As urnas contaram outra história. Raquel Lyra foi reeleita no primeiro turno com 53,3% dos votos válidos, enquanto João Campos ficou com 44,8%. Uma diferença de 8,5 pontos percentuais — quando a pesquisa enxergava apenas 1 ponto.
Não se trata de uma pequena oscilação dentro da margem de erro. A pesquisa apontava uma eleição praticamente empatada, as urnas mostraram uma vitória confortável.
Em São Paulo, outro problema Na disputa por duas vagas ao Senado, o Datafolha apresentava, na véspera, um empate quádruplo entre Guilherme Derrite, André do Prado, Marina Silva e Simone Tebet.
O resultado foi bastante diferente. Derrite terminou com 30,59% e André do Prado com 29,28%, elegendo-se os dois senadores. Marina teve 18,12% e Simone Tebet, 19,23%. Ou seja, os dois eleitos estavam muito acima daquilo que a última fotografia do Datafolha sugeria.
E não foi apenas Pernambuco ou São Paulo. Na corrida presidencial, o Datafolha divulgou na véspera 45% para Lula e 42% para Flávio Bolsonaro em votos válidos, embora classificasse a diferença como empate técnico.
As urnas inverteram a fotografia. Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com cerca de 47% contra 45%. Isso deveria servir como um alerta.
Não significa que o Datafolha seja fraudulento. Não há base para afirmar isso. Pesquisas podem errar. Amostras podem não capturar adequadamente movimentos de última hora. Eleitores podem decidir seus votos nos últimos dias. E margem de erro não é um salvo-conduto para qualquer resultado.
Mas existe uma diferença entre errar dentro da margem estatística e apresentar, na véspera, uma fotografia que não conseguiu captar adequadamente a direção da eleição. O problema não é somente errar. É a autoridade que acompanha o erro. Durante uma campanha, uma pesquisa publicada por um grande instituto não é apenas um número.
Ela produz manchetes. Influencia candidatos. Mexe com militâncias. Altera estratégias. Afeta doadores. Pode provocar voto útil. Pode criar a sensação de que determinada candidatura está morta ou de que determinada vitória está praticamente garantida.
Por isso, quanto maior a autoridade do instituto, maior deveria ser também a responsabilidade na interpretação de seus números. O eleitor precisa compreender que pesquisa não determina voto. Quem determina o resultado é a urna.
A eleição de 2026 deixa uma pergunta incômoda. Se, na véspera, o Datafolha enxergava uma disputa de 49% a 48% em Pernambuco, mas as urnas entregaram 53,3% a 44,8%, alguma coisa na fotografia não captou adequadamente o comportamento real do eleitorado.
Se, em São Paulo, quatro candidatos apareciam tecnicamente embolados na disputa pelo Senado e dois deles terminaram muito à frente, novamente existe algo a ser estudado. E se, na corrida presidencial, a pesquisa final apontava Lula numericamente à frente e o resultado colocou Flávio Bolsonaro na liderança, o fenômeno merece igualmente investigação metodológica.
Não para demonizar pesquisas. Para aperfeiçoá-las. O eleitor não é obrigado a caber na planilha Talvez esta seja a principal lição do primeiro turno.
O eleitor de 2026 mostrou que continua sendo mais complexo do que os modelos estatísticos conseguem traduzir. Ele muda de opinião. Esconde sua preferência. Decide na última hora. Vota diferente do que declarou. Pode rejeitar a polarização. Pode escolher um candidato local e outro nacional.
É preciso discutir limites. Diante desse histórico, é legítimo também discutir uma regulamentação mais rigorosa das pesquisas eleitorais. Institutos que divulgarem levantamentos com erros graves e reiterados deveriam estar sujeitos a multas pesadas, fiscalização efetiva e, em casos de comprovada irregularidade metodológica ou manipulação, até à suspensão temporária ou extinção de suas atividades.
Também merece debate a proposta de proibir a divulgação de pesquisas eleitorais nos 15 dias úteis que antecedem a votação, justamente para impedir que levantamentos de última hora, muitas vezes apresentados como retrato definitivo da eleição, influenciem o eleitor no momento mais sensível do processo. Pesquisa deve informar, não conduzir o voto. A soberania popular não pode ficar submetida à força de uma manchete produzida por um instituto de pesquisa.
Pode simplesmente não responder à pesquisa da maneira que o pesquisador espera. E há ainda o chamado voto silencioso: aquele eleitor que não está nas redes sociais fazendo campanha, não participa de pesquisas espontaneamente e não anuncia para ninguém em quem pretende votar.
As urnas encontram todos. A pesquisa encontra apenas a amostra. E é exatamente por isso que nenhum instituto deveria ser tratado como oráculo eleitoral.
O primeiro turno de 2026 não decretou a morte das pesquisas. Mas produziu algo talvez mais importante, decretou o fim da ideia de que pesquisa publicada na véspera é quase uma prévia do resultado. A última palavra continua sendo e deve continuar sendo do eleitor diante da urna eletrônica.
*Advogado e jornalista
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