Por Gastão Cerquinha Neto*
Tempestade em Nova York
Não é só o Brasil que enfrenta problemas com alagamentos. Mesmo em países como os Estados Unidos, com uma infraestrutura consolidada de proteção, desde o último sábado (18) as tempestades inundam metrôs, bloqueiam vias e alteram a operação de voos nos aeroportos.
No Queens, motoristas ficaram presos nos carros e precisaram ser retirados por equipes de resgate devido à subida rápida da água. Em Newark, um brasileiro que acompanhava a Copa registrou o momento em que a via estava completamente alagada, lembrando dias de chuva forte em Recife.
Leia maisEm Nova Iorque chove menos que no litoral de Pernambuco. Enquanto em Recife esperamos chuvas que chegam a 2.500 mm todos os anos e concentrados em poucos meses, lá costuma atingir 1.200 mm ao longo do ano, mostrando que o impacto vai além do volume de chuva. Particularmente, em Nova York, o grau de adensamento da população, a impermeabilização da cidade, com poucos espaços livres, faz com que a chuva escoe rapidamente provocando os alagamentos.
Temporada de furacões
O maior medo dos EUA se inicia neste mês, quando começa a temporada de furacões na costa leste e Golfo do México, se estendendo até outubro. Furacões como o Katrina (2005), Sandy (2012), Harvey (2017) e Ian (2022) provocaram danos extensos e marcam pelas fatalidades associadas.
O Sandy ocasionou U$ 65 bilhões em danos e em Nova York teve pelo menos 72 mortes, onde o maior deflagrador do desastre não foi a chuva, mas sim o aumento do nível do mar que se elevou mais de 4 metros, conhecida como maré de tempestade. Esse cenário pode se agravar com o El Niño, quando são esperadas mais ocorrências de tempestades na região centro-sul dos EUA.
De acordo com o IPCC, painel internacional formado por cientistas de diversos países, é esperado que o nível médio dos mares em Nova York suba 1 metro até 2100. Isso, somado a fenômenos atmosféricos como os furacões, tem a capacidade de provocar impactos ainda maiores e mais frequentes.
Nível do mar em Recife
Em Recife, as projeções também não são otimistas. As previsões indicam um aumento no nível médio dos mares de 0,69 m até 2100. Significa que áreas com baixas elevações estarão sujeitas a alagamentos frequentes e, quando combinado com chuvas intensas há a tendência de alagamentos mais duradouros.
Alguns bairros de Recife já sofrem com alagamentos provocados pela maré, mesmo em dias sem chuva. Regiões baixas como em Afogados, IPSEP e Boa Viagem enfrentam transtornos devido ao retorno da maré pela drenagem das ruas. Com o aumento do nível dos mares, haverá a intensificação desses efeitos e mais áreas serão impactadas, a exemplo da Ilha do Leite.
As marés em Recife têm dois picos todos os dias, e, diferentemente dos EUA, o principal fator é de origem astronômica e não meteorológica. O movimento da Lua e Sol são responsáveis pelos momentos de marés com maiores picos, denominadas marés de sizígia, momento em que o nível do mar pode variar 2,8 metros no mesmo dia. Todos os anos a Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha emite a tábua de marés, onde é possível prever os momentos de maré alta e se preparar para eventos críticos.
Solução para os alagamentos
Recife também tem bons exemplos de soluções, ávidas para serem espalhadas pela cidade. Pesquisadores da UPE e UFPE estudaram a aplicação de pavimentos permeáveis em uma área de 840 metros quadrados do campus da Poli-UPE no bairro da Madalena. Uma área conhecida pelos extensos alagamentos e muito importante para o fluxo de veículos, uma vez que recebe veículos da Av. Caxangá e Av. Abdias de Carvalho.
Pavimentos permeáveis são estruturas que substituem o concreto, permitindo que a água infiltre no subsolo com mais facilidade. Além da substituição da camada superior, também é feito um tratamento das primeiras camadas do solo, adicionando materiais mais permeáveis com boa capacidade de absorção. Técnicas como essa são conhecidas como Soluções Baseadas na Natureza, pois reproduzem processos naturais revertendo o impacto que a urbanização provoca no meio ambiente.
Os resultados foram transformadores. Mesmo após chuvas intensas em 2023 e 2024, não foi registrado nenhum alagamento na região, o que antes ocorria com bastante frequência. Todo o monitoramento da área foi feito com sensores de nível d’água, para identificar possíveis alagamentos e com pluviômetro para registrar os volumes de chuva, mostrando a viabilidade da solução como mais uma estratégia para tornar as cidades mais resilientes.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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