ao homem atravessar os séculos sem precisar carregar consigo o próprio corpo, deixando sobre as páginas aquilo que a morte não conseguiu recolher de sua inteligência, de suas inquietações, de seus sonhos e de sua capacidade de interrogar o mundo.
Leia maisO livro é, talvez, a mais delicada forma de resistência contra a natureza passageira da existência, porque nele a palavra encontra uma morada que não depende da permanência de quem a escreveu, e a vida, mesmo submetida à inexorável passagem do tempo, consegue prolongar-se na consciência daqueles que ainda não nasceram.
Neste 29 de outubro, quando o Brasil celebra o Dia Nacional do Livro, a homenagem não deveria restringir-se às solenidades, às fotografias de bibliotecas ou às manifestações protocolares que costumam acompanhar as datas comemorativas, porque celebrar o livro significa, antes de tudo, reconhecer a existência de uma das mais poderosas conquistas da humanidade, responsável por oferecer ao pensamento uma liberdade que nenhuma fronteira geográfica conseguiu aprisionar completamente.
A data recorda a fundação da Biblioteca Nacional, em 1810, quando o Brasil ainda se encontrava submetido à monarquia portuguesa e começava a organizar instituições que participariam da formação de sua identidade cultural. Mas existe algo de profundamente simbólico nessa origem, pois uma nação que ainda não havia conquistado a própria independência política começava a reunir, em um espaço destinado aos livros, parte dos instrumentos com os quais os homens poderiam aprender a pensar para além das limitações impostas pelo poder.
O livro possui uma singularidade que nenhuma outra criação humana conseguiu substituir inteiramente. Ele permite que um homem nascido em determinada época converse com outro separado dele por centenas de anos, que uma mulher desconhecida encontre na experiência de uma personagem a explicação de sentimentos que jamais conseguiu revelar, que um menino de uma pequena cidade descubra, entre as páginas de uma obra, a existência de universos que não cabiam nas dimensões de sua rua, de sua escola ou de sua própria imaginação. Quem lê não abandona necessariamente o lugar onde nasceu, mas aprende que esse lugar não representa os limites de sua existência, porque a leitura amplia a geografia interior do indivíduo e lhe oferece a possibilidade de reconhecer como humanas experiências que jamais viveu.
Penso, particularmente, nas crianças que descobrem os livros nas escolas públicas, muitas vezes sem dispor de uma biblioteca em casa, sem conhecer escritores, sem imaginar que a literatura possa fazer parte de seu destino. Uma criança diante de um livro encontra-se diante de uma possibilidade que ainda não sabe nomear, pois aquelas páginas podem representar o primeiro contato com uma realidade diferente daquela que lhe foi entregue pelas circunstâncias sociais, e talvez esteja justamente nessa experiência uma das mais belas manifestações da democracia, quando o conhecimento deixa de ser patrimônio dos privilegiados e começa a pertencer também àqueles que nasceram distantes dos lugares onde historicamente se concentrou o saber. A escola que oferece um livro a uma criança não lhe entrega apenas uma história, oferece-lhe instrumentos para que ela própria venha a escrever, com maior liberdade, a história de sua vida.
Entretanto, seria insuficiente celebrar a grandeza dos livros sem reconhecer as contradições de um país que ainda não conseguiu transformar o acesso à leitura em uma experiência verdadeiramente universal. Uma sociedade pode multiplicar discursos sobre a importância da educação e, ao mesmo tempo, permitir que bibliotecas escolares permaneçam insuficientes, que professores enfrentem dificuldades para formar leitores e que milhares de crianças cresçam sem estabelecer com a literatura aquela intimidade capaz de transformar a palavra escrita em instrumento de emancipação. O problema não está apenas na ausência material do livro, mas na distância social que impede tantas pessoas de reconhecê-lo como parte legítima de suas vidas. Quando a leitura se converte em privilégio, a desigualdade deixa de ocupar somente os espaços da economia e passa também a determinar os horizontes da imaginação.
É preciso compreender, igualmente, que a literatura não existe para oferecer respostas confortáveis a todas as inquietações humanas. Os grandes livros frequentemente nos perturbam mais do que nos tranquilizam, porque colocam diante de nossos olhos as contradições que preferiríamos ignorar, revelando a complexidade moral de homens e mulheres que não cabem nas classificações simplificadoras com as quais costumamos julgar o comportamento alheio. Dostoiévski nos conduz às regiões mais atormentadas da consciência, Tolstói transforma a experiência individual em uma vasta investigação sobre a sociedade e o destino, Fernando Pessoa multiplica a identidade humana até demonstrar que nenhum indivíduo se esgota na pessoa que acredita ser, enquanto João Cabral de Melo Neto, com o rigor de sua arquitetura verbal, nos ensina que a poesia também pode nascer da resistência da linguagem à facilidade das emoções. Cada um deles, à sua maneira, demonstra que a literatura não representa uma fuga da realidade, mas uma forma extraordinariamente exigente de penetrar em suas profundezas.
Também não podemos esquecer que os livros acompanharam algumas das mais dolorosas experiências da história humana, atravessando guerras, perseguições religiosas, ditaduras, exílios e períodos em que o simples exercício de pensar foi considerado uma ameaça. Governantes autoritários compreenderam, em diferentes épocas, que uma população capaz de interpretar criticamente a realidade se torna menos disponível à obediência cega, razão pela qual bibliotecas foram destruídas, escritores perseguidos e obras retiradas de circulação. Existe uma ironia histórica nessa tentativa de silenciar os livros, porque muitas vezes os nomes daqueles que ordenaram sua destruição desapareceram da memória coletiva, enquanto as palavras que desejavam eliminar continuaram sendo lidas por gerações que sequer conheceram os rostos de seus perseguidores.
Vivemos agora uma época marcada pela velocidade das informações, pela multiplicação das telas e pela permanente disputa pela atenção humana, circunstâncias que modificaram profundamente a relação entre o indivíduo e a palavra escrita. A tecnologia ampliou possibilidades de acesso ao conhecimento e permitiu que obras antes restritas a determinadas instituições chegassem a leitores de diferentes regiões do planeta, conquista que não pode ser desprezada em nome de uma nostalgia incapaz de reconhecer as transformações do presente. Contudo, a disponibilidade de informações não corresponde necessariamente à formação do pensamento, assim como a rapidez com que uma mensagem circula não garante a profundidade de sua compreensão. Podemos receber milhares de palavras durante um único dia e terminar a noite sem que nenhuma delas tenha conseguido permanecer verdadeiramente dentro de nós.
O livro, nesse cenário, continua oferecendo uma experiência que se tornou particularmente preciosa, a possibilidade de permanecer diante de uma ideia sem a obrigação de abandoná-la imediatamente para acompanhar a próxima novidade. A leitura literária exige uma disposição interior que contraria a pressa dominante, porque um romance não se entrega inteiramente ao leitor que deseja apenas conhecer seu desfecho, assim como um poema não revela sua força àquele que procura somente identificar o assunto de que trata. Existem páginas que precisam ser revisitadas, palavras que amadurecem lentamente em nossa memória e personagens que continuam vivendo dentro de nós muito depois de encerrada a narrativa, como se a última página não representasse o encerramento da obra, mas o início de uma convivência que já não depende de sua presença material.
Talvez por isso os livros participem de maneira tão profunda da formação de nossa identidade. Somos constituídos também pelas palavras que encontramos, pelas histórias que nos ensinaram a reconhecer a dor dos outros, pelos poemas que modificaram nossa percepção da beleza e pelas ideias que nos obrigaram a abandonar certezas anteriormente consideradas inabaláveis. Um leitor nunca termina um grande livro exatamente como começou, porque alguma coisa se desloca em sua maneira de compreender a existência, ainda que essa transformação não possa ser imediatamente percebida. A leitura trabalha em regiões silenciosas da consciência, onde determinadas experiências permanecem guardadas até encontrarem, muitos anos depois, uma circunstância capaz de lhes devolver significado.
O escritor, por sua vez, conhece uma dimensão particularmente comovente dessa experiência, porque escreve sem saber inteiramente a quem suas palavras chegarão. Pode imaginar um leitor, desejar determinada compreensão, esperar que suas páginas encontrem acolhimento, mas nunca conhecerá todas as vidas que sua obra poderá alcançar. Um poema escrito na solidão de uma madrugada talvez seja encontrado, décadas depois, por alguém que atravessa uma perda semelhante àquela que lhe deu origem, e nesse encontro entre duas existências separadas pelo tempo acontecerá uma forma de reconhecimento que dispensa apresentações, parentescos ou qualquer outra espécie de vínculo anterior. A literatura realiza esse milagre inteiramente humano de aproximar pessoas que jamais se viram, fazendo com que uma consciência desconhecida encontre abrigo na linguagem de outra.
Por isso, celebrar o Dia Nacional do Livro deveria significar também um compromisso público com a preservação das bibliotecas, a valorização dos escritores, o fortalecimento das editoras, o reconhecimento dos professores e a formação de leitores, sobretudo entre aqueles para quem o acesso à cultura ainda representa uma conquista difícil. Não existe política cultural verdadeiramente democrática quando a palavra escrita permanece distante das populações socialmente vulneráveis, nem se pode falar seriamente em desenvolvimento nacional enquanto a formação intelectual de crianças e jovens não ocupar lugar central nas prioridades do país. Construir bibliotecas, distribuir livros e estimular a leitura não constituem gestos ornamentais da administração pública, mas investimentos na capacidade de uma sociedade compreender sua própria história e participar conscientemente da construção de seu futuro.
A grandeza de um livro, entretanto, não se mede somente pela importância de seu autor, pelo número de exemplares vendidos ou pelo reconhecimento que recebe das instituições literárias. Algumas obras modificam o pensamento de uma época, outras transformam a vida de um único leitor, e não existe razão para considerar insignificante essa segunda possibilidade, porque uma existência humana, quando recupera a esperança, encontra uma linguagem para sua dor ou descobre novos caminhos para compreender o mundo, representa por si mesma uma vitória da inteligência e da sensibilidade. Um livro pode não alterar o destino de uma nação, mas, se conseguir modificar profundamente a consciência de alguém, terá realizado uma parte essencial daquilo que justifica sua existência.
Neste dia dedicado ao livro, prefiro imaginar não apenas as grandes bibliotecas, com seus acervos extraordinários e sua responsabilidade na conservação do patrimônio cultural, mas também o instante em que uma criança aprende a reconhecer a primeira frase de uma história, o momento em que um trabalhador encontra na leitura uma possibilidade de compreender melhor seus direitos, a emoção de uma pessoa idosa que regressa às páginas de um romance lido na juventude e a silenciosa alegria de um escritor diante da notícia de que suas palavras alcançaram alguém que ele nunca conhecerá. São acontecimentos aparentemente modestos, mas neles se encontra uma das expressões mais legítimas da continuidade humana, porque o conhecimento, quando verdadeiramente compartilhado, deixa de pertencer exclusivamente àquele que o possui.
O homem inventou instrumentos para medir o tempo, máquinas para vencer distâncias e tecnologias capazes de transportar sua voz para lugares que os antigos sequer poderiam imaginar, mas foi por meio da palavra preservada que encontrou uma maneira de conversar com os ausentes e oferecer alguma continuidade à experiência de ter vivido. Talvez resida aí a dimensão mais comovente do livro, nessa capacidade de guardar aquilo que não conseguimos proteger da passagem dos anos, permitindo que a inteligência sobreviva ao desaparecimento de quem pensou, que a ternura encontre novos destinatários e que determinadas perguntas continuem abertas mesmo quando já não existe ninguém capaz de recordar quem primeiro as formulou.
Porque, no fim de tudo, um livro é mais do que aquilo que suas páginas contam. É a possibilidade de uma vida alcançar outra, de uma memória atravessar o esquecimento e de uma voz continuar encontrando ouvidos quando o mundo ao qual pertenceu já se transformou inteiramente. E talvez a humanidade tenha começado a compreender a verdadeira grandeza de sua própria existência no instante em que descobriu que não precisava morrer por completo, desde que alguma palavra sua permanecesse viva na consciência de alguém.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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