Do jornal O Globo
A cúpula nacional do Republicanos avalia interromper o processo de afastamento que marcou a relação nos últimos meses com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. A possível mudança de rota acontece enquanto a cúpula do partido tenta se descolar das fraudes financeiras do Banco Digimais, do Bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.
O banco foi alvo de uma operação da Polícia Federal, e a avaliação na sigla é que o governo Lula não tem se movido na tentativa de encontrar soluções para o rombo da instituição financeira. A Universal tem forte ligação com o Republicanos. O presidente do partido, Marcos Pereira, é bispo da igreja e aliado próximo de Macedo. Apesar disso, a aliados, Pereira diz que a legenda conquistou vida própria e que grande parte dos parlamentares não têm ligação com a Universal nem é evangélica.
Leia maisDentro desse contexto de insatisfação com o governo Lula, vem ganhando força em conversas no partido a defesa do nome da economista Daniella Marques para vice de Flávio. Ela foi presidente da Caixa no governo de Jair Bolsonaro, integrou a equipe do ministro Paulo Guedes e hoje assessora a pré-campanha de Flávio na área econômica. “Ela é forte, inteligente e está no Republicanos. Pode ser uma boa vice dele (Flávio)”, disse a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Daniella se filiou ao partido em abril, prazo máximo para estar apta a concorrer em outubro. Ainda não há definição sobre o caminho que o Republicanos vai tomar na campanha presidencial, e alas do partido próximas a Lula defendem a neutralidade, com cada integrante se posicionando de acordo com seus interesses.
A reaproximação do Republicanos com Flávio acontece após uma resistência inicial do partido em compor com ele. A cúpula nacional da legenda se mostrou insatisfeita com a escolha do senador e não do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como candidato a presidente apoiado pelo bolsonarismo.
O escândalo de fraude financeira do banco Master também contribuiu para a afastar o senador da legenda. Foi revelado que Flávio mantinha uma relação de proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Master, e isso provocou uma queda do senador nas pesquisas. O senador não chegou a recuperar o mesmo patamar de antes da crise, mas conseguiu se estabilizar nos últimos levantamentos.
Por outro lado, a crise teve efeitos mais profundos na federação União-PP, que também tem seus dirigentes partidários com relações próximas com Vorcaro. A federação vê hoje a neutralidade como caminho mais provável, enquanto o Republicanos ainda avalia a possibilidade de apoio ao PL.
Há poucos meses, a cúpula do Republicanos vinha dando sinais de uma trégua com Lula e de afastamento em relação a Flávio. Como mostrou a newsletter Jogo Político, do jornal O Globo, a mudança de postura da Universal sobre o PT ficou evidente na Semana Santa. Embora tenha passado o mês de março anunciando que enviaria um recado crítico para a esquerda nos eventos da Sexta-feira da Paixão em estádios lotados pelo Brasil, isso não aconteceu. No mesmo período, Pereira também deu entrevistas marcando distância em relação a Flávio.
Reservadamente, no entanto, integrantes do partido reconhecem que o caso Digimais adicionou mais um ingrediente nessa disputa interna. Outro grupo sustenta que a operação da PF não tem relação com o caminho político que a sigla deve tomar e que a decisão sobre a disputa ao Palácio do Planalto será tomada independentemente dos rumos das investigações da PF.
O banco chegou a negociar uma possível compra pelo BTG, em uma operação que previa um aporte de R$ 7 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Embora privado, o FGC tem o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal como membros, o que assegura influência do governo federal. Sem essa operação e diante da operação da PF que gerou o bloqueio de R$ 670 milhões, mercado e agências de classificação de risco veem situação do Digimais se complicar.
Alvo de operação da Polícia Federal (PF) na última terça-feira, o Digimais é suspeito de fraudar o sistema financeiro do país com uma série de operações. A investigação aponta que a instituição que pertence ao líder da Igreja Universal fraudava seu balanço e supervalorizava ativos para maquiar seu patrimônio e induzir investidores ao erro.
O Digimais afirmou, em nota, que está à disposição das autoridades para dar explicações e colaborar com a Justiça. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, afirmou o banco, em nota.
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