No sertão onde nasci e fui criado não havia televisão. A energia, escassa e com hora marcada para nos jogar no mundo das trevas, de uma escuridão assustadora, era gerada por um motor super barulhento a diesel. Quando quebrava, dormíamos à luz de candeeiros. Era um mundo também sem fotografias. São raras as fotos que tenho dos tempos de infância.
Diferente de hoje, onde os celulares permitem até as autofotos, as chamadas selfies, naquele tempo registros fotográficos só pagos, porque ninguém tinha máquina fotográfica. Em Afogados da Ingazeira, papai recorria a “seu” Adamastor, o precursor da fotografia na cidade. As imagens eram entregues sob encomenda, muitos dias depois, em preto e branco.
Leia maisAdamastor ganhou um concorrente: José Barros Tenório, pai do meu amigo e contemporâneo Sérgio Tenório, hoje empresário em Brasília. Barros, na verdade, viu na arte de fotografar um nicho de mercado promissor e abriu um negócio mais sofisticado para a época, o Foto Popular, espaço para os retratos 3 x 4 exigidos em documentos — identidade, a reservista do Exército e outros derivados. Trouxe equipamentos de São Paulo para acompanhar casamentos, festas e eventos em geral.
O tempo foi passando e houve a primeira revolução: os binóculos. Tinham uma lente de aumento de um lado e um pequeno fotograma do outro, com uma tampinha translúcida na parte de trás. Para ver a foto era preciso fechar um dos olhos, colocar a lente grudada no outro olho e apontar a parte de trás para a luz (o sol, uma lâmpada ou a janela) para conseguir enxergar a foto minigigantesca e ampliada lá dentro
O precursor em Afogados da Ingazeira entre os anos 60 e 70 foi Zé Pedra, figura extremamente engraçada, típica de enredo para filmes. Fazia registro de festas, casamentos, bailes, aniversários e batizados. Era um verdadeiro paparazzo.
Nos bailes, tirava fotos de Deus e o mundo. Dias depois, saía pela ruas da cidade a procura dos personagens clicados para cobrar o resultado do seu produto. E ai de quem não aceitasse a oferta! Zé Pedra andava de paletó e gravata, no sol escaldante do Sertão, levando a tiracolo sua potente máquina e um punhado de binóculos.
Adamastor e Zé Pedra traziam o mundo de Afogados da Ingazeira de forma instantânea. Cada fotografia deles conta um pedaço da nossa história. Capturaram o enredo perfeito, a forma de expressão silenciosa, com imagens que falavam mais do que palavras.
A fotografia deles nos ensinou a observar, a prestar atenção aos detalhes e a encontrar a beleza nas coisas simples da vida. Parece que foi ontem, um pedaço de papel que guarda uma vida inteira. O tempo passa, mas a fotografia deles dá uma tremenda saudade daquilo que a gente ainda não sabia que ia ser tão especial.
Carlos Drumond de Andrade, ao falar da sua Itabira poeticamente, trouxe o sentimento da dor na fotografia: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói”. Quem não tem uma foto dolorida numa estante de casa? Tenho fotografias que me emocionam todos os dias. A com meus pais Gastão e Margarida, pela ordem, são as mais dolorosas.
Os fotógrafos, temos que tirar o chapéu para eles, são os artistas que criam a obra-prima. Conseguem guardar para sempre um segundo que nunca mais vai se repetir. Uma foto conta histórias, transmite sentimentos e revela o invisível aos olhos comuns. Permite reviver detalhes, expressões e saudades cada vez que é vista.
A fotografia é a prova de que mesmo as coisas mais efêmeras podem se tornar eternas. É arte de congelar um momento no tempo. Às vezes, uma única foto é capaz de expressar o que mil palavras não conseguem transmitir. Enxerga o invisível aos olhos comuns. Cada fotografia é uma pequena cápsula do tempo, preservando para sempre a magia e a emoção daquele momento especial.
Uma foto, enfim, é a prova de que momentos efêmeros podem se tornar eternos, congelando o tempo e transformando a realidade em arte, memória e emoção. Através da lente da câmera, a foto revela a beleza oculta no mundo que está ao nosso redor.
SOBRE A FOTO ACIMA
Não sei o autor da foto, mas a imagem compõe um painel da minha adolescência ao lado dos meus irmãos em Afogados da Ingazeira. Sou o personagem em destaque, cabeludo, calça branca e cinto, com a mão de minha irmã Ana no meu ombro. Os demais: Marcelo, Augusto e Fátima.
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