Por Osvaldo Matos*
Continuo conservador, de direita, católico e contrário à esquerda. Não mudei minhas convicções. Mas isso nunca me obrigou a concordar com tudo o que fazem aqueles em quem deposito minha confiança.
Como brasileiro, acredito no capitalismo, na liberdade de empreender e numa economia que permita às pessoas viver do próprio trabalho. Defendo um Estado que entregue os serviços essenciais, cuide da segurança, respeite o contribuinte e incentive a produção. Já pagamos caro demais para receber tão pouco.
Acredito no trabalho, na dignidade e no respeito. Sei que há pessoas que precisam de ajuda, e uma sociedade decente não pode abandoná-las. Minha crítica é ao uso dessa necessidade para manter famílias dependentes do governo, como se o dinheiro público fosse uma generosidade de quem está no poder. A assistência precisa oferecer condições de saída da pobreza. Quando a dependência se torna permanente, alguma coisa está errada.
Leia maisTambém não se pode aumentar indefinidamente a despesa pública e esperar que ninguém pague a conta. Ela aparece no imposto, no endividamento e, quando a economia perde o equilíbrio, na inflação e na falta de emprego. Quem tem menos recursos costuma sentir primeiro.
Por isso me incomoda tanto ver a direita desperdiçar oportunidades. Precisamos marchar unidos, com capacidade de conviver com diferenças e trabalhar por um objetivo comum. Na minha avaliação, o primeiro turno deixou evidente o custo das nossas divisões. Não podemos exigir confiança do eleitor enquanto brigamos entre nós e improvisamos nas decisões mais importantes.
É nesse ponto que entra minha crítica a Flávio.
Considero intempestiva a maneira como conduziu a divulgação da carta. Era um momento para medir as palavras, conversar com os interlocutores e saber exatamente onde pretendia chegar. Em vez disso, vimos versões, correções e até a circulação de um documento com um brasão antigo da República. Para quem buscava reconhecimento internacional, foi um erro difícil de justificar.
Minha experiência em comunicação, gestão e inteligência competitiva me faz olhar para esse episódio com preocupação. Antes de uma manifestação dessa dimensão, é preciso antecipar reações e preparar os próximos passos. Uma carta não pode carregar uma pretensão tão grande e revelar tamanho descuido na execução.
Se havia questionamentos sobre o processo eleitoral a apresentar ao mundo, eles precisavam vir acompanhados de provas verificáveis e argumentos capazes de resistir ao escrutínio. A condução acabou permitindo que os erros do documento ocupassem o lugar da discussão que se pretendia abrir.
Quanto a Trump, não conheço os entendimentos de bastidores. Mas considero arriscado agir contando com um respaldo que não esteja claramente acertado. Pela leitura que faço de seu comportamento político, ele quer conduzir as iniciativas das quais participa. Uma articulação mal resolvida pode fechar justamente a porta que se pretendia abrir.
Faltaram preparo e senso político. Esperava mais de quem se propõe a exercer uma liderança dessa responsabilidade.
E faço essa cobrança porque me preocupa o futuro do Brasil. Vejo com apreensão a pressão tributária, a corrupção, a violência e o espaço conquistado pelo crime organizado. Quem tenta manter uma empresa, sustentar uma família ou simplesmente trabalhar em paz sabe o peso disso na vida cotidiana.
No comércio exterior, confiança interfere diretamente nas decisões. Ninguém compromete recursos por anos sem avaliar se os contratos serão respeitados e se as regras continuarão valendo. Quando essa confiança diminui, o investimento é adiado ou procura outro destino. O empresário brasileiro também faz essa conta.
Para quem pode, reorganizar a vida e os negócios no exterior volta a ser uma possibilidade. Não é uma decisão simples. Há família, história e patrimônio construído aqui. Tampouco vejo a Europa como resposta automática; tenho sérias reservas quanto aos rumos políticos e econômicos de parte do continente.
Quem fica, por vontade ou necessidade, precisa de condições para seguir em frente. Preocupa-me ver um Parlamento que considero excessivamente submisso e uma concentração de poder entre o Executivo e setores do Judiciário que, a meu ver, compromete o equilíbrio democrático.
Quero continuar acreditando que é possível construir uma vida no Brasil sem depender de favor político nem precisar procurar segurança em outro país. Mas essa esperança exige responsabilidade de quem pretende nos representar.
A direita precisa se unir e aprender a cobrar suas lideranças. Não vou deixar de apontar um erro porque ele veio do meu lado. Há brasileiros demais confiando em nós para que continuemos tratando despreparo como algo aceitável.
*Cientista político e social, publicitário e empresário. Especialista em marketing, gestão, comunicação pública, inteligência competitiva e comércio exterior
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