Por Osvaldo Matos*
Não precisa entender muito de economia e sociologia política para fazer uma previsão razoável do que poderá acontecer com o Brasil em cada um desses dois cenários.
Vou tentar resumir o que penso, com base na minha experiência profissional, na observação do mercado e no comportamento dos governos. Quem tiver dúvidas pode pesquisar, consultar os indicadores econômicos e tirar suas próprias conclusões.
Leia maisSe Flávio ganhar, acredito que a Bolsa de Valores terá uma reação muito positiva, com a entrada de investidores estrangeiros e a recuperação da confiança no Brasil. O dólar poderá cair, o risco do país diminuir e muitos empresários voltarão a enxergar boas oportunidades de investimento.
Com mais investimentos, juros menores e redução de impostos, novas empresas poderão ser abertas e as existentes terão condições de ampliar suas unidades produtivas. Isso significa empregos, renda, aumento da produção e mais dinheiro circulando na economia.
É assim que uma economia começa a recuperar sua capacidade de crescimento. Não adianta estimular o consumo se não houver produção suficiente para atender à demanda.
Se Lula ganhar, acredito que acontecerá o contrário. A Bolsa poderá cair, o dólar subir e muitos investidores poderão procurar outros mercados. As agências de classificação de risco observarão com ainda mais atenção as contas públicas, e grandes empresas poderão suspender investimentos ou direcioná-los para outros países.
O resultado poderá ser mais desemprego, inflação, preços elevados e perda do poder de compra. Dependendo da condução econômica, não descarto um período de recessão.
E existe uma questão que considero ainda mais grave.
Se Lula ganhar e continuar aumentando as despesas públicas, de onde sairá o dinheiro para obras, investimentos, saúde, educação, segurança, aposentadorias e salários dos servidores?
O governo já tem enormes dificuldades para equilibrar suas contas. A dívida pública cresce, os juros consomem recursos que poderiam ser destinados a investimentos e a população continua pagando impostos elevados sem receber serviços públicos na mesma proporção.
Se a atividade econômica diminuir, a arrecadação ficará comprometida. A inadimplência poderá aumentar e as empresas terão ainda mais dificuldades para produzir, vender e contratar.
Não existe milagre em economia. Quando as despesas crescem acima da capacidade de financiamento do Estado, a conta aparece em algum lugar. Pode ser no aumento dos impostos, na inflação, no endividamento ou na redução dos investimentos.
E quem paga é o povo.
Se Flávio ganhar, espero que tenha coragem para fazer uma ampla reforma do Estado. Cortar despesas desnecessárias, eliminar estruturas que não produzem resultados, combater a corrupção, reduzir impostos e criar condições para que o setor produtivo volte a investir.
O Brasil precisa aumentar suas exportações, fortalecer a indústria, ampliar a produção agrícola, atrair empresas estrangeiras e aproveitar melhor as oportunidades comerciais com outros países.
Tenho 36 anos de experiência de mercado e aprendi que nenhuma organização consegue crescer de maneira saudável gastando mais do que pode e deixando de investir naquilo que produz resultados.
O Estado tem suas particularidades, mas não está dispensado de fazer contas.
Se Lula ganhar, minha preocupação também será com a segurança pública.
A criminalidade organizada está cada vez mais poderosa. Existem comunidades onde o tráfico determina quem entra, quem sai, quem pode trabalhar e até como as pessoas devem viver.
Enquanto isso, continuamos discutindo benefícios penais, progressão de pena e saídas temporárias, muitas vezes deixando em segundo plano o sofrimento das vítimas e suas famílias.
Não concordo com um sistema que permite a determinados criminosos condenados por crimes gravíssimos voltar à liberdade antes de cumprir integralmente suas penas.
Também considero necessária uma revisão da legislação aplicada aos adolescentes que cometem homicídios, estupros e outros crimes violentos. Hoje, um jovem de 16 ou 17 anos pode cometer um crime dessa natureza e ficar submetido a uma internação socioeducativa limitada a três anos.
Quem perdeu um filho, uma filha, um pai ou uma mãe para a violência dificilmente considera isso uma resposta suficiente.
Se Flávio ganhar, espero mudanças profundas nessa área.
Defendo o endurecimento das penas para crimes violentos, a revisão das regras de progressão, mudanças nas audiências de custódia e maior rigor contra criminosos reincidentes.
Defendo também que os recursos e bens apreendidos das organizações criminosas sejam utilizados, nos limites da legislação, para reparar os prejuízos das vítimas e de suas famílias.
Mas existe outra questão que me chama muito a atenção: a tecnologia.
O Brasil poderia utilizar muito mais inteligência artificial, drones, sensores, câmeras inteligentes e sistemas integrados de informação na segurança pública.
Estamos falando de um país com dimensões continentais, milhares de quilômetros de fronteiras e organizações criminosas que movimentam bilhões de reais.
Não podemos continuar combatendo estruturas criminosas altamente organizadas utilizando métodos ultrapassados e informações que muitas vezes nem sequer são compartilhadas entre os órgãos de segurança.
Precisamos integrar nossas polícias, investir em inteligência e monitoramento, utilizar tecnologia para prevenir crimes e identificar a movimentação financeira das organizações criminosas.
Também considero fundamental ampliar a cooperação com os países das Américas para enfrentar o narcotráfico, o tráfico de armas e as organizações criminosas transnacionais, inclusive discutindo instrumentos jurídicos mais rigorosos de combate a esses grupos.
Não basta prender o traficante da esquina enquanto os responsáveis pelo financiamento e pela estrutura das organizações continuam movimentando dinheiro.
É preciso atingir o comando e, principalmente, o dinheiro do crime.
Vou ficar por aqui para não tornar este artigo cansativo. Poderia continuar falando sobre educação, saúde, infraestrutura, relações internacionais e administração pública, mas acredito que esses exemplos sejam suficientes para explicar minha preocupação com o futuro do Brasil.
Na minha avaliação, estamos diante de dois caminhos bastante diferentes.
Acredito que Flávio poderá representar uma mudança importante na condução econômica e administrativa do país. É jovem, tem a oportunidade de reunir uma equipe de ministros técnicos e poderá estabelecer relações mais próximas com países que defendem a liberdade econômica e o fortalecimento da iniciativa privada.
É claro que tudo dependerá das decisões que tomar, da equipe que escolher e da capacidade de conseguir apoio político para executar as mudanças.
Quanto a Lula, não vejo motivos para acreditar que um novo mandato representará uma mudança profunda na maneira como administra o país. Minha expectativa é de continuidade de um modelo que considero excessivamente dependente dos gastos públicos e pouco comprometido com a redução do tamanho do Estado.
Posso estar errado em algumas previsões. Economia não é uma ciência de resultados automáticos, e nenhum presidente controla sozinho o mercado, o Congresso ou os acontecimentos internacionais.
Mas tenho minhas convicções, construídas ao longo de muitos anos de trabalho, estudo e observação da realidade brasileira.
E uma delas é que não existe prosperidade duradoura sem produção, investimento, segurança e respeito ao dinheiro de quem trabalha.
Quem governa pode fazer promessas. Quem produz precisa pagar a folha de salários, os fornecedores, os impostos e todas as demais despesas, independentemente de como esteja a economia.
E quem vive do próprio trabalho sabe muito bem o que significa chegar ao final do mês e descobrir que o dinheiro não foi suficiente.
Por isso, quando penso nesses dois cenários, não penso apenas em quem estará ocupando a Presidência da República.
Penso no empresário que poderá fechar as portas, no trabalhador que precisa de emprego, na família que não consegue pagar suas contas e no cidadão que tem medo de sair de casa.
É sobre essas pessoas que as decisões de governo produzem consequências.
Tenho minha posição e não escondo.
A escolha é sua. Mas as consequências não serão apenas suas. Serão de todos os brasileiros.
*Publicitário, cientista político e social
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