Do Poder360
O Brasil vive uma das disputas presidenciais mais disputadas da sua história. No 1º turno, a diferença de votos entre os dois candidatos que passaram para o 2º turno foi a menor já registrada. Flávio Bolsonaro (PL) teve apenas 2,2 milhões de votos a mais que Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma diferença de 1,87 ponto percentual.
Os levantamentos de intenção de voto vinham mostrando o grau de equilíbrio nos últimos cenários de intenção de voto. A maior parte das empresas que fazem pesquisas indicava um cenário de empate técnico entre Lula e Flávio na disputa do 1º turno.
Leia maisEsse cenário é o pesadelo para as empresas que fazem estudos de intenção de voto. Uma variação percentual mínima em determinado sentido é capaz de inverter o resultado e apontar outro vencedor mesmo estando dentro das margens de erro dos levantamentos.
Foi o que aconteceu no 1º turno da eleição presidencial de 2026, em que o cenário de empate técnico indicado pelas pesquisas trazia, em muitos casos, Lula numericamente à frente, mas com uma distância que aceitava o cenário inverso dentro das próprias margens de erro.
O “voto útil”
Alguns fatores concorrem para dificultar a medição da intenção de voto da população mesmo às vésperas da votação nas urnas. E justamente esses fatores podem ser decisivos para determinar o vencedor numa eleição presidencial tão apertada quanto vem sendo esta de 2026 — cujo desfecho se dará no 2º turno no domingo (25).
Um desses fatores já se fez presente e foi o voto útil, muito comum nas retas finais de 1º turno, quando as intenções de voto migram de candidatos que não se mostraram competitivos para os líderes da corrida eleitoral.
Esse fenômeno foi bem captado pelas pesquisas nas últimas semanas antes do pleito, mas sua velocidade e escala final só aparece na apuração dos resultados.
Na pesquisa Poderdata divulgada em 10 de setembro, cerca de 1 mês antes do 1º turno, os candidatos que não foram para o 2º turno somavam 19% das intenções de voto. Duas semanas depois, em 24 de setembro, a soma era de 15%. Na véspera da eleição, era de 10%. Nas urnas, foi de 7,8%.
A maior parte desses votos abasteceu diretamente o crescimento de Flávio Bolsonaro nas últimas pesquisas e seu resultado da urna. O volume de eleitores que poderia ter deixado para fazer esse movimento no 2º turno, mas antecipou sua decisão para a primeira votação, foi um dos diferenciais entre o que apareceu nos levantamentos e o resultado apurado pelo TSE.
Mas fora esse movimento que as pesquisas conseguem captar parcialmente, numa escala muitas vezes diferente da que se materializa nas urnas, há outros mistérios que as intenções de voto têm dificuldade em revelar.
A massa silenciosa
As pesquisas em geral, com suas diferentes metodologias, conseguem medir bem as opiniões da maior parte da sociedade, mas alguns grupos menos politicamente engajados participam menos do debate público, do processo eleitoral e, naturalmente, não costumam responder pesquisas de opinião pública. Na discussão técnica, esse grupo apresenta o chamado “viés de não-resposta” das pesquisas.
Essa massa silenciosa é muito difícil de ser quantificada e tem poder decisivo em eleições muito apertadas com vêm sendo as últimas disputas presidenciais no Brasil. Ao mesmo tempo em que há dois campos políticos com eleitorado bem definido, ativo e com seus votos “cristalizados” nos dois principais candidatos, a decisão do vencedor deve vir desse grupo de difícil acompanhamento que aparece ou de forma fragmentada ou sequer aparece nas pesquisas.
Uma parte desse eleitorado participa do processo eleitoral comparecendo só na hora do voto, muitas vezes decidindo seus candidatos no último minuto.
Pense num cidadão que vai jogar na Mega-Sena, a loteria estatal comandada pela Caixa Econômica Federal. Muitos decidem previamente em quais números pretendem jogar –de forma alegórica, esses jogadores podem ser comparados aos eleitores que têm candidato definido. Mas há também aquele cidadão que de maneira fortuita passa na frente de uma lotérica, entra e só decide os números que vai marcar quando está com o volante do jogo e a caneta na mão. Pode parecer incrível e até triste, mas muitos eleitores também fazem isso numa eleição.
As pesquisas apontam um percentual de indecisos raramente acima de 5%. É razoável assumir que esse grupo esteja subrepresentado e que aqueles que decidem seus votos em cima da hora tenham impacto superior a esse na votação.
A comparação do resultado das urnas com o das últimas pesquisas antes de cada uma das últimas três eleições (2018, 2022 e 1º turno de 2026) mostra um subdimensionamento do candidato de direita em relação à média das principais pesquisas. Foi assim agora em 2026, embora o crescimento Flávio tenha sido detectado. O mesmo fenômeno aconteceu nos Estados Unidos nas duas eleições em que Donald Trump saiu vitorioso, com resultado superior ao que as pesquisas de véspera indicavam.
Isso fundamenta a hipótese de que esse grupo silencioso tenda a votar mais alinhado com Flávio Bolsonaro em 2026 e pode ajudar a explicar a vitória do candidato no 1º turno. Mas é só uma hipótese, que estimula as empresas de pesquisa a quebrarem a cabeça em busca de meios de calibrar melhor suas metodologias.
Peso da abstenção
Outro grupo sistematicamente subrepresentado e quase insondável pelas pesquisas é o da abstenção. Na última pesquisa PoderData, divulgada na 5ª feira (22), só 10% dos entrevistados disseram que não votaram no 1º turno e apenas 1% afirmou que não vai votar no próximo domingo (mais 1% que não sabem ainda e 3% que podem votar, mas não têm certeza).
Ocorre que a taxa de abstenção no 1º turno foi de 21,08%, um percentual que vem crescendo consistentemente nos últimos pleitos. Em suma: muitos eleitores ao serem entrevistados simplesmente não dizem a verdade.
Essa discrepância entre quem faltou no 1º turno e quem diz ter votado é talvez a maior evidência concreta do viés de não-resposta das pesquisas eleitorais. Pessoas que não se envolvem muito no processo eleitoral tendem a não responder pesquisas. Ou simplesmente, mentem sobre o que pensam ao serem abordadas. É por essa razão que pesquisas têm margem de erro – e não margem de acerto.
Mas esse grupo da abstenção tem peso de mudar o resultado da eleição. A campanha do presidente Lula tem feito forte apelo para quem não votou no 1º turno comparecer às urnas no 2º turno, na esperança de fortalecer sua votação.
É uma estratégia difícil de implementar com sucesso. O Poder360 já mostrou que os Estados que deram vantagem a Lula no 1º turno já são os que registram menor taxa de abstenção. É difícil reduzir ainda mais a abstenção no Nordeste (foi de 18,4% no 1º turno, a menor entre todas as regiões do país), sobretudo porque muitos Estados nem têm mais disputas de 2º turno para governador, o que tende a desmobilizar o eleitorado. Já no Sudeste, onde Flávio venceu, a taxa de abstenção foi a mais alta entre todas as demais (de 22,7%) e, se cair, a tendência é ajudar mais o candidato PL do que o do PT.
Um estudo feito pelo banco BTG Pactual mostra que a redução da abstenção em geral pode ajudar o presidente Lula, mas não seria suficiente para a virada no resultado da eleição –exceto se houvesse uma queda nunca antes vista no percentual de pessoas que não vota.
O natural é que as taxas de abstenção costumam aumentar no 2º turno em relação ao 1º. A exceção foi 2022, quando inclusive a queda da abstenção no 2º turno pode ter contribuído para sustentar a vitória apertada de Lula sobre Jair Bolsonaro (PL).
A esperança de Lula em relação à abstenção, na realidade, deveria se concentrar na desmobilização do eleitorado do seu adversário e das pessoas que votaram em outros candidatos, mas rejeitam o petista. É mais fácil torcer pelo aumento da abstenção em Estados em que Flávio Bolsonaro venceu.
Há fatores que podem pesar para esse resultado. Um deles é o número recorde de eleições para governador decididas no 1º turno. Sem o peso de outra decisão local, os eleitores podem ficar menos motivados a irem às urnas votar só para presidente. Também ficam menos energizados pelos cabos eleitorais, que estão livres da obrigação de pedir e conquistar votos de seus afiliados locais.
Mas tudo isso, é claro, contando que a distribuição dos votos daqueles que se abstiveram espelhe em maior medida o próprio resultado das urnas nesses locais.
2º turno
A boa notícia para todos que querem entender com mais precisão os movimentos da reta final antes da votação é que para os levantamentos de 2º turno, as pesquisas são auxiliadas pelo melhor parâmetro possível para calibrar suas amostras e ponderações: os resultados das urnas no 1º turno.
O uso dessa variável pela maior parte das empresas é uma das razões pelas quais os resultados das pesquisas no 2º turno costumam convergir mais do que no 1º.
As estimativas, em geral, também ficam mais precisas porque o mistério do voto dos indecisos já foi resolvido em parte pelo movimento do “voto útil” antecipado no 1º turno.
Ainda resta saber, naturalmente, para que lado vão os votos daqueles que escolheram candidatos que não foram para o 2º turno. Neste ano, o alinhamento ideológico e o resultado das pesquisas até agora indicam uma tendência maior de migração desses votos para Flávio Bolsonaro. Só que um percentual desses eleitores pode simplesmente votar em branco, nulo ou se abster — e esse é mais um fator decisivo no dia 25 de outubro.
Eleição indefinida
Tudo considerado, o resultado da eleição presidencial ainda é uma incógnita pela proximidade dos 2 finalistas nas pesquisas de intenção de voto. Os últimos levantamento indicam empate técnico, com Flávio Bolsonaro numericamente à frente na maior parte dos estudos.
A última PoderData indica 49% de intenções de voto para o candidato do PL contra 48% para Lula, além de 3% de brancos/nulos e 1% de indecisos.
Além da vantagem mínima das pesquisas, o senador carrega uma vantagem concreta de 2,2 milhões no 1º turno e a marca de que nunca houve uma virada nas eleições presidenciais em 2º turno no Brasil.
Há um fato incontornável sobre a mesa: Flávio teve 47,03% dos votos válidos (56.104.503 votos) contra 45,16% (53.879.538 votos) dos obtidos por Lula. O mais provável é que ambos tenham, no mínimo, esse mesmo número de votos no 2º turno. Dito de outra forma, Flávio precisa obter 2,97% + 1 voto (cerca de 3,54 milhões de votos, considerando o total os válidos do 1º turno), pelo menos para vencer. Lula busca 4,84% + 1 dos votos (cerca de 5,77 milhões de votos, considerando o total os válidos do 1º turno).
Mas há milhões de votos quase inescrutáveis ainda em jogo no 2º turno. A vitória ou a derrota podem vir de onde mal se pode ver.
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