Em 12 de junho de 2024, Engels Muniz emitiu uma nota fiscal no valor de R$6,3 milhões, que foi paga pelo Fundo Legal Reag Claims – renomeado posteriormente de Fundo Pedra Azul. O grupo pertence à Reag Investimentos, liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano por fraude ao sistema financeiro em operações vinculadas ao Banco Master. Em delação premiada fechada com a Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-dono da Reag Investimentos João Carlos Mansur afirmou que fundos administrados pela gestora foram usados para ocultar o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro a autoridades públicas, de acordo com reportagem da Folha de S.Paulo.
Em maio de 2025, o escritório de Engels emitiu uma nova nota para receber R$1 milhão do Banco Master, sob a justificativa de ter prestado “consultoria jurídica” ao banco de Daniel Vorcaro.
Serviço prestado diretamente a Vorcaro
Em dezembro daquele mesmo ano, quando o Banco Central já havia decretado a liquidação extrajudicial do Master, Engels Muniz emitiu outras duas notas fiscais, mas desta vez tendo como tomador de serviço o próprio banqueiro Daniel Vorcaro. As duas notas somam R$ 4 milhões. A primeira nota foi em 12 de dezembro, no valor de R$2 milhões. A justificativa foi por prestação de “serviços jurídicos”.
Em 29 daquele mesmo mês, a três dias do fim do ano, a operação se repetiu: outra nota no valor de R$2 milhões remetida a Daniel Vorcaro, sob a mesma justificativa de prestação de “serviços jurídicos”. Como os bens do banqueiro já estavam indisponíveis àquela altura, não é possível comprovar se, nestes casos, houve o efetivo repasse no valor das notas emitidas.
No momento em que cada uma das notas foi enviada pelo escritório, Engels ocupava funções públicas de destaque. Nas duas primeiras (para o Fundo Reag e o Banco Master), o advogado era conselheiro do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Nas duas últimas, que teve como tomador de serviço o próprio Vorcaro, Engels já era conselheiro do Conselho de Administração do Cartão BRB – o banco público de Brasília que, a partir de junho de 2024, passou a comprar as carteiras de crédito do Banco Master.
Quando o contrato entre o escritório de Engels e Vorcaro foi firmado para “serviços jurídicos”, o BRB já vinha operando nestas compras. No total, o banco público de Brasília adquiriu R$21,9 bilhões em carteiras de crédito do Master. Procurado, Engels Muniz justificou o acordo com o Fundo Reag como “cessão de créditos de honorários advocatícios”, além de indicar que os processos correm sem segredo de justiça e podem ser consultados.
O advogado também informou que, desde dezembro, atua como “advogado de Daniel Vorcaro em processos no STF, na Justiça do DF e perante o liquidante do Banco Master”. E que “as notas fiscais correspondem à remuneração por serviços jurídicos regularmente prestados por meu escritório”.
Engels Muniz informou ainda que seu mandato já havia terminado no Conselho Nacional do Ministério Público quando passou a advogar para Vorcaro. No entanto, não mencionou que era Conselheiro de Administração do Cartão BRB quando atuou para o dono do Master.
Relação entre Engels e vice de Celina Leão
Gustavo Rocha, vice de Celina Leão e ex-braço direito de Ibaneis Rocha, mantém uma estreita conexão com o advogado Engels Muniz. Em abril de 2024, os dois receberam conjuntamente o título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Na mesma noite, o ex-presidente Michel Temer (MDB) também foi laureado com a mesma honraria.
E foi justamente durante o governo Temer que Rocha e Engels trabalharam juntos em mais de uma oportunidade. Assim que o vice de Dilma assumiu a Presidência da República, em 2016, Gustavo Rocha se tornou subchefe para assuntos jurídicos, cargo subordinado à Casa Civil, então ocupado por Eliseu Padilha. E Engels Muniz foi nomeado chefe de gabinete de Rocha.
Em 2018, no último ano de Temer, Rocha foi alçado ao posto de Ministro dos Direitos Humanos, tendo Engels como secretário-executivo da pasta – chegando até a assumir interinamente o ministério em algumas oportunidades.
As ligações entre eles não param por aí. Até junho deste ano, Engels figurava como administrador do escritório de advocacia Vale Rocha e Passamani Advogados, que tem como sócios o candidato a vice de Celina, Gustavo Rocha, e sua esposa, a advogada e arquiteta Marcela Meira Passamani. Marcela Passamani também atuou por seis anos no governo de Ibaneis Rocha, ocupando até março de 2026 a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal. Atualmente, ela é candidata a deputada distrital pelo MDB.
Em consulta ao site da Receita Federal, é possível constatar que, antes da saída de Engels Muniz como administrador, o escritório dele mantinha o mesmo endereço físico do Vale Rocha e Passamani Associados: um prédio no Lago Sul, área nobre de Brasília.
Um mês antes de ser anunciado como vice-governador na chapa de Celina Leão, Gustavo Rocha e sua esposa modificaram a organização societária do escritório, retiraram Engels Muniz do quadro e pediram alteração do endereço comercial.
Procurado pela reportagem, Gustavo Rocha disse que é amigo de Engels Muniz e que ele administrava seu escritório no período em que ele exercia funções públicas. Rocha diz que desde o ano passado já estava certo que seria candidato a vice na chapa de Celina Leão.
“Quando eu assumi a função pública, eu fiquei incompatível com a advocacia. Meu escritório estava inativo e eu precisava botar alguém para administrar mesmo ele estando inativo. Se não eu perdia o CNPJ do escritório que existe desde 2004. A legislação da OAB permite que você coloque qualquer pessoa. Isso não significa que ele [Engels] seja meu sócio. O Engels tem o escritório dele. O Engels é meu amigo. O Engels tem o escritório dele, os clientes dele e as causas dele. Eu tenho meu e os meus clientes”, afirmou Rocha. O candidato a vice de Celina negou que tenha prestado serviços para o Banco Master ou Daniel Vorcaro.
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