Recebi, na noite desta quinta-feira (16), o título de cidadão triunfense em sessão solene na Câmara Municipal de Triunfo, em uma cerimônia marcada por emoção e reconhecimento à minha trajetória na comunicação e à relação construída ao longo dos anos com o município. A homenagem foi uma iniciativa do vereador José Carlos de Solon.

Em discurso de agradecimento, ressaltei minha ligação afetiva com a cidade, destaquei sua importância cultural e histórica e reafirmei o compromisso de seguir valorizando Triunfo por meio do jornalismo.
Confira o discurso na íntegra:
Minha Triunfo, há quanto tempo te amo? Não sei. Perdi a exata noção do nosso tempo de encantamento, do tempo em que te vi pela primeira vez e, embriagado de amor, chorei demoradamente, silenciosamente, abraçado ao Cine Guarany.
Colírio aos olhos, teu cinema, que encanta de longe, é pérola banhada em ouro, diamante cultural vivo e permanente, madeira de lei que cupim não rói, nem o tempo, que é o senhor da razão, o destrói.

Como amar uma cidade? Quem for capaz de decifrar tamanho mistério que atire o primeiro soneto sobre meu coração indecifrável! Não se ama uma cidade como se ama uma mulher loucamente, apaixonadamente.

Amar uma cidade é vê-la num rosto com corpo de pedra, como definiu Machado de Assis, que amou o Rio, amou mulheres, amou a vida. Amar uma cidade é semelhante à sensualidade feminina. Seus encantos não se escondem, se revelam como um corpo estrutural de uma mulher.

Como uma cidade, uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza. Uma beleza que vem de se saber ser mulher, um molejo de amor que dá saudade, seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.

Amo minha Nayla, que aqui veio se emocionar comigo, porque me ensinou a amar a vida, a não desistir da luta, a recomeçar na derrota. Depois dela, nunca escrevi uma palavra para lamentar a vida. Meu verso é água corrente, é tronco, é fronde, é folha, é semente, é vida!

Já te amo, Triunfo, desde o tempo em que o verbo me fez carne, me fez gente. Te amo no coração do teu interior, no teu profundo silêncio, que me ensinou a ouvir o meu tempo, um tempo perdido e mais tarde achado em cada esquina dos teus casarões coloniais, que revelam a beleza simples de uma cidade que acolhe sem pressa, em forma de poesia.
O tempo também se encarregou de transformar teu solo seco, mas fértil, no meu refúgio poético, onde Deus colocou a mão e desenhou um paraíso. Nem de longe, aqui se confunde com o chão de vidas secas, de severinas e joãos, de marias e josés.
Há de se perguntar e eu me pergunto todos os dias: como não se render à beleza da névoa seca que escorre dos teus céus e repousa sobre telhados antigos como se o próprio céu suspirasse em Triunfo?
Aqui, em teu solo, o calendário do tempo de hoje e não o de ontem, que ficou para trás, é como a fotografia dolorida de Drummond na parede.
Hoje viro, finalmente, cidadão triunfense. Que honra para um pobre plebeu! Agora já posso subir e descer essas ladeiras poéticas e históricas cantando o que tanto escrevi lá atrás, onde cantarolei a cidade em que a serra abraça o céu e o sertão ganha ares de romance.
Meu caro José Carlos Solon, autor desta honraria, também fortemente pleiteada por meus amigos João Batista Rodrigues, ex-prefeito deste município, e Rogério Mota, o embaixador de Triunfo. Caros vereadores, prefeito Luciano Bomfim:
A cidadania honorária é o laço de sangue que o coração escolheu firmar com a cidade. Ao me consagrar cidadão triunfense, passo a ser parte da história desta apaixonante, romântica e sedutora cidade. Viro promotor da sua identidade e da sua cultura.
Ninguém nasce cidadão de um lugar, torna-se cidadão através de suas ações e do amor pela comunidade. Vasculhando meu livro do tempo que se foi encontrei um cabedal de declarações de amor a Triunfo. Serviço prestado a uma cidade não se traduz apenas em obras concretas, de pau e pedra.
Se traduz também em palavras que o vento não leva. Em palavras que a difundem e valorizam, que viram chama para atrair turistas e movimentar a economia. Como jornalista, foi assim que ajudei Triunfo, será no exercício deste ofício que prometo continuar hoje e amanhã, com uma caneta sempre recheada, que nunca vai secar.
Nos meus manuscritos amarelados pelo tempo escrevi que Triunfo é um pedaço do céu no mundo, poesia em cada botão que se abre. É a prova de que o Sertão também é verde, úmido e cheio de vida. É o retrato da névoa dançando com o sol, o frio que aconchega o peito.
Triunfo é estado de alma, um desses espaços em que a geografia se curva à poesia e o tempo parece andar de mansinho, com passos de neblina.
Aqui, quando a névoa escorre dos céus e repousa sobre seus telhados antigos, é como se o próprio céu suspirasse. E nesse suspiro, o mundo todo se cala para ouvir o sertão respirando, Pernambuco latejando.
Eu sou tão apaixonado por Triunfo que do alto de seus mirantes, com o som distante do sino da matriz rompendo o silêncio, a sensação que tenho é que o mundo parece se encolher. Se impõe por força, por grandeza geopolítica, pela altivez de sua beleza escondida, quase secreta.
Triunfo, envolta em brumas, como disse o poeta Flávio Chaves, é um altar erguido às tradições, à memória e à identidade nordestina em sua forma mais plena, mais sutil, mais sagrada. É como se o chão seco do Nordeste vestisse um casaco de inverno, só para nos surpreender. E o resultado não é contraste, é composição. É poesia.
Uma poesia que não se escreve com palavras, mas com neblina, pedras antigas, silêncio e cheiro de café coado na varanda. Em Triunfo, tudo vira poesia e encantamento: o histórico Teatro Guarany, o Teleférico, o Pico do Papagaio, os Caretas, o singular Lago João Barbosa, a Cachoeira do Pinga, o Museu do Cangaço e o Engenho São Pedro.
Eu não tenho dúvida de que os habitantes primitivos da Serra da Baixa Verde, antiga denominação de Triunfo, no final do século XVIII, os índios Cariris, também usavam o dialeto da poesia. No abraço com a natureza, eles introduziram cultura, uma rica história que se reflete na arquitetura colonial e na hospitalidade do povo triunfense.
Minha gente, meus caros vereadores:
Eu não venho de longe. Venho de Afogados da Ingazeira, sou do Pajeú das Flores, sou da terra onde as almas são todas de cantadores, parodiando Rogaciano Leite.
Nasci entre garranchos e espinhos, ao som da viola de trovadores com suas calças riscadas, cantando a fome e o amor.
Vim da terra da força do sol, da beleza do rouxinol, da bravura do cangaço, da esperança da chuva, do silêncio profundo que ecoa a sabedoria da terra.
Como disse Guimarães Rosa: no sertão, o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
Ter nascido por aqui é carregar no peito a força do sol, no coração o brilho da lua, a fé que não falha, a esperança que nunca morre. Podemos bater no peito e com orgulho proclamar: somos da terra onde o mandacaru floresce e a vida vence a seca.
Obrigado, Triunfo! Tu és incrível porque não és fácil. Se tu fosses fácil, não serias incrível.
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