Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Uma volta às origens. Os atos iniciais de campanha tanto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto do seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), tiveram a mesma característica. No caso de Lula, de maneira mais explícita, tanto que o comício em São Bernardo do Campo (SP) ganhou o título de “Onde tudo começou”.
Mas a escolha de Flávio Bolsonaro em fazer seu comício inaugural na Praia de Copacabana parece ter um propósito parecido. Foi ali que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, reuniu quando era presidente os maiores números de pessoas em seu favor. Temos, então, na principal disputa pelo Palácio do Planalto em outubro, duas propostas conservadoras. No sentido de proporem aos eleitores a continuidade de projetos. A de Lula, a continuidade do seu próprio projeto, desde o início dessa construção, há 47 anos.
Leia maisA de Flávio, a continuidade do projeto de direita proposto no país por Jair Bolsonaro. A entrada de Duda Lima como o marqueteiro da campanha de Flávio parece marcar uma mudança grande na estratégia. Se no começo Flávio procurou se apresentar como o Bolsonaro mais moderado, que tomou vacina, etc, o início da campanha de fato parece aprofundar a ideia de que ele é mesmo o representante do bolsonarismo raiz nesta campanha. Até porque – e isso pesou na escolha do tom – o Centrão resolveu ficar neutro.
Ou seja, se Flávio Bolsonaro mostra-se forte na disputa com Lula, é porque ele tem esses votos da direita, e não atraiu o centro. De nada adiantaria, então, ele tentar vestir a essa altura uma indumentária mais moderada. Desde a convenção, com a apresentação do avatar de Jair Bolsonaro, é ele a figura invocada por Flávio a todo momento. Como disse em Copacabana: “Eu sei que pareço com ele, mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”. Flávio parece, então, evocar a ideia de que será o representante do pai nestas eleições.
Um pouco, talvez, como foi Fernando Haddad o representante de Lula nas eleições de 2018. Agora, é Jair quem, em prisão domiciliar e inelegível, não pode disputar. Em 2018, quem estava preso e inelegível era Lula. Na ocasião, porém, Haddad perdeu a eleição para Jair Bolsonaro. Seguindo na linha de replicar seu pai, Flávio Bolsonaro faria uma motociata em Juiz de Fora (MG). Cancelou por causa do mau tempo.
A campanha de Lula também parece propor uma volta à origem. Em 2002, quando se elegeu pela primeira vez, o “Lulinha paz e amor” era alguém mais moderado, disposto a gestos para atrair o centro. Talvez agora pelo mesmo motivo de o Centrão ter declarado neutralidade, Lula propõe um retorno ao começo.
O convite de Lula é para a adesão a uma trajetória. Há, porém, em todo o discurso uma leitura subliminar. Não necessariamente essa volta à origem proposta significa uma radicalização de discursos e gestos agora. No discurso que fez, Lula se lembra da recusa dos metalúrgicos à proposta feita pelos empresários de reposição salarial na greve.
Lula defendia a proposta, mas os trabalhadores a recusaram. A opção foi radicalizar. O processo tornou-se mais duro, mas, do contrário, talvez não obtivesses as consequências políticas que produziu. Assim, o que Lula parece ter procurado demonstrar é que teria havido da parte dele um amadurecimento ao longo de todo esse caminho.
Curioso é que pode ser também pela linha da trajetória que Flávio Bolsonaro pode encontrar o caminho para bater em Lula. Esboça-se a ideia de mostrar que casos de corrupção surgiram sempre nos governos de Lula e do PT. Desde o Mensalão, em 2002, passando pelo “Petrolão” da Operação Lava Jato, e agora o filho do presidente, o Lulinha.
Novas informações sobre o envolvimento de Fábio Luiz Lula da Silva no escândalo do INSS, em diálogos com Roberta Luschinger, sócia do “Careca do INSS”, comprometem mais Lulinha. E a intenção de Flávio Bolsonaro é dizer que a corrupção, nesse caso, bateu à porta do Palácio do Planalto. E reforçar que assim tem sido desde 2002.
Estão, portanto, os eleitores diante de duas propostas conservadoras. O que as duas principais candidaturas sugerem é a adesão a modelos antes propostos. Se Lula propõe a continuação do que fez o PT, a antítese que Flávio propõe não é a novidade, mas o retorno ao sentimento de oposição a essa era que Jair Bolsonaro representou em 2018.
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