Por Gastão Cerquinha Neto*
Previsão para 2037
Cientistas já avaliam que há cerca de 95% de chance de 2027 se tornar o ano mais quente da história registrada, superando muito o recorde de 2024. Além disso, existe uma tendência de aumento da temperatura até 2037, de forma que a temperatura média seja semelhante ao pico que estamos passando hoje. Ou seja, as temperaturas deste ano de El Niño serão as temperaturas médias em 2037.
Na prática, o El Niño extremo está agindo como uma “máquina do tempo” para o clima da Terra. Ele vai provocar um pico de calor tão fora da curva que o planeta sentirá temporariamente temperaturas que só deveriam se tornar comuns daqui a cerca de uma década, entre 2034 e 2040. Passado o impacto mais forte do El Niño, a temperatura deve baixar um pouco, mas o problema continuará existindo, trazendo tempestades mais violentas, secas prolongadas e chuvas cada vez mais imprevisíveis.
Leia maisMudanças tão drásticas e intensas requerem projetos de grandes proporções, e não de iniciativas localizadas com metas modestas. No Brasil, enquanto os governos penam na realização de planos de adaptação climática para as cidades, os projetos de adaptação ainda convivem com orçamentos limitados, com resistências às iniciativas de desenvolvimento sustentável e, muitas vezes, com alas de negacionismo climático, que dificultam transformar conhecimento e planejamento em ação.
O exemplo que vem da China
A China possui um modelo de projetos estruturadores em escala continental, guiados por planejamento estatal centralizado, metas de longo prazo e integração entre governança, economia e meio ambiente. Desde 2018, faz parte da Constituição chinesa a fundamentação de que suas políticas devem ser baseadas na coexistência harmônica e benefício mútuo entre ser humano e natureza.
Entre a década de 1980 e 2023, a China praticamente duplicou sua cobertura florestal, indo de 12% para 23,04%, graças a um investimento de US$ 105 bilhões ao longo de 40 anos, quantia equivalente a apenas 0,57% do seu PIB hoje. Com foco no futuro, o planejamento estatal mantém metas arrojadas: restaurar mais de 6 milhões de hectares por ano para alcançar 26% de cobertura florestal e recuperar 75% das terras com risco de degradação até 2035.
Inspirado em uma das setes maravilhas do mundo, o Projeto Grande Muralha Verde prevê a restauração de terras desertificadas, criando uma barreira ecológica para frear o avanço da desertificação sobre cidades e áreas agrícolas. A iniciativa já restaurou 53% das terras degradadas, o que corresponde a mais de 20 milhões de hectares, elevando a vegetação local de 5% para 13,84%. A solução vem até através de helicópteros que lançam sementes em pleno voo, e já fizeram a semeadura de 14.500 hectares no Tibete em 2020.
O exemplo que vem da Tanzânia
Na região de Dodoma, na Tanzânia, foram regeneradas mais de 34 milhões de árvores entre 2017 e 2026, utilizando técnicas simples e de baixo custo, que consistem em regenerar as árvores e arbustos a partir de tocos vivos, raízes e sementes já existentes no solo, constituindo uma técnica sustentável para a recuperação de áreas. A iniciativa alcançou 340 vilarejos, capacitou 1.200 agricultores multiplicadores, implantou 116 km de valas para captação de água da chuva e ofereceu treinamento a mais de 300 mil famílias, das quais mais de 200 mil adotaram as técnicas.
O projeto denominado Kisiki Hai, também conhecido como Regeneração Natural Gerida por Agricultores, utiliza valas para captação e retenção de água da chuva, conhecida como técnica Fanya Chini. Em uma região onde chove pouco, em média 500 mm por ano, essa técnica contribui para recuperar solos e pastagens, aumentar a disponibilidade de água, melhorar a produtividade agrícola, favorecer a biodiversidade e fortalecer a resiliência às mudanças climáticas.
Os resultados demonstram como técnicas simples, de baixo custo e baseadas na natureza podem recuperar paisagens degradadas, melhorar as condições do solo e da água, fortalecer os meios de subsistência das comunidades rurais e aumentar a resiliência climática em larga escala.
Nesse cenário, o Brasil ainda não conseguiu transformar prognósticos em políticas públicas estruturantes e proporcionais à velocidade do aquecimento global. Presas a orçamentos insuficientes, disputas ideológicas e ações fragmentadas, as cidades brasileiras continuam vulneráveis a extremos climáticos cada vez mais severos. Os exemplos da China e da Tanzânia provam que tanto megaprojetos de Estado quanto técnicas comunitárias de baixo custo funcionam quando há vontade política e planejamento contínuo. Resta ao poder público decidir se liderará a adaptação necessária ou se continuará a pagar a conta, cada vez mais alta, da própria inércia.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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