Por Alan Bueno*
Após uma virada surpreendente, o presidente Lula foi reeleito. Mas ele chega ao quarto mandato em um cenário adverso, tendo em vista que a partir de 2027 seu governo terá de administrar pela frente um Congresso majoritariamente conservador. Seu desafio maior agora será manter a mobilização “Exército do Lula”, propulsor de sua campanha no segundo turno nas redes e ruas, para ajudá-lo a garantir a governabilidade do país.
Essa onda digital comandada pelo deputado André Janones pode ter grande utilidade também neste cenário pós-eleição, principalmente para explicar propostas, ouvir críticas e ampliar a participação da sociedade em temas que normalmente ficam restritos aos gabinetes. Mas é preciso entender a diferença entre campanha e governo. Na campanha, a meta é vencer um adversário em uma data definida. Na gestão, é entregar resultados e negociar soluções todos os dias.
Leia maisMobilização pública pode elevar o custo político de bloquear uma pauta de interesse nacional, pressionando parlamentares e tornando votações mais transparentes. Sozinha, porém, não garante votos. A nova correlação de forças também exigirá, é claro, negociação com partidos de centro, diálogo com lideranças regionais e uma comunicação capaz de explicar concessões sem tratar toda divergência como traição.
Mas existe também um risco: manter permanentemente o tom de guerra eleitoral pode fortalecer a militância mais fiel, mas ao mesmo tempo afastar cidadãos que desejam menos conflito e mais resultados reais para as demandas do dia a dia. Será importante que a comunicação do governo fale também com quem não votou em Lula.
O melhor uso do “Exército do Lula” não é produzir uma campanha eterna, mas criar pontes entre decisões de Brasília e problemas reais da população. A rua mostra a intensidade de uma demanda; a rede amplia sua visibilidade; a articulação institucional transforma essa demanda em política pública.
Lula não poderá governar apenas por meio de hashtags. Mas também não poderá se limitar às negociações de bastidor: governabilidade depende de votos no Congresso e de confiança fora dele.
*Estrategista digital, à frente da Libero Digital, segunda empresa que mais elegeu políticos no Brasil, segundo dados do TSE.
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