Como este blog antecipou em primeira mão, as placas de energia solar instaladas há poucos dias no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, localizado na Zona Norte do Recife, pode ter provocado o desabamento do teto, que resultou em duas pessoas mortas e outras 22 feridas. Por meio de uma nota publicada em suas redes sociais, a empresa lamentou o ocorrido e afirmou que o desabamento aconteceu por conta da “força excessiva dos ventos”.
Confira a nota na íntegra:
Esta empresa manifesta profundo pesar em razão das pessoas feridas e das 2 (duas) que faleceram, diante do infeliz desabamento, ocorrido nesta data, nas instalações da Igreja de Nossa Sra da Conceição, Morro da Conceição, no Município de Recife/PE
Neste momento de dor e consternação, expressamos nossas mais sinceras condolências a todos os familiares e amigos dos entes queridos.
Esta instituição já está atuando firmemente para esclarecer as circunstâncias e razões do acidente e prestando o máximo de apoio. Destacamos que a igreja tinha laudo estrutural autorizativo, bem como, nesta data a meteorologia informa força excessiva dos ventos, fora da normalidade. Diante da eventualidade, colocamo-nos à disposição da Igreja e das famílias enlutadas.
O ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a participação dos ministérios da Saúde e da Justiça e Segurança Pública na audiência pública que vai discutir apostas esportivas, as chamadas bets.
Decisão foi tomada neste domingo (1), após pedido da AGU (Advocacia-Geral da União). O ministro do STF também liberou a presença da Abras (Associação Brasileira de Supermercados) no encontro marcado para terça-feira.
AGU afirmou que a lista inicial estava concentrada em entidades do esporte e representantes de empresas de apostas. O órgão sustentou que esse desenho poderia reduzir a diversidade de opiniões no debate sobre a proibição das bets.
A audiência foi convocada para discutir os efeitos da MP (Medida Provisória) nº 1.394/2026, que proibiu a exploração de apostas de quota fixa no Brasil. “Como é notório, a medida suscitou uma série de ponderações de diversos atores com relação à alegada ausência de segurança jurídica, severos impactos financeiros e efeitos nocivos sobre contratos então em vigor”, escreveu Fux em despacho.
Sessão começa às 10h e deve terminar às 17h30, sob condução de Fux. Ministério da Justiça e Segurança Pública e Ministério da Saúde terão dez minutos cada para se manifestar, às 14h40 e às 14h50, respectivamente.
O que está em jogo na discussão
Debate no STF deve tratar dos impactos econômicos da MP sobre o futebol e outros setores. A audiência também prevê discussão sobre segurança jurídica e contratos que estavam em vigor antes da proibição.
Fux lembrou que os efeitos sociais e sanitários das bets já foram tema de uma audiência pública em novembro de 2024. Na ocasião, entidades apresentaram estudos sobre a ludopatia, transtorno ligado ao vício em jogos de azar, e seus reflexos na saúde mental, nas relações familiares e na situação financeira de apostadores.
Ministro citou ainda um voto apresentado em agosto de 2026, no julgamento sobre a criminalização dos jogos de azar. Naquele processo, ele afirmou que a exploração da atividade lucra com a dificuldade de pessoas avaliarem os riscos das apostas, e o julgamento acabou suspenso após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Críticas à composição inicial da audiência
Antes da ampliação, a audiência reunia principalmente clubes, representantes do setor de apostas e entidades empresariais. Lista de expositores não incluía entidades de saúde pública, defesa do consumidor ou proteção de crianças e adolescentes.
O texto também registrou que 39 organizações da sociedade civil pediram a inclusão de novos participantes. Entre os signatários, estavam entidades como Instituto Alana, Sociedade Brasileira de Pediatria, Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e Sleeping Giants Brasil.
Segundo coluna de Leonardo Sakamoto no UOL, a Abras assinou o pedido e citou efeitos imediatos da proibição no consumo. A associação afirmou que, nas duas semanas seguintes à medida, as vendas dos supermercados subiram 6,5% e 6,3% em relação ao mesmo período de 2025.
Desde que terminou o segundo turno, o presidente reeleito Lula (PT) vem tratando sobre a composição do novo governo e cada partido que o apoiou busca ocupar espaços, além das siglas do Centrão que visam ministérios para garantir governabilidade. O PDT tem duas opções para o Ministério dos Esportes. A atual senadora Leila Barros, que não renovou o mandato no Distrito Federal, e a senadora eleita Marília Arraes.
Pesaria a favor de Leila ter sido jogadora de vôlei e estará sem mandato a partir de fevereiro de 2027. Porém seria mais um nome que saiu derrotado das urnas, assim como outros que estão cotados para o primeiro escalão de Lula.
Marília Arraes, sendo escolhida, chegaria ao Ministério dos Esportes como candidata vitoriosa na disputa pelo Senado. Mas o impasse está na sua permanência no PDT. Ela não aceita a formação da federação entre seu partido e o PSB, que vem sendo articulada pelos presidentes nacionais, Carlos Lupi e João Campos. Marília, que comanda a sigla pedetista em Pernambuco, votou contra essa junção porque o comando ficaria com João.
Apesar de os primos terem feito as pazes e integrado a mesma chapa majoritária na eleição deste ano, Marília sempre é apontada como possível candidata à Prefeitura do Recife, em 2028. O prefeito, contudo, é Victor Marques (PCdoB), que era vice de João Campos e é candidato natural à reeleição.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou aos Estados Unidos a uma semana das eleições de meio de mandato (midterms), que vão renovar toda a Câmara dos Deputados e cerca de um terço do Senado no país. Por conta disso, nas redes sociais, brasileiros têm pedido a candidatos democratas a expulsão do senador dos EUA. A hashtag #DeportTheBolsonaros ficou entre as mais compartilhadas do X no Brasil na última sexta-feira (30).
Mas como as midterms podem afetar a permanência de Flávio, aliado de Trump, no país? Especialistas ouvidos pelo g1 apontam que a deportação ou expulsão do senador não está nas mãos do Congresso. Isso porque as decisões sobre a permanência de estrangeiros nos EUA envolvem órgãos do Executivo, como o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, e o Departamento de Segurança Interna (DHS), ambos submetidos ao governo Trump.
Mas as Casas poderiam abrir uma investigação para apurar um possível envolvimento das autoridades norte-americanas na fuga do senador brasileiro e se houve algum favorecimento na concessão de vistos para ele e sua família.
Além disso, ainda na visão dos especialistas, eventuais investigações e cobranças públicas poderiam ampliar a pressão política sobre o governo Trump e influenciar uma possível decisão das autoridades norte-americanas sobre a permanência de Flávio no país.
Apesar dessa possibilidade, a avaliação é de que a situação de Flávio não deve estar entre as prioridades dos democratas caso conquistem a maioria no Congresso. A tendência, segundo eles, é que a oposição concentre esforços em limitar as ações de Trump, especialmente na política econômica e em questões internas, como o custo de vida da população, além de se preparar para a eleição presidencial de 2028.
Entenda mais abaixo:
O Congresso pode expulsar Flávio Bolsonaro dos EUA?
Desde a chegada de Flávio ao território norte-americano, o membro do partido democrata e comentarista político Isaiah Martin tem afirmado nas redes sociais que, com uma possível maioria democrata no Congresso, o senador seria deportado.
Contudo, como avaliam os especialistas, essa possibilidade é remota. “Não se pode pensar que o Congresso tem o poder de deportar alguém. Isso não está na sua incumbência, não está na sua jurisdição”, explica Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM) e professor de Relações Internacionais da ESPM.
Vitelio Brustolin, professor no departamento de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que a concessão ou a revogação de vistos é uma atribuição do Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio.
O professor explica também que há diferenças entre deportação, revogação de vistos e expulsão. A revogação do visto não implica a saída automática de um estrangeiro dos EUA. Já a deportação envolve um procedimento legal para determinar sua retirada do país. A expulsão pode levar à saída obrigatória, conforme as regras migratórias aplicáveis.
Apesar disso, os democratas poderiam usar uma eventual maioria no Congresso para pressionar o governo de Trump a prestar esclarecimentos sobre a entrada e a permanência do senador brasileiro no país. Uebel avalia que esse tipo de cobrança poderia aumentar o desgaste político do governo Trump e influenciar decisões das autoridades responsáveis pela situação migratória do senador. No entanto, ressalta que o caso brasileiro dificilmente ocupará um lugar central na agenda dos democratas.
Tomaz Paoliello, coordenador do mestrado em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais na Puc-SP, por sua vez, também reconhece a capacidade de pressão política do Congresso, mas considera pouco provável que ela resulte em medidas concretas contra Flávio.
“Um Congresso poderoso, a gente sabe, conhecendo a história dos EUA, consegue fazer pressão sobre as instituições burocráticas”, explica. “Particularmente, no caso do Flávio Bolsonaro, não é uma coisa tão importante — ou pelo menos eles não têm dado muita importância”, afirma.
Investigação sobre atuação do governo Trump
Uma eventual maioria democrata no Congresso poderia abrir investigações para apurar se autoridades do governo Trump ofereceram algum tipo de favorecimento a Flávio Bolsonaro e sua família. As apurações poderiam aumentar a pressão política sobre o Executivo e influenciar uma possível decisão sobre a permanência do senador no país, embora não tenham o poder de determinar sua deportação.
Segundo Brustolin, uma comissão parlamentar poderia investigar se houve tratamento excepcional na concessão de vistos, na autorização de entrada no país ou na manutenção do status migratório do senador. “Para abrir uma investigação parlamentar basta a Câmara dos Deputados. Então não seria necessário conquistar simultaneamente maioria no Senado”, explica.
Uebel avalia que uma das principais medidas poderia ser a convocação do secretário de Estado, Marco Rubio, para prestar esclarecimentos sobre a atuação do governo norte-americano no episódio. Caso fossem identificadas irregularidades ou abusos de poder, as apurações poderiam dar origem a outras medidas contra as autoridades envolvidas, mas não teriam o poder de determinar a revogação do visto ou a saída de Flávio dos EUA.
Brustolin destaca ainda que o acesso dos parlamentares às informações migratórias não seria irrestrito. Documentos sobre vistos e comunicações do governo podem estar sujeitos a regras de confidencialidade e a questionamentos do Executivo.
EUA têm outras prioridades
Apesar da possibilidade de abrir investigações e pressionar o governo, os especialistas avaliam que a situação de Flávio não deve estar entre as prioridades dos democratas caso conquistem a maioria no Congresso.
Para Paoliello, as eleições de meio de mandato estão concentradas principalmente em questões internas do país, como a economia e o custo de vida da população.
O professor avalia que uma eventual maioria democrata deve dificultar a aprovação de novas leis e propostas orçamentárias do governo Trump. Ao mesmo tempo, os democratas devem buscar apresentar medidas voltadas à população, já de olho na disputa presidencial de 2028.
Roberto Uebel, por outro lado, acredita que a principal prioridade dos democratas será abrir um processo de impeachment contra Trump. “A dúvida é se eles querem destituí-lo de fato ou arrastar um longo processo de impeachment para desgastar ao máximo o presidente Trump e os republicanos, olhando já para as eleições presidenciais de 2028”, afirma.
Paoliello discorda dessa avaliação. Segundo ele, as tentativas de destituir o presidente Trump que já ocorreram não deram um resultado político favorável aos democratas já que o republicano voltou ao poder.
Trump já enfrentou dois processos de impeachment durante seu primeiro mandato. O primeiro, em 2019, envolveu acusações de abuso de poder e obstrução do Congresso após pressionar a Ucrânia a investigar Joe Biden. O segundo, em 2021, ocorreu após a invasão do Capitólio por seus apoiadores. Em ambos os casos, a Câmara aprovou o impeachment, mas o Senado absolveu o republicano.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) realizou um ato neste sábado (1), na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, para celebrar a reeleição do presidente Lula (PT). A comemoração também ganhou tom de resposta à carta golpista divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado que fugiu para os Estados Unidos após as eleições.
Com o tema “Brasil com S: das ruas às urnas”, o evento reuniu apoiadores com cartazes, faixas, bandeiras e camisetas do PT e de Lula. Ambulantes vendem camisetas, bonés e bandeiras no local. O tema faz alusão à carta divulgada por Flávio, que trazia um brasão da República com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação oficial do país no início do período republicano.
A comemoração foi planejada ainda no domingo passado, logo após o resultado das eleições. Segundo a presidente da UNE, Bianca Borges, as mobilizações nas ruas foram fundamentais para a reeleição de Lula. Por isso, a entidade decidiu que a vitória também deveria ser celebrada com a ocupação dos espaços públicos.
A festa também ganhou tom de resposta à carta golpista de Flávio Bolsonaro. Segundo Bianca, a mobilização passou a ter esse caráter após o senador questionar, sem provas, o resultado da votação e chegar a se autodeclarar “verdadeiro presidente eleito”. O resultado das urnas foi reconhecido pelo TSE, por observadores internacionais, pelo PL, partido do senador, assim como por aliados e partidos que o apoiaram nas eleições.
O deputado estadual reeleito Eduardo Suplicy (PT) discursou durante a celebração. Ele elogiou a participação de jovens estudantes nas mobilizações de rua pela reeleição de Lula.
Representantes do povo indígena Guarani do Jaraguá também discursaram no palco. Eles denunciaram a violência contra os povos indígenas no Brasil e citaram episódios recentes registrados em Mato Grosso do Sul, que são investigados pela Polícia Federal.
Manifestantes também pediram a deportação de Flávio Bolsonaro. Uma participante carregava um cartaz pedindo que Flávio, o irmão Eduardo Bolsonaro e outras pessoas fossem deportadas dos Estados Unidos para o Brasil. Outros participantes exibiam mensagens em defesa dos direitos indígenas e contra o voto distrital misto.
Outras 17 cidades brasileiras também recebem eventos hoje. Todos são organizados pela UNE.
Mobilização nas eleições
A UNE participou de pelo menos 200 manifestações entre o primeiro e o segundo turnos. O número é de um levantamento preliminar da própria entidade divulgado pelo UOL. Os atos ocorreram ao longo de três semanas, em apoio à reeleição de Lula.
As mobilizações reuniram estudantes em diferentes estados. Houve atos em universidades e passeatas pelas ruas. No Rio de Janeiro, milhares de estudantes participaram de uma manifestação organizada pela UNE no centro da cidade, em 7 de outubro. Também houve mobilizações em São Paulo.
O cantor e compositor pernambucano Geraldo Maia se apresenta no próximo sábado (7), às 20h, no Poço das Artes, no Poço da Panela, no Recife. No show, o cantor será acompanhado pelo pianista Marquinhos Diniz.
O repertório passeia pelo samba e pela MPB, reunindo clássicos de grandes compositores brasileiros, como Cartola, Chico Buarque, Caetano Veloso e Zé Keti. Entre algumas das canções previstas estão “Paratodos”, “Samba do Grande Amor”, “Cordas de Aço”, “Tanto Mar”, “Diamante Verdadeiro”, “Opinião”, “Corra e Olhe o Céu” e “O Mundo é um Moinho”.
Os ingressos custam R$ 40 (preço único). As reservas podem ser feitas pelo WhatsApp: (81) 99817-1464.
Dos 513 deputados federais eleitos para a próxima legislatura, 308 tiveram ao menos 50% de seus votos em 10 cidades. Essa estatística mostra que o Brasil já tem uma espécie de voto distrital informal — quando o político é eleito numa circunscrição geográfica delimitada dentro de cada unidade da Federação.
A concentração é ainda mais elevada quando se observam recortes dessa estatística: 33 desses 308 deputados receberam mais de 90% dos votos nos 10 municípios em que foram mais votados. Para outros 102, esse percentual ficou no intervalo de 70% a 89,9%.
O resultado da eleição de 2026 repete padrão de pleitos anteriores. O Brasil já elege mais da metade dos representantes da Câmara num sistema informal de voto distrital. O dado é de levantamento do Poder360 com dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
Esses dados são particularmente relevantes no momento porque foi lançado um movimento de partidos médios e pequenos para apoiar uma emenda à Constituição que crie oficialmente um sistema de voto distrital e proporcional misto no país. Trata-se de uma reação dessas agremiações ao avanço de duas legendas que tendem a dominar a Câmara, o PL (direita) e o PT (esquerda), que agora em 2026 elegeram 121 e 70 deputados, respectivamente.
A ideia é que metade das 513 vagas da Câmara (seria necessário aumentar ou cortar uma vaga para fazer essa divisão de forma exata) seria eleita em distritos. A outra metade seria escolhida a partir dos votos dos eleitores nos partidos, que teriam listas pré-ordenadas de candidatos (quanto mais votos uma sigla receber, mais candidatos da lista serão escolhidos para ocupar cadeiras na Câmara). Quem definirá a ordem dos nomes nessa lista será o partido, em convenção, mas os caciques de cada sigla terão grande influência nesse processo.
Esse sistema não tem ganho em relação ao que já existe. Trata-se apenas de uma manobra de partidos médios e pequenos para impedir o avanço do PL e do PT.
Tome-se como exemplo o Estado de São Paulo. Hoje, os 34,1 milhões de eleitores de todas as 645 cidades paulistas podem votar em qualquer candidato a deputado federal de qualquer partido. A eleição é proporcional. Os votos dados para os candidatos e só para os partidos (o voto na legenda) se somam e quem tem mais votos fica com mais cadeiras na Câmara — São Paulo tem 70 vagas. Foi nesse sistema que PL e PT cresceram. O PL elegeu 19 dos 70 deputados federais paulistas. O PT, 11 deputados.
É por causa da prevalência de PL e PT que os partidos médios e pequenos agora querem mudar a regra para tentar impedir o avanço dessas duas grandes siglas. O argumento público — que esconde a real intenção das siglas médias e pequenas — é que com o voto distrital o deputado ficará mais próximo do eleitor e será mais cobrado durante o mandato. Ocorre que essa proximidade já existe, como mostram as estatísticas oficiais descritas nesta reportagem — há 308 dos 513 deputados que já têm grande proximidade com distritos dentro de seus Estados. No modelo que está sendo proposto, só metade seria eleita em distritos. Haveria, portanto, um distanciamento entre deputados e eleitores quando se compara ao que existe hoje.
Há um outro problema adicional ao modelo de voto distrital e proporcional misto que está sendo defendido hoje no Congresso: seria um modelo exclusivo do Brasil e jamais visto em outro país no planeta Terra.
É que nenhum país que adota o sistema distrital deixa de seguir também algo que é inerente a esse modelo de escolha de deputados: a premissa da equivalência entre um homem e um voto: todos os distritos precisam ter aproximadamente o mesmo número de eleitores. Dessa forma, cada deputado federal chegará à Câmara representando parcelas iguais do eleitorado.
No Brasil, entretanto, a Câmara tem uma disfuncionalidade antiga e o número de deputados não corresponde à proporção dos eleitores de cada unidade da Federação, como mostra o quadro a seguir:
A proposta defendida por partidos médios e pequenos não quer mexer nessa desproporcionalidade de representação dos Estados na Câmara. Dessa forma, Roraima, que tem 8 vagas, vai eleger 4 deputados em 4 distritos e outros 4 por meio das listas partidárias. Os 4 distritos de Roraima terão, aproximadamente, 100 mil eleitores cada 1.
Já em São Paulo, que tem 70 vagas de deputados e uma população muito maior, os 35 distritos terão 975 mil eleitores cada 1. Em suma, o deputado federal eleito por São Paulo vai representar 9 vezes mais eleitores do que o colega que for eleito por Roraima.
A desproporcionalidade entre votos para eleger deputados nas 27 unidades da Federação já existe e não será sanada com a proposta de emenda à Constituição para implantar o sistema de voto distrital e proporcional misto. Além disso, como mostram as estatísticas desta reportagem, a pretensa maior proximidade do deputado com os eleitores de uma circunscrição tampouco vai melhorar — na prática, vai piorar: hoje mais deputados já são eleitos num sistema informal distritalizado.
Variações regionais
O fenômeno do voto distrital informal varia dependendo do Estado. No Rio de Janeiro, todos os 46 deputados eleitos receberam mais da metade dos votos em até 10 municípios. Em São Paulo, foram 47 dos 70 congressistas. Já em Minas Gerais, 19 dos 53 eleitos tiveram esse mesmo nível de concentração.
Distritos informais
Embora o país não adote o voto distrital para eleger deputados federais, parte da representação política já funciona, na prática, com uma lógica de distritos informais. Pelo sistema proporcional em vigor, os deputados são eleitos com votos de todo o Estado, e as cadeiras são distribuídas conforme o desempenho dos partidos e das federações. Não há uma divisão oficial do território estadual em distritos, como em países que adotam o voto distrital.
Na prática, porém, muitos congressistas constroem – por necessidade – suas bases eleitorais em determinadas cidades ou regiões. São localidades nas quais se concentram campanhas, estabelecem-se alianças políticas e vínculos com as comunidades locais e acumulam apoio suficiente para assegurar parte majoritária dos votos necessários à eleição.
Esse padrão pode ter consequências para o exercício do mandato. Um deputado eleito para representar todo um Estado pode encontrar incentivos políticos para concentrar sua atuação nos poucos municípios dos quais depende eleitoralmente. A lógica pode influenciar, por exemplo, a articulação com prefeitos, a destinação de emendas parlamentares e a defesa de investimentos públicos.
A questão é relevante porque os recursos e as decisões de um deputado têm alcance mais amplo do que suas bases eleitorais. A concentração dos votos levanta, portanto, uma discussão sobre até que ponto os interesses dos redutos políticos podem se sobrepor às demandas de outras regiões do mesmo Estado.
A ideia de distritos informais não é nova. Estudos publicados na revista E-Legis, da Câmara dos Deputados, já analisaram a relação entre a distribuição territorial dos votos e a atuação dos congressistas, inclusive na apresentação e execução de emendas parlamentares.
Número de deputados
Um outro aspecto da representação na Câmara dos Deputados tem sido sempre negligenciado pelos políticos: o número ideal de congressistas para a Casa Baixa. Exceto por um breve período durante a ditadura militar, o número de deputados só cresce no Brasil:
Nos Estados Unidos, a democracia representativa mais antiga do mundo, há uma população de 349,7 milhões e 435 vagas na Casa dos Representantes em Washington, o equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil. A população brasileira hoje é de 214,2 milhões, mas aqui há 513 deputados federais — 78 a mais do que nos EUA. Quanto mais deputados, como se sabe, mais complexa fica a governança interna de uma casa legislativa.
A proposta de emenda à Constituição para criar um sistema de voto distrital e proporcional misto no Brasil nem toca nesse assunto. O que se supõe é que nos Estados em que o número de vagas de deputados federais seja ímpar haverá a necessidade de aumentar uma vaga.
Há sete estados com número ímpar de cadeiras na Câmara: Alagoas (9 deputados), Bahia (39), Goiás (17), Minas Gerais (53), Pará (17), Pernambuco (25) e Rio Grande do Sul (31). Com o número de cadeiras pelo sistema distrital e proporcional terá de ser igual pelo que está sendo proposto, certamente essas sete unidades da Federação receberão mais uma vaga cada uma. Em resumo, os 513 deputados federais passarão a ser 520 caso prospere a ideia em debate no Congresso.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ontem (31) que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pode permanecer no país pelo tempo que desejar. Apesar da manifestação de apoio ao candidato derrotado na eleição presidencial brasileira, Trump disse não ter planos de encontrá-lo. Flávio está em Miami desde quarta-feira (28), depois de deixar o Brasil contrariando uma ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Em conversa com jornalistas em Mar-a-Lago, na Flórida, Trump afirmou que não pretende receber o senador. “Não tenho planos de encontrá-lo, mas acho que ele foi muito maltratado. Muito maltratado. Então, ele pode ficar aqui pelo tempo que quiser”, declarou. As informações são do Congresso em Foco.
Questionado se havia conversado com Flávio, o republicano não respondeu diretamente. Repetiu que o senador poderia permanecer nos Estados Unidos e voltou a criticar o resultado eleitoral brasileiro. “Na minha opinião, a eleição foi uma vergonha”, afirmou.
Trump não apresentou provas de irregularidades na votação. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a reeleição de Lula (PT), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. O PL, partido do senador, reconheceu o resultado das urnas.
Trump autorizou entrada de Flávio
As declarações ocorreram no mesmo dia em que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou participação direta do governo dos Estados Unidos na organização da saída de Flávio do Brasil. “Não facilitamos nada”, afirmou Rubio. O secretário confirmou, porém, que Trump autorizou a entrada do senador e de sua família em território americano.
Segundo Rubio, Flávio já possuía visto e recebeu uma autorização migratória temporária, conhecida como parole. O mecanismo permite o ingresso no país por decisão das autoridades americanas, mas não equivale à concessão de asilo ou residência permanente. Assim, a declaração de Trump de que o senador pode ficar pelo tempo que quiser não significa, por si só, autorização legal para permanência indefinida.
A negativa de Rubio contrasta com reportagens dos jornais The Wall Street Journal e The New York Times, segundo as quais Jason Miller, assessor de comunicação da Casa Branca, ajudou a providenciar o avião particular utilizado por Flávio. Não está esclarecido se Miller agiu por iniciativa própria ou em nome do governo americano.
Entidades de defesa do consumidor pressionam Luiz Fux para participarem do julgamento no STF sobre a MP que proibiu as bets no Brasil.
Institutos e associações ingressaram com pedidos para serem aceitos como amicus curiae (terceiros que subsidiam o juiz com informações e dados técnicos) e estarem entre os presentes da audiência pública marcada para a próxima terça-feira (3). As informações são do blog do Lauro Jardim, do jornal O Globo.
O encontro vai reunir clubes de futebol — entre eles Flamengo, Fluminense, Corinthians, Botafogo, São Paulo e Cruzeiro —, órgãos públicos e entidades esportivas, como CBF e COB, e do setor de apostas.
A audiência não teve abertura para inscrição e nenhuma entidade de defesa do consumidor e de defesa da saúde foi convidada. O argumento principal dos interessados é que no centro do debate está o apostador, ou seja, aquele que consome e é o mais vulnerável.
As entidades citam que podem contribuir com informações relacionadas a superendividamento e regime do Código de Defesa do Consumidor, além de debater a posição do consumidor na transição, poder econômico e publicidade massiva e marketing de influência, afiliados e publicidade algorítmica.
Entre os requerentes, estão Instituto de Defesa dos Consumidores, Brasilcon, Associação Nacional do Ministério Público do Consumidor, Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor e Conselho Nacional de Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege).
Uma multidão se reuniu na noite de ontem (31) para prestar as últimas homenagens a João Caio, filho do ex-prefeito de Triunfo, João Batista Rodrigues e de Tarciane Pereira Melo, que já esteve à frente da Secretaria Municipal de Saúde.
O momento foi marcado por muita comoção, tristeza e manifestações de carinho e solidariedade aos familiares. Amigos, parentes e populares estiveram presentes para acompanhar a despedida e prestar suas últimas homenagens ao jovem. Com informações e imagens da Rádio Triunfo FM 87.9.
A morte de João Caio, ocorrida na madrugada do último sábado, causou grande repercussão e deixou familiares e amigos consternados. Ele morreu após a motocicleta que conduzia colidir com um carro na PE-365, na Vila Jatiúca, zona rural de Santa Cruz da Baixa Verde, no Sertão de Pernambuco. Segundo relatos de populares repassados à Polícia Militar, o motorista de um Volkswagen Polo teria fugido do local sem prestar assistência à vítima. O caso está sendo investigado pela polícia.
Neste momento de dor, Triunfo se une em solidariedade à família, desejando força e conforto a todos que sofrem com essa perda.
O deputado estadual eleito Vinicius Castello (PCdoB) afirmou, na última sexta-feira (30), em entrevista à Rádio Folha 96,7 FM, que está disposto a concorrer à prefeitura de Olinda na eleição de 2028, mas compreende que depende da adesão do povo e das forças políticas para lançar a candidatura.
“Sempre vou estar disposto quando envolve Olinda, mas esta é uma vontade individual que precisa entender como vai se dar o comportamento do governo da atual prefeita e também precisa da participação coletiva do povo e de figuras importantes para a cidade, como a senadora Teresa Leitão (PT) e a ministra Luciana Santos”, explicou.
O deputado ressaltou que Olinda seguirá como uma prioridade e que pretende consolidar parcerias necessárias para uma possível segunda candidatura à prefeitura por meio do diálogo.
“Olinda possui limitações orçamentária […] e o que me move é a tentativa de organizar essa cidade tão potente. Por isso, preciso ter a responsabilidade de entender o orçamento e o que pode ser feito com articulação”, defendeu.
Esquerda
Vinicius Castello saiu em defesa do diálogo geracional como medida para fortalecer o campo da esquerda no Brasil. Segundo ele, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi possível porque a campanha do petista entendeu que a mobilização da população mais jovem nas ruas e dos políticos eleitos para os primeiros mandatos nas redes seriam o diferencial.
“A política precisa aproximar as pessoas. É preciso escutar as perspectivas de quem está chegando no jogo político; e quem tem um novo olhar precisa andar com quem abriu os caminhos”, defendeu.
Por fim, o deputado se mostrou otimista com o futuro da esquerda no Brasil. De acordo com Vinicius, o resultado da eleição garantiu a retomada da autoestima da força popular e progressista.
Confesso que não tenho muita simpatia para mobilizações como as do “Exército do Lula”, embora admita que foi fundamental para a virada nas eleições presidenciais. Mas sempre me incomodou a linguagem militarizada utilizada pelo deputado Janones para arregimentar os apoios. Achei até engraçado quando Lula disse que se alistara no exército com o codinome de “Marechal Silva”.
O caso oferece uma oportunidade para refletir sobre os limites entre a legítima mobilização política e a transformação de cidadãos em instrumentos de uma estratégia de poder. Principalmente agora que, passada a eleição, o tetra-presidente anuncia que vai usar o seu “Exército” para se aproximar dos cidadãos.
A questão começa quando a capacidade de mobilização passa a ser empregada para estimular a hostilidade, dispensar a reflexão e fazer com que milhares de pessoas reproduzam, de maneira coordenada, mensagens cuja veracidade ou cujas consequências sequer examinaram. O medo, a esperança, a indignação e o sentimento de pertencimento são componentes antigos da comunicação entre líderes e liderados. A contribuição do sociólogo espanhol Manuel Castells para compreender esse fenômeno é fundamental. Em A “Network Theory of Power”, Castells aprofunda essa análise ao examinar como o poder se exerce por meio das redes e como seus organizadores podem influenciar os valores, as ideias e as percepções dos indivíduos.
O risco surge quando a participação deixa de ser uma oportunidade de reflexão e se converte em obediência coletiva. Um grupo organizado pode receber instruções para divulgar determinada mensagem, pressionar adversários, impulsionar palavras de ordem ou ocupar simultaneamente diferentes espaços digitais. O problema aparece quando a coordenação é acompanhada pela disseminação consciente de informações falsas, pela intimidação de adversários ou pela tentativa de desqualificar qualquer fonte de informação que contrarie o líder. Nesse ambiente, o cidadão corre o risco de deixar de atuar como sujeito da política para funcionar como extensão de uma máquina de comunicação.
Compartilha antes de verificar, reage antes de compreender e considera uma informação verdadeira porque ela confirma suas convicções ou porque foi repetida por pessoas em quem confia. Uma mensagem que aparece inúmeras vezes em diferentes grupos parece adquirir credibilidade pela própria frequência com que circula. A quantidade de compartilhamentos passa a ser confundida com a qualidade da informação, e a popularidade de uma afirmação substitui a verificação de sua veracidade. O que deve ser examinado é o conteúdo das mensagens, a natureza das instruções transmitidas, o respeito aos fatos, a relação com os adversários e a disposição para aceitar as regras comuns da disputa democrática.
A pergunta fundamental não é quantas pessoas um político consegue mobilizar, mas para quê e de que maneira as mobiliza. A força de uma organização digital pode servir à participação cidadã ou à formação de uma militância impermeável a argumentos contrários. Pode ampliar o debate público ou transformá-lo numa sucessão de ataques. Pode aproximar pessoas de uma causa ou convencê-las de que qualquer adversário é um inimigo a ser destruído.
No caso do “Exército do Lula”, as ordens eram peremptórias — Pessoal, urgente!” — uma das chamadas que Janones usou para mobilizar os participantes de seu canal no WhatsApp, o Exército do Lula. “Ninguém tá cumprindo missão, ninguém tá curtindo link.” — reclamação feita em áudio, ao cobrar dos seguidores o cumprimento das tarefas de divulgação. “Parece que eu tô lidando com criança.” — frase usada na mesma bronca, ao reclamar da queda no ritmo das atividades do grupo. “Não posso sair um minuto que vira bagunça.” — outra passagem do áudio, reveladora da cobrança de disciplina e da centralização do comando. A democracia exige que as paixões não eliminem a capacidade de julgar.
Após prometer colocar a regulação das big techs no centro de seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva correrá contra o tempo para tentar aprovar este ano projetos que avancem no regramento das plataformas no país.
A estratégia é buscar, ainda nesta legislatura, avanços em novas regras com projetos que já existem, antes da mudança na composição do Congresso, com maior participação de parlamentares alinhados à direita, que, para o Executivo, tendem a ser mais refratários às propostas. O objetivo esbarra, porém, em uma agenda legislativa lotada de pautas até dezembro e na própria atuação das empresas, que se movimentaram por exemplo contra o projeto de lei (PL) das fake news, em 2023.
O governo vê uma janela de oportunidade para votar até dezembro o Marco Legal da Inteligência Artificial (IA), que cria novo regime de obrigações para as gigantes de tecnologia. O projeto traz exigências de transparência, responsabilização por danos e limites para o uso de conteúdos protegidos por direitos autorais.
Em outra frente, o Ministério da Fazenda quer aprovar este ano projeto que fortalece a regulação concorrencial de big techs. A proposta cria obrigações prévias para empresas consideradas de relevância sistêmica em mercados digitais, ou seja, gigantes que têm o poder de criar monopólios e sujeitar às suas regras não só consumidores, mas também setores econômicos.
Aplicativos da Meta: Facebook, Instagram e Whatsapp — Foto: Roy Liu / Bloomberg
“A garantia de soberania digital depende de leis claras que fortaleçam as condições para o desenvolvimento de IA no país e enfrentem a extração de valor promovida pelas grandes plataformas em relação ao que produzimos aqui”, disse o secretário de Políticas Digitais da Secretaria de Comunicação, João Brant.
Nenhum dos dois textos trata de regulação de conteúdo, e o governo não tem intenção de mexer nessa seara para desmobilizar o argumento de opositores, que costumam apontar risco de censura a qualquer iniciativa de regulamentação das plataformas.
O Palácio do Planalto espera contar com o capital político após a virada histórica de Lula para acelerar os projetos. Na conta do Executivo, a própria repercussão negativa entre usuários da conduta da Meta nas eleições deve ajudar.
Atuação concentrada
A dona de Facebook, Instagram e WhatsApp reconheceu falhas técnicas e lacunas em sistemas que afetaram temporariamente as contas e a distribuição de conteúdos da campanha petista. No Instagram, o perfil oficial de Lula ficou horas sem o botão de repostar e houve problemas nos stories do presidente. A Meta nega interferência para beneficiar Flávio Bolsonaro (PL).
No discurso da vitória no domingo passado, Lula citou a “intromissão” das big techs, o “crime digital” e disse que empresas “monstruosas” não pagam impostos: “Tivemos que vencer a intromissão de fora para dentro, através de plataformas digitais que nós vamos ter que regular.”
O projeto de lei da regulamentação de IA já foi aprovado no Senado e falta ser apreciado pela Câmara, onde a relatoria é de Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). O Planalto deve se aproximar do parlamentar nos próximos dias para incentivar que o texto ande na Casa. Um dos tópicos da proposta é a aplicação de multas de até R$ 50 milhões, além de suspensão temporária ou definitiva de sistemas e proibição de utilização de determinadas bases de dados.
Também está na Câmara o projeto de regulação antitruste das plataformas digitais. O projeto está pronto para ser votado no plenário da Casa, e as mudanças realizadas pelo relator, o deputado Aliel Machado (PV-PR), foram consideradas positivas pela Fazenda e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável pela regulação concorrencial. De acordo com Machado, a proposta será discutida na reunião de líderes nesta semana. Nos bastidores, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem dito que a sinalização sobre a votação deve ocorrer a partir da reunião desse encontro.
“As regras concorrenciais valem para outros setores e têm que valer para esse também. O que estamos buscando é uma legislação que permita ao Cade agir com mais eficiência”, disse Machado.
Na avaliação do governo, o Cade atua hoje quando identifica práticas anticoncorrenciais, mas o modelo tem sido insuficiente para lidar com big techs pela organização em plataformas e pela velocidade com que conseguem controlar os setores em que atuam.
O nível de concentração ficou claro na eleição, segundo interlocutores do governo. Uma única empresa fornece IA, vende publicidade, administra redes sociais e é dona do principal aplicativo de mensagens do país, ou seja, concentra poder em vários segmentos da vida digital.
No caso de marketplaces, que reúnem um grande contingente de clientes, elas conseguem cobrar mais vantagens dos vendedores que, sem eles, ficam sem acesso à demanda. Isso muitas vezes leva a comportamentos abusivos, como obrigatoriedade de usar outros serviços da empresa ou cobrança de taxas elevadas.
A ideia é fazer uma regulação prévia para essas plataformas, considerando os setores nos quais atuam, como redes sociais, sistemas de celulares, marketplaces, entre outros. No caso de sistemas operacionais, um exemplo de exigência prévia é proibir que a empresa só habilite um aplicativo de carteira digital.
Para definir as empresas sujeitas à regulação mais dura haverá dois critérios, segundo o projeto, que serão avaliados em processo administrativo pelo Cade, com direito a contraditório, audiência pública e tomada de subsídios. O primeiro é uma linha de corte financeira: só poderão ser designadas as plataformas com faturamento anual superior a R$ 5 bilhões no Brasil e R$ 50 bilhões em termos globais.
Se a empresa ficar nessa faixa, depois serão analisados parâmetros qualitativos, como se ela tem posição estratégica da qual resulte a dependência de terceiros para desenvolvimento de atividades empresariais ou para acesso de usuários. Ou ainda o acesso, controle ou combinação de quantidade significativa de dados pessoais ou comerciais relevantes.
Mais transparência
Segundo interlocutores, o deputado incorporou demandas do setor privado, limitando o escopo do projeto e aumentando garantias processuais, inclusive com mecanismos de transparência. O relator incluiu, por exemplo, que o faturamento será atualizado pelo IPCA e que a designação como plataforma sistemicamente relevante não implica determinação automática de obrigações, que seguirão rito próprio. Ele reduziu o prazo de designação de dez para seis anos.
Filippo Lancieri, professor associado na Universidade Georgetown (EUA) — onde pesquisa sobre política antitruste e desenho regulatório —, afirma que o projeto é baseado na necessidade de adaptar os instrumentos de defesa da concorrência para a realidade dos mercados digitais.
“O projeto visa fechar diversas lacunas no regime concorrencial brasileiro que são exploradas pelas big techs para impedir a concorrência efetiva em mercados muito importantes. O resultado são maiores preços, margens de lucro astronômicas, menor qualidade e menor inovação, prejudicando os consumidores e empresas nacionais”, disse.
Enquanto os textos não são aprovados, o governo vem trabalhando em implementar os instrumentos gerados pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que define as regras sobre a responsabilidade civil das plataformas digitais por danos causados por conteúdos publicados por terceiros.
O Executivo chegou a preparar projeto de lei sobre o tema. Quando a proposta seria enviada ao Congresso, porém, avançou a tramitação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente e a avaliação passou a considerar que a decisão do STF, combinada à atualização da regulamentação do Marco Civil, contemplava parte dos objetivos do texto.
Essas atualizações determinam que plataformas devem remover conteúdos de crimes graves expressamente listados (como terrorismo, exploração sexual infantil, incentivo à automutilação e tráfico de pessoas), após notificação extrajudicial, sem necessidade prévia de ordem judicial. E obriga as redes sociais e provedores a manterem canais de denúncia acessíveis, gratuitos, destacados e permanente.