Nélson Rodrigues consolidou a ideia de que o futebol transcendia o esporte e unificava o país de forma visceral. Ele afirmava que, durante o mundial, o Brasil inteiro encarnava nos jogadores e a nação tornava-se uma “Pátria de Chuteiras”. Hoje é uma pátria parcialmente unida. Embora haja convergência de torcidas diferenciadas a favor do time brasileiro, a questão ideológica cresceu de importância a ponto de interferir até na convocação do escrete para esta copa em três países da América do Norte.
O caso exemplar foi o veto sugerido à convocação do atacante Neymar por um determinado campo político, que radicalizou a divisão nacional por ele ter se posicionado em 2022 a favor do então candidato presidencial Jair Bolsonaro. No entanto, as pressões de setores políticos e da imprensa amestrada deram em nada e o craque foi chamado pelo técnico Ancelotti para compor o time.
E não foi a primeira vez que a ideologia mexeu com a seleção de futebol. Em 1970, quando o Brasil se sagrou Tricampeão Mundial, o país vivia o momento mais duro do regime militar com o então presidente Médici. Contraditoriamente, o chefe do governo autorizou a contratação do comunista de carteirinha João Saldanha para comandar nosso time na Copa do México.
Durante a preparação dos jogadores, divergências políticas do treinador com os cartolas levaram à saída de Saldanha, principalmente quando ele recusou convocar o atacante Dario, preferido do presidente. Destemido, o treinador respondeu a Médici: “o senhor seleciona seus ministros e eu convoco o meu time”.
Na prisão, no mesmo período, os envolvidos na luta armada contra o regime militar, inclusive um dos filhos de Nélson Rodrigues, fizeram uma reunião plenária para saber se torceriam ou não pela seleção na Copa do México. Ganhou a rejeição ao time nacional, mas ela só durou até o início dos jogos e o desempenho positivo do time. Os condenados pela Lei de Segurança Nacional comemoram como todo brasileiro a conquista da taça Jules Rimet.
Nelson Rodrigues (1912-1980) revolucionou a forma como se escrevia sobre futebol. Passou a usar elementos da literatura e dramaturgia para dar vida às suas crônicas sobre o futebol, tido por ele como “o maior drama e paixão nacional”. Ele acompanhou presencialmente apenas a Copa de 1950, no Brasil. As demais coberturas (1958, 1962, 1966 e 1970) foram feitas à distância a partir do Rio de Janeiro.
Em 1950, o dramaturgo e jornalista cunhou frases históricas sobre o nosso “complexo de “vira-latas” e o “narciso às avessas” para descrever a tendência do brasileiro da época. A cura do complexo veio em 1958. Nélson foi o primeiro a coroar Pelé como “Rei”, escrevendo sobre o garoto de 17 anos com um deslumbramento apaixonado, profetizando que ele não tremeria diante de nenhum adversário.
A Copa do Mundo de 1962, no Chile, ganha pelo Brasil, foi a Consagração dos Heróis. Com o bicampeonato, Nélson consolidou de vez o heroísmo dos jogadores. Ele tratava craques como Garrincha e Didi não apenas como atletas, mas como deuses intocáveis de uma epopeia. Já a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, foi um fracasso. A eliminação precoce do Brasil foi vista com a dramaticidade que lhe era peculiar. Ele criticou o excesso de “humildade” pregado por parte da imprensa e defendeu a soberba e a autoconfiança do verdadeiro futebol brasileiro.
Em 1970, na visão de Nelson, a conquista do tricampeonato no México representou a apoteose do futebol-arte brasileiro. Ele descreveu os jogadores comandados por Zagallo como seres mitológicos que traziam alegria e grandeza ao Brasil. Os heróis da bola descansaram 24 anos para chegar ao tetracampeonato, que Nélson não viu. E muito menos o penta na Ásia.
Nesta Copa do Mundo nos Estados Unidos, Canadá e México, o jejum da seleção brasileira de futebol completa 24 anos depois do penta, um período semelhante à abstinência entre o tri e o tetra. O time tem jogadores de grande qualidade, alguns excepcionais como Neymar e outros promissores com grande talento, como Endrick. No comando, um técnico conceituado e experiente para entrosar a equipe dentro e fora do campo, assegurando a garra inabalável para vencer o torneio com o apoio da formidável torcida nacional.
Por isso, Nelson Rodrigues escreveu, com razão, numa das suas crônicas antigas em O Globo, que “no futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. Tudo conta. É isso.
*Jornalista
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