Acabei de ler “O Velho Graça”, de Dênis de Moraes, a melhor, mais completa e atualizada biografia de Graciliano Ramos, uma lenda da literatura brasileira. Fiquei chocado com muitos detalhes reveladores da vida dele. Teve um pai estúpido, violento, que vivia do comércio em Palmeira dos Índios. Na infância em Quebranculo e Viçosa, foi surrado pelo pai, que batia nele com muita frequência.
Graciliano não teve vida fácil. Embora escritor consagrado até no exterior, passou perrengues financeiros em todos os momentos da sua carreira. Sem bens, viveu em casas alugadas, trocando de endereços no Rio o tempo todo. Dado a paixões, viu o suicídio de um filho que o acusava de não amá-lo. Solidário aos desfavorecidos do Nordeste, era tido como pouco afável no trato pessoal.
Leia maisUm ser humano complexo na relação pessoal, com a família, amigos e até no cárcere. Espírito libertário, defendeu um estado totalitário que vigiasse a qualidade do trabalho de jovens escritores. Apoiado pelo governador de Alagoas e impulsionado por ser um nome de fora da política, foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em um pleito de uma candidatura única, consensual.
Ficou dois anos no cargo e depois renunciou. Quando prefeito, soltava os presos para construírem estradas. Foi preso em 1935 em Maceió, após a intentona comunista. Levado para o Rio de Janeiro, ficou detido por onze meses, sendo liberado sem ter sido acusado de nada ou julgado. A dolorosa experiência está relatada no livro Memórias do Cárcere.
“Se todos os sujeitos perseguidos fizessem como eu, não teria havido uma só revolução no mundo. Revolucionário chinfrim. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas no isolamento”, escreveu sobre a prisão.
Com argúcia de historiador e sensibilidade literária, Dênis de Moraes traça a interligação entre as várias personas de Graciliano Ramos, que cresceu traumatizado pelas surras na infância, mas que jovem virou autodidata. Lia Balzac, Zola e Marx em francês. Foi um revolucionário prefeito de Palmeira dos Índios, também zeloso diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública de Alagoas. Foi escritor sufocado por apuros financeiros, um estilista da palavra na redação do Correio da Manhã.
Também foi militante comunista aos esbarrões com a burocracia partidária. Sem cair na armadilha do biografismo, Moraes recompõe a emergência dessa complexa figura, reconstituindo no percurso dialético de seus diversos momentos alguns dilemas fundamentais de nossa formação histórica. Resultado: nos oferece um Graciliano sem retoques. Duro, mas apaixonado; frio e áspero na superfície da fala e do gesto, mas ardente e sempre humano na fonte da vida pessoal.
A paixão pela palavra nele precedeu e acompanhou a opção política que, por sua vez, transcendeu (mas jamais renegou) a adesão partidária. O autor remonta o quebra-cabeça de Graciliano, fragmentos do passado que precisavam ser pacientemente reunidos e dispostos com a máxima coerência possível, a despeito da pluralidade de suas significações.
A necessidade de correlacionar peripécias, valores e sentimentos foi inspirada em uma passagem do Prólogo de “Memórias do cárcere”. O escritor consciente, assinala Graciliano, não deve esquivar-se dos zigue-zagues e tumultos próprios de uma existência.
“Esforcei-me para mirar o objeto sem perder de vista suas interfaces, tratando de averiguar convicções, dúvidas, anseios, vicissitudes e triunfos a fim de estabelecer conexões com a esfera ficcional engendrada por ele. Nas tensões entre o homem, a atmosfera social e a criação literária, recolhi pistas que me levassem às motivações familiares, afetivas, estéticas, ideológicas e políticas presentes em sua intervenção na realidade concreta”, diz o autor.
O livro é uma história de projeções e influências, de paradoxos e contrastes, mas, sobretudo, de coerência na busca incessante do que é essencial à vida. Do início ao fim, a vida de Graciliano Ramos é contada com muita emoção, um texto que prende e encanta.
Graciliano não cuidava da saúde. Fumava feito uma caipora, o que lhe custou a vida, pois acabou vitimado por um câncer nos pulmões. Seu grande amigo foi o escritor José Lins do Rego, que o ajudou a publicar “Angústia”, em 1936.
Outra grande amiga foi Rachel de Queiroz, que admirava sua inteligência extrema, fidelidade e humor ferino/mau humor constante. Ela o via como um “irmão” de convivência diária e um escritor de rigor absoluto com a língua, citando que ele “sabia mais português do que Aurélio”.
A principal obra de Graciliano Ramos é o romance “Vidas Secas” (1938). O clássico retrata a trajetória de uma família de retirantes sertanejos forçada a fugir da seca e da miséria no Nordeste. A obra é considerada uma das maiores expressões da literatura brasileira de denúncia social e regionalismo.
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