Por Fabio Giambiagi*
O escritor e analista político argentino, Jorge Asís, conhecido por sua ironia, é autor de algumas das descrições mais ferinas feitas acerca dos líderes políticos argentinos. A propósito do vazio de Mauricio Macri, comentava que “constrói uma ideia a partir da abstenção intelectual” e que “na medida que ele fala, a gente vai esquecendo o que ele diz”. Do insípido Daniel Scioli, na época candidato a presidente, escreveu que era “mais hábil que inteligente”. Fico pensando em como Asís definiria os membros do clã dos Bolsonaro. São personalidades marcadas pelo extremismo.
Utilizo aqui a análise acerca das convicções esvaziadas de conteúdo feita por Leon Festinger, psicólogo e autor da teoria da dissonância cognitiva, segundo a qual certas pessoas têm uma propensão a ignorar a realidade, quando ela vai contra as suas crenças. Disse ele, sobre tal tipo de indivíduo: “Essa pessoa dificilmente muda de opinião. Mostre-lhe fatos e números – e ele questionará suas fontes. Se você utilizar a lógica, ele não entenderá”.
Leia maisOutro analista argentino, Carlos Pagni, tem uma boa definição: “Veja o número escrito neste papel. Você vê um 6, não? Eu vejo um 9. E ambos estamos certos. Conflitos políticos muitas vezes decorrem de diferentes visões sobre uma mesma realidade. O problema é quando eu viro o papel e a pessoa que via um 6 continua vendo um 6. Esse é o fanático”. Nossa política tem sido sequestrada pelo fanatismo. Precisamos resgatá-la desse pântano.
A base da política é o diálogo. Ulysses Guimarães repetia uma frase: “Em política, até a raiva é negociada”. Aprendi isso cedo, quando cheguei ao Brasil, vindo da Argentina, onde os extremos literalmente se matavam entre si nos anos 70 e aqui, mesmo em pleno governo militar, líderes do quilate de Ulysses e Tancredo, de um lado; e Petrônio Portella e Jarbas Passarinho, de outro, conversavam civilizadamente procurando saídas para o país.
Já tivemos isso, em nossa democracia. Luiz Eduardo Magalhães e Miro Teixeira podiam duelar intensamente no plenário de tarde, mas se encontrar horas depois no Piantella para jantar. Genoíno foi um duro adversário de FH, mas ambos se respeitavam mutuamente.
Na década de 2010, isso se perdeu. Como parte da degradação do país, os eleitores que não simpatizavam com as políticas do PT e que no passado distante puderam votar em candidatos do nível de FH, Alckmin ou Serra, nas últimas três eleições tiveram na outra chapa alguém da família Bolsonaro.
Resultado? Em 2018, um governo com um legado de mais de 700 mil mortos por Covid (uma aberração). Em 2022, a vitória de um partido com todo o legado negativo do “petrolão”. E, em 2026, a eleição pela quarta vez de um rival, agora com mais de 80 anos e rejeitado por quase metade do país. Convenhamos, para uma única família, trata-se de uma verdadeira proeza.
A ironia da situação atual é que se Jair, Eduardo e Flávio Bolsonaro não tivessem mostrado tanto excesso de ambição e – usarei um eufemismo – escassez de visão estratégica, hoje o presidente eleito seria Tarcísio de Freitas.
Em divertida entrevista, tempos atrás, o técnico português Jorge Jesus, falando sobre o fim dos ciclos – tendo em mente a situação de um já decadente Neymar no time que ele dirigia – disse a sua famosa frase: “Tu, finish!”. Pelo bem do Brasil, caberia dizer para essa dinastia: “Vocês, finish!”. A família Bolsonaro já teve três oportunidades de governar — e fracassou em todas.
A primeira, por fazer um governo, aos olhos de qualquer pessoa com um mínimo de sentimento humanitário, trágico. E as outras duas, por perder uma eleição que estava ganha. Para escapar dessa sina, para termos uma disputa política civilizada e uma alternativa ao PT que não faça do país um episódio da família Addams, vamos torcer para que tenha sido a última vez que tenhamos tido um Bolsonaro presente no segundo turno de uma eleição presidencial. Nosso país merece coisa melhor. Essa loucura precisa acabar.
*Economista
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