Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
A entrevista do senador Hamilton Mourão (Republicanos/RS), nesta edição do Correio da Manhã, traz, nas suas entrelinhas, diversos esboços sobre como eram os bastidores das relações pessoais no Palácio do Planalto. Mostram que Mourão, que era então o vice-presidente da República, não gozava da confiança do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente naqueles últimos momentos do governo, após a derrota para o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022.
Assim, diz Mourão, nenhuma das conversas que Bolsonaro teve então sobre o resultado das eleições, sua inconformidade com esse resultado, e o que cogitava fazer a respeito tiveram a participação do seu vice-presidente. Para Mourão, ele diz, não teria havido então uma tentativa de golpe. Por outro lado, ele passa a impressão de que, diante das sondagens de Bolsonaro, a elas também teria dito “não”.
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Ao declarar que o então comandante do Exército, general Freire Gomes, “agiu corretamente” no episódio, Mourão parece dizer que agiria de forma parecida. Vale lembrar. Segundo os relatos, na ocasião Bolsonaro sondou os comandantes militares quanto à possibilidade de uma intervenção militar. O comandante da Marinha, Almir Garnier, colocou suas tropas à disposição. Se negaram Freire Gomes e o comandante da Aeronáutica, Baptista Júnior, que agora lança um livro sobre o episódio.
Segundo Baptista Júnior e o seu livro “Eu Disse Não – Uma Trincheira Antigolpista”, quando Bolsonaro insinuou a hipótese de intervenção militar, Freire Gomes o teria ameaçado com voz de prisão. Diga-se, porém, que Hamilton Mourão não endossa a opinião de Baptista Júnior de que teria havido uma tentativa de golpe. Para o general e senador, tentativa de golpe precisaria ter de fato tropa na rua num ensaio de interrupção institucional frustrada. Teria havido, então, uma cogitação, um plano que não avançou?
Isso Mourão afirma não saber. Porque não participou das conversas. E não participou porque, àquela altura, Bolsonaro não teria confiança nele. Por que a desconfiança? Mourão avalia que por diferenças de estilo. Bolsonaro, mais sanguíneo, ele mais ponderado. O hoje senador parece o tempo todo dizer, então, que não cometeria eventuais erros cometidos por precipitação.
Quando ele diz que caso prosseguisse como candidato a vice nas eleições de 2022, Bolsonaro venceria, porque ele seria “mais preparado” que o general Braga Netto, que o substituiu no posto e acabou derrotado, novamente Hamilton Mourão sinaliza que não repetiria determinadas atitudes que foram tomadas e determinadas declarações feitas.
Os três pedidos que Mourão afirma ter feito a Bolsonaro nas duas únicas conversas que afirma ter tido são outras sinalizações no sentido de evitar o que depois, ainda que ele com isso não concorde, foi chamado de “trama golpista”: criticar a atuação do TSE, tirar as pessoas da frente dos quarteis e passar a faixa para Lula.
Um protesto à atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o comando então de Alexandre de Moraes caberia. Até porque, hoje, potencializada com outras atitudes dele que a oposição ao governo Lula critica, tal protesto viria a ser endossado. A contestação do resultado eleitoral, porém, não seria possível porque não se encontraram indícios.
A retirada dos acampamentos em frente aos quarteis provavelmente diminuiria o clima de tensão política daqueles dias. E Mourão tem razão: as áreas próximas a instalações militares não se prestam a manifestações políticas. São áreas de segurança nacional. Os acampamentos não deveriam, por essa ótica, ter sido permitidos.
Finalmente, passar a faixa presidencial para Lula significaria a confirmação da institucionalidade. Serviria, talvez, para acalmar as bases bolsonaristas mais radicais. Talvez evitasse a invasão e depredação dos prédios dos três poderes no dia 8 de janeiro de 2023. Devolveria o país a uma situação de normalidade política. Vida que segue.
No fundo, tudo isso parece ajudar a entender por que Mourão foi perdendo espaço no governo até chegar à situação final que ele narra de estar, segundo ele, alijado de qualquer discussão política. Uma curiosa trajetória. Porque, quando ainda estava na ativa, antes de ser candidato, em alguns momentos ele parecia até ser mais radical que Bolsonaro.
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