Por Bela Magale
Do jornal O Globo
Ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avaliam que o presidente da corte, Kassio Nunes Marques, entrou no segundo turno das eleições no modo “tratoraço” e deixou para trás a postura de equilíbrio que tentava cultivar. A visão é compartilhada por integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).
Quatro membros da corte eleitoral ouvidos pela coluna disseram que o fato de Flávio Bolsonaro ter terminado o primeiro turno com pouco menos de dois pontos percentuais à frente de Lula tem feito Nunes Marques partir para o “tudo ou nada”.
Leia mais“Ele ligou o trator e está vindo com tudo. Inclusive contra as prerrogativas dos juízes do próprio tribunal e contra o plenário do TSE”, resumiu um ministro da corte eleitoral.
A leitura desses ministros é que, após Flávio Bolsonaro ter tomado a dianteira no primeiro turno, Nunes Marques teria avaliado que os membros do tribunal fariam gestos ao candidato do PL. Essa ala do TSE acredita que Nunes Marques interpretou a decisão da corte eleitoral de anular votos de Anthony Garotinho e dar vitória no primeiro turno a Douglas Ruas (PL), aliado de Flávio no Rio de Janeiro, como um sinal neste sentido.
As decisões que se seguiram no plenário virtual, no entanto, impuseram derrotas para Flávio Bolsonaro, o que fez com que Nunes Marques entrasse em campo. Na sexta-feira (9), ele suspendeu o julgamento virtual de três casos em que já havia maioria favorável à campanha de Lula.
Ontem (11), o presidente do TSE atropelou uma decisão do corregedor da corte, o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, e determinou a suspensão do canal “Exército do Lula” no WhatsApp, coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG). O pedido foi feito pela campanha de Flávio Bolsonaro.
Posteriormente, Cueva derrubou a decisão de Nunes Marques e restabeleceu o canal de WhatsApp “Exército do Lula”. Como informou O GLOBO, a avaliação de integrantes do TSE é de que a decisão de Nunes Marques resulta em uma quebra de confiança, não só da sociedade com o tribunal, mas também internamente.
Integrantes da corte eleitoral e do STF destacam que, ao derrubar o canal de apoio a Lula, Nunes Marques deu uma decisão no âmbito administrativo e usou o poder de polícia conferido ao presidente do TSE de maneira errada. Isso porque esse poder de suspender divulgação de conteúdo pelo presidente da corte só se aplica a casos de fake news contra o próprio TSE e à Justiça Eleitoral, como ataques às urnas.
Ministros da corte eleitoral relataram que houve uma mudança de postura de Nunes Marques após o primeiro turno. Eles afirmam que, antes, o presidente do TSE buscava algum diálogo e até voltava atrás quando avaliava que havia pesado a mão em algum tema, como foi o caso das pesquisas eleitorais e o uso de avatares com Inteligência Artificial pelas campanhas.
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