O empresário Eduardo Paes Mendonça morreu nesta terça-feira (27), no Recife, aos 83 anos. Sergipano de nascimento e pernambucano “por adoção e merecimento”, como é descrito em suas memórias, deixa esposa, três filhos, cinco netos e os irmãos João Carlos Paes Mendonça, José Américo Mendonça, Reginaldo Paes Mendonça, Maria Mendonça, Ester Mendonça Ferreira, Josefa Cecinha Mendonça, Joseilde Mendonça Prado. O velório começa nesta quarta (28), às 10h, no cemitério Morada da Paz, em Paulista, seguido de missa às 14h e cerimônia de cremação às 15h. As informações são do JC.
Irmão de João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, Eduardo seguiu um caminho próprio. Trabalhou na rede de supermercados até a venda aos holandeses, presidiu uma das principais gráficas de Pernambuco e, nos últimos anos, dedicou-se a empreendimentos imobiliários e shopping centers com os filhos.
Leia mais“Perdemos um irmão querido. Uma pessoa exemplar. Um homem de muitos amigos e de uma leveza que agregava as pessoas em torno dele. Como diretor no Bompreço, deixou sua marca ao liderar o time a partir da confiança que todos tinham nele e no sentimento de estarem todos juntos pelos mesmos desafios”, comenta João Carlos ao lamentar a morte do irmão.
Carreira empresarial
No Bompreço, Eduardo cuidava do dia a dia da central de distribuição, da segurança, das compras de material, da embalagem, das obras e dos veículos. Foi ali que treinou o olhar para oportunidades de negócio. Ficou na empresa até a venda total da rede e saiu junto com João Carlos.
Ainda na primeira etapa da venda, comprou a Gráfica JC, que pertencia ao Jornal do Commercio e atendia apenas às demandas do Bompreço. O jornal havia sido adquirido em 1987 pelo Grupo JCPM, e a gráfica estava praticamente sucateada. Eduardo assumiu a presidência e rebatizou a empresa de Intergraf.
Com equipamentos modernos, a Intergraf se tornou a primeira gráfica de Pernambuco com máquina de impressão de folha inteira em quatro cores e com certificado ISO 9001 de qualidade. Pouco depois, já era a maior concorrente da Gráfica Santa Marta, líder do mercado na época. Depois de 10 anos, ele decidiu encerrar a participação no segmento, por divergir das práticas comerciais do setor, e desativou a empresa em vez de vendê-la.
Novos negócios
Eduardo comprou ainda a Wolk Elevadores, pequena empresa de manutenção. Deu visibilidade à marca e fechou uma parceria com a Hyundai para fazer a manutenção e distribuir os elevadores da fabricante, com exclusividade no Brasil. Mais tarde, desfez-se da empresa.
Passou então a se dedicar à holding Emel Investment, a Eduardo Mendonça Empreendimentos, voltada a empreendimentos imobiliários e shopping centers. A filha Danielle cuida da parte administrativa e financeira, e o filho Eduardo Filho, da operação. A filha Viviane, que mora em São Paulo, é acionista.
Por meio da holding, ele e os filhos mantinham sociedade com os irmãos em vários negócios herdados dos pais. Tinham também participação nos shoppings Recife, Tacaruna, Guararapes, RioMar Recife, RioMar Fortaleza, RioMar Presidente Kennedy e Salvador Shopping, além de uma empresa de investimentos no mercado internacional.
Desafios
Eduardo nasceu com uma fissura submucosa no palato, que só foi diagnosticada quando tinha 69 anos. Até lá, conviveu com a voz fanhosa e a dificuldade de falar. Na infância, a mãe o levou a um otorrino, que apontou adenoide, e ele foi operado sem que nada mudasse. Por volta dos 16 anos, viajou ao Rio de Janeiro com o irmão João Carlos para consultar um neurocirurgião famoso, que também não encontrou explicação.
A busca por respostas o levou a São Paulo e, depois, ao Recife, onde começou a fonoterapia com a fonoaudióloga Patrícia Balata. Em 2012, já com diagnóstico de doença de Parkinson, que pode afetar voz, fala, mastigação e deglutição, decidiu aceitar a doença e começar uma luta diária contra ela, com pilates, musculação, osteopatia e alongamentos.
Ainda em 2012, o cirurgião plástico Diógenes Rocha confirmou a fissura e propôs a correção. Eduardo foi, segundo o próprio médico, o paciente mais velho em que ele fez esse tipo de cirurgia. Houve complicações, com fístulas que reabriram, e novas operações em 2013 e em 2014. Entre uma e outra, passou por duas pontes de safena e uma mamária. O resultado não foi o esperado, mas ele nunca se queixou.
Da própria dificuldade, Eduardo fez causa. Depois de descobrir, aos 69 anos, que tinha uma fissura submucosa no palato, decidiu ajudar quem enfrentava o mesmo problema e criou uma estrutura de acolhimento no Recife, pensada para famílias que viajam à cidade em busca de tratamento especializado. A Casa Sorrir começou a funcionar em 2017, e o Instituto José Eduardo Mendonça, responsável por ela, foi formalizado em janeiro de 2018.
A organização social acolhe pessoas com fissura labiopalatina, malformação congênita que afeta o lábio, o céu da boca ou ambos, e vai além da assistência durante o tratamento. A proposta é dar a pacientes e familiares condições de reconstruir a vida, com acesso a educação, capacitação e oportunidades profissionais. A casa atende sobretudo pacientes do Centro de Atenção aos Defeitos da Face (Cadefi), do Imip, em tratamentos que podem exigir várias cirurgias e anos de acompanhamento. Muitas famílias vêm do interior de Pernambuco e de outros estados e não têm como se manter no Recife.
Lições deixadas
Nas memórias, Eduardo falava com franqueza dos acertos e dos tropeços. Considerava as experiências menos bem-sucedidas as mais valiosas para repassar aos jovens empreendedores, entre elas a de não estudar antes qual é o melhor negócio para investir.
Defendia que, além de gostar do ramo e trabalhar duro, o sucesso depende de ambiente saudável, bom relacionamento com clientes, fornecedores e parceiros, ética, moral e credibilidade. A recomendação principal era a humildade, sobretudo nas empresas familiares.
Raízes sergipanas
Eduardo nasceu na Serra do Machado, pequeno lugarejo do distrito de Ribeirópolis, em Sergipe, terra de almocreves e boiadeiros que rasgavam a caatinga rumo ao Sertão. Foi o terceiro filho homem de Pedro Paes Mendonça e Maria Dudu, gente trabalhadora e de fé, que acordava cedo para a labuta.
A família deixou a Serra do Machado para Ribeirópolis e depois para Aracaju, porque seu Pedro queria os filhos em boas escolas. A infância foi difícil. Eduardo ficou sem falar até os 7 anos e, quando começou, a pronúncia defeituosa o expôs a bullying e a certa retração social, superada aos poucos.
Juventude trabalhadora
Em 22 de abril de 1959, o armazém do pai, principal fonte de renda da família, foi destruído por um incêndio. Eduardo se uniu aos irmãos João Carlos e José Américo para ajudar seu Pedro a reconstruir o patrimônio. Aos 16 anos, passou a cursar Contabilidade à noite, no Colégio Tobias Barreto, e a trabalhar de dia no novo armazém, embalando mercadorias e organizando produtos nas gôndolas.
A confiança do pai cresceu depressa. Eduardo cuidou da Feira do Alumínio, recebeu a loja do Mercado Público de Aracaju, em frente à de “seu” Pedro, e aos 17 anos já respondia pela distribuição do rum Bacardi na empresa da família. Administrou ainda a loja de Ribeirópolis, que abria toda semana para a feira. Desde cedo, era conhecido pelo capricho com o leiaute das lojas.
Aos 19 anos, assumiu a gerência de uma usina de beneficiamento de arroz e farinha de milho, em Propriá, e tornou-se, segundo livro “O dito e o não dito”, o empresário de arroz mais jovem do Brasil. Foram 5 anos na cidade, dois deles na casa da irmã Joseilde.
Vida pessoal
Nas horas livres, jogava futebol ao lado de craques sergipanos que fizeram carreira em grandes clubes de Pernambuco e era um dançarino disputado nos salões. Foi num baile em Penedo, em Alagoas, que viu entrar uma moça e avisou ao amigo que se casaria com ela. Era Ana Maria Santa Rita.
Fazia questão de agradecer ao irmão mais velho, João Carlos, que o incentivou nos negócios da família e na fase de expansão do Bompreço.
Quando a pandemia impôs o isolamento, Eduardo passou a revisitar o passado como quem procura uma forma de ocupar o tempo, e descobriu, como ele mesmo registrou, que “uma história puxa outra”. Os dias que pareciam enterrados na memória, mas estavam apenas guardados no fundo da consciência, foram ganhando forma em “A pedra do meu caminho”, em primeira pessoa, e em “O dito e o não dito”, em terceira. Eduardo fez do gosto de lembrar um legado, e deixou para a família, e para quem vier depois, uma trajetória contada com os acertos e os tropeços.
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