Por Djnaldo Galindo*
Esses homens, que inventaram os números, inventaram também a passagem do ano. Puseram no relógio um instante falso em que tudo começa outra vez. Minhas árvores e meu cão não sabem desse conto.
O rei Sol no seu fabuloso ocaso segue o seu caminho sem pensar em antes ou depois. Só a casa, com seu calendário na parede, acredita nessa separação da noite. Mas eu, que sou apenas um a recusar essa ilusão, vejo a tolice e a verdade ao mesmo tempo. Vejo a mentira: o tempo não cai nem nas folhas que se rasgam de um bloco. Vejo o rito: a esperança no peito do homem de que um dia pode ser diferente do dia anterior.
Leia maisE talvez seja. Não porque o céu vire uma página, mas porque um homem, cansado de si, olha para trás como quem deixa um casaco velho e decide, num gesto simples da alma, andar mais leve a partir de qualquer manhã.
O ano não passa. Nós é que passamos. E nessa travessia, que é contínua, há um lugar inventado para respirar, para dizer: daqui em diante, serei mais eu, mesmo sabendo que o sol de amanhã é o mesmo sol que secou a roupa de ontem.
Assim seja. Celebro a ilusão útil. Aproveito a ponte que os homens construíram sobre o rio sempre igual das horas. E cruzo-a, não como quem muda de mundo, mas como quem tira o pó dos sapatos e sente, sob a sola, a terra nova — que sempre esteve lá — esperando por um passo mais consciente.
*Escritor
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