Por Orlando Morais Neto*
Houve um tempo em que as campanhas eleitorais eram verdadeiros espaços de construção. Não eram perfeitas — nunca foram —, mas havia uma percepção de que a disputa política deveria servir para apresentar projetos, confrontar visões de mundo e convencer o eleitor pela força dos argumentos.
Os palanques eram ocupados por propostas. Os debates eram travados em torno de modelos de gestão, concepções econômicas, prioridades sociais e diferentes filosofias de governo. O adversário era, antes de tudo, alguém que pensava diferente. Combatia-se a ideia, não a dignidade da pessoa.
Leia maisÉ verdade que a política sempre conheceu o embate. A retórica firme, a crítica contundente e a oposição fazem parte da essência da democracia. Mas existe uma diferença profunda entre o confronto de ideias e a degradação do debate. Entre a crítica e o insulto. Entre a divergência e a desumanização.
Nos últimos anos, assistimos a uma transformação silenciosa, porém devastadora. O palco da democracia parece ter sido convertido em um picadeiro disfarçado de ringue romano. Já não basta convencer; é preciso viralizar. Não importa mais a profundidade do pensamento, mas a capacidade de produzir um corte de poucos segundos capaz de provocar indignação, alimentar torcidas e conquistar milhares de compartilhamentos.
A lógica da visibilidade passou a ditar o comportamento de muitos atores políticos. A reflexão perdeu espaço para a reação instantânea. A argumentação cedeu lugar ao meme. A complexidade tornou-se inimiga da velocidade. Em vez de discursos capazes de inspirar confiança, multiplicam-se frases de efeito cuidadosamente construídas para gerar aplausos entre os que já pensam da mesma forma.
Nesse novo ambiente, a recompensa raramente está com quem constrói pontes. Ela costuma favorecer quem provoca escândalos. Uma proposta consistente exige tempo para ser compreendida; uma ofensa precisa apenas de alguns segundos para se espalhar. O debate foi substituído pelo desempenho. A convicção, pelo engajamento. A política, muitas vezes, pela performance.
O problema é que esse fenômeno produz consequências muito além das redes sociais. Quando a agressão se transforma em método, o adversário deixa de ser um concorrente legítimo para tornar-se um inimigo a ser eliminado. A divergência passa a ser interpretada como traição. O diálogo transforma-se em fraqueza. A moderação é confundida com ausência de convicção.
O resultado é uma democracia emocionalmente exausta.
Perde o eleitor, que recebe muito barulho e pouca informação. Perde a administração pública, porque projetos estruturantes deixam de ser discutidos. Perdem os próprios candidatos, que acabam prisioneiros de personagens criados para alimentar a permanente necessidade de repercussão. E perde, sobretudo, a democracia, cuja maior riqueza sempre foi permitir que ideias diferentes coexistissem sem que seus defensores precisassem se odiar.
Curiosamente, os grandes momentos da história política nunca nasceram da multiplicação de ofensas. As grandes transformações surgiram da força das ideias. As revoluções intelectuais, os avanços institucionais, a consolidação dos direitos fundamentais e a própria construção do Estado Democrático de Direito foram frutos de longos debates filosóficos, jurídicos e políticos. Nenhuma sociedade amadureceu porque seus líderes colecionavam frases de efeito. Elas amadureceram porque alguém se dispôs a pensar, ouvir, discordar e convencer.
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja vencer uma eleição, mas resgatar o significado da própria política.
A democracia não foi concebida para premiar quem grita mais alto. Ela existe para permitir que diferentes visões de sociedade disputem legitimamente o convencimento popular. É preciso recordar que campanhas eleitorais não deveriam ser campeonatos de humilhação pública nem arenas de destruição moral do adversário. Elas deveriam ser processos coletivos de reflexão sobre o futuro, nos quais o cidadão pudesse comparar ideias, avaliar projetos e escolher, conscientemente, o caminho que considera melhor para sua comunidade.
O eleitor merece mais do que espetáculos cuidadosamente encenados para provocar indignação. Merece conhecer propostas, compreender prioridades, avaliar capacidades administrativas e identificar valores.
Porque, ao final, as eleições passam. As frases de efeito desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. As polêmicas são substituídas por novas polêmicas. Mas as decisões tomadas nas urnas continuam moldando escolas, hospitais, cidades, economia e a vida de milhões de pessoas.
Talvez ainda haja tempo de trocar as farpas pelas ideias. De substituir a cultura da humilhação pela cultura da argumentação. De compreender que a verdadeira grandeza da política nunca esteve na capacidade de destruir adversários, mas na coragem de construir caminhos comuns.
Enquanto continuarmos valorizando mais quem agride do que quem argumenta, mais quem viraliza do que quem apresenta soluções, estaremos produzindo campanhas cada vez mais barulhentas e democracias cada vez mais silenciosas.
No fim, a política sempre será um espelho da sociedade. A pergunta que permanece é simples: queremos uma democracia que forme cidadãos ou apenas um espetáculo que entretenha espectadores?
*Procurador municipal e advogado
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