Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Alexander Keyssar, no clássico “The Right to Vote”, mostra em detalhes a evolução do voto nos Estados Unidos desde os primórdios até o fim do século 20. Ele detalha o aperfeiçoamento da democracia norte-americana a partir da ampliação do eleitorado, com a inclusão das mulheres, dos negros, dos imigrantes asiáticos e dos latinos. Houve um tempo, não muito distante, em que o direito de votar era manipulado para impedir minorias de ir livremente às urnas.
Em Estados do Sul, por exemplo, era comum a prisão de negros pouco antes das eleições para que não pudessem votar. Uma cumplicidade envolvendo xerifes e juízes, todos eleitos em suas comunidades. Ou ainda, como ocorre até hoje, trabalhadores podem ter desconto no salário se a eleição cair num dia útil e faltarem ao trabalho.
Leia maisEssa é a democracia norte-americana, que, neste sábado (4), completa 250 anos. Um regime que foi evoluindo sem jamais perder seus fundamentos, como estabilidade jurídica, eleições livres e regulares, liberdade de expressão, direito à educação, liberdade de organização e de empreender.
A democracia norte-americana inspirou Alexis de Tocqueville e foi a semente dos sistemas democráticos do mundo ocidental. Hoje, passados quase três séculos, continua viva e forte, funcionando com vigor invejável a ponto de permitir que um muçulmano fosse eleito prefeito de Nova York, mesmo depois do trauma provocado por muçulmanos no atentado às Torres Gêmeas em 2001.
Há inúmeros autores, poucos sérios, muitos nem tanto, a preconizar o fim do chamado império norte-americano. Descrevem a decadência que nunca chega, porque os Estados Unidos continuam sendo governados pelo Estado de Direito, conforme pudemos constatar na recente decisão da Suprema Corte mantendo a cidadania aos nascidos em território norte-americano, totalmente contrária ao desejo do presidente Donald Trump.
Embora a oposição acuse Trump de ser ditador, nada disso corresponde à vida como ela é. As instituições seguem funcionando, o Congresso legislando, existe segurança jurídica, a imprensa é livre, as redes sociais não são censuradas e o sistema de freios e contrapesos vigora. Ninguém foi preso por discordar do governo ou de um presidente que sofreu três tentativas de assassinato, sendo que uma delas bateu na trave.
A democracia norte-americana é um sistema em evolução, conforme diz Keyssar, porque continuam de pé os pilares fincados pelos fundadores daqueles Estados Unidos de 1776, união das 13 colônias. Um país que jamais experimentou a ditadura. Nunca é demais lembrar que George Washington recusou terminantemente a possibilidade de ser rei, diante da proposta de um grupo de militares descontente com o Parlamento.
Perguntei a quatro chats de IA se a democracia e a influência norte-americana estavam em declínio. Nenhum deles deu resposta convincente. Falaram muito da perda de influência dos Estados Unidos por causa da política externa de Trump, confundindo geopolítica com democracia. Quando perguntei se os fundamentos democráticos continuavam de pé, responderam que sim. Às vezes, tenho impressão de que os chats de IA ainda têm dificuldades em certas situações. O governo Trump é como cavalo de rodeio, dá pinotes e coices a torto e a direito, mas até agora ninguém conseguiu domá-lo. Gostem ou não, está entregando o que prometeu ao eleitorado conservador. Muitos deixaram a zona de conforto e reclamam.
Os Estados Unidos têm inúmeros defeitos, mas a democracia para eles é inegociável. Ela avançou com a Guerra de Libertação, a Guerra Civil, a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais, os conflitos na Coreia e no Vietnã e com a Guerra Fria. Em 2005, vivi um período em Boston e aprendi que ali nunca houve escravidão. Diferente dos Estados do Sul, essencialmente agrícolas, dependentes de mão de obra farta e barata para as plantações de algodão, grãos e pecuária.
A Guerra Civil (1861-1865) acabou com a escravidão, mas não com o preconceito e o racismo. Mas a democracia fez a diferença quando o governo criou, em 1865, o Freedmen’s Bureau, permitindo a implantação de escolas de alfabetização para ex-escravos. No ano seguinte, foi criada a Fisk University e, em 1867, a Howard University. Pessoas alfabetizadas e com um diploma têm mais condições de se defender e lutar pelos seus direitos. Sem essas escolas, dificilmente teríamos a luta pelos direitos civis liderada pelo pastor Martin Luther King nos anos 1960.
Os 250 anos da democracia dos Estados Unidos são uma data a ser celebrada no mundo todo, independentemente de ideologia. Enquanto a Europa viveu os séculos 19 e 20 numa sucessão de reinados e ditaduras, exceto a Inglaterra, as Américas Central e do Sul tiveram regimes duros, com seguidos golpes. Nada mudou nos Estados Unidos. O Brasil, por exemplo, só teve democracia de fato e de direito a partir da Constituição de 1946. Menos de 20 anos depois, ela foi derrubada por um golpe militar em 1964, apoiado pelos norte-americanos, e restabelecida pela Constituição de 1988.
A Rússia nunca experimentou democracia e dificilmente o fará, assim como a China, os países árabes e grande parte das nações africanas. Os Estados Unidos foram pródigos em apoiar ditaduras mundo afora, especialmente no seu quintal. Isso é péssimo, mas não é a questão, porque o aniversário de 250 anos é comemorado entre seus 350 milhões de habitantes. Continuam produzindo cultura, tecnologia de ponta, inventaram o celular, as redes sociais e a inteligência artificial. Em outras invenções virão filmes, livros, tecnologia. A China é osso duro de roer, mais do que a antiga União Soviética. Porém, por mais genial que seja, enfrenta barreiras como a língua e os costumes ocidentais, as quais cairão com o tempo.
Conceito de democracia é um só. Ficou provado e comprovado num encontro fortuito de um turista norte-americano com um brasileiro na Praça dos Três Poderes. O brasileiro perguntou se a liberdade de expressão valia no governo Trump. O norte-americano foi reto e direto: “Se eu subir num caixote em frente à Suprema Corte e xingar os juízes, ninguém vai me prender ou punir”. E o brasileiro contando vantagem: “Nossa democracia é igual. Tenho liberdade de xingar os juízes da Suprema Corte norte-americana e suas progenitoras sem ser importunado. Pode apostar.”
O Poder360 perguntou: “Ao completar 250 anos, a democracia e a influência dos Estados Unidos estão em declínio?”.
Eis o que responderam os articulistas convidados:
• Sim – Carlos Eduardo Lins da Silva – Sim, democracia nunca foi perfeita, mas jamais tão degradada.
• Sim – Ricardo Melo – Sim, basta se ater aos fatos
• Sim – Janio de Freitas – Sim, país sofre desgaste político, econômico e moral
• Não – Marcelo Tognozzi – Não, nação segue viva e forte aos 250
• Não – Mario Rosa – Não, país está se transformando como uma lagarta que vai voar
• Não – Marcos Troyjo – Não, são protagonistas num mundo pós-hegemônico


















